Escolhas

Todos os dias temos que fazer escolhas.
E isso começa antes mesmo da gente levantar da cama. Tem o instante em que o corpo acorda, mas a cabeça ainda fica ali, negociando com o tempo. Levantar ou ficar mais um pouco. Fazer ou adiar. Ir ou não ir. Parece pequeno, mas é nesse pequeno que o dia inteiro começa a ser desenhado.
A vida vai sendo isso, uma sequência de decisões silenciosas. O que comer, o que vestir, o que resolver primeiro, o que deixar passar. E a gente vai indo, quase sem perceber, acreditando que está no controle.
Mas há quase um ano esse controle mudou de lugar dentro da minha casa.
Minha mãe está comigo. E não é mais aquela presença autônoma de antes. Ela começou a se perder em coisas simples, depois em coisas mais complexas, até que chegou um ponto em que a realidade dela deixou de ser segura. Não foi uma virada brusca. Foi um desgaste lento, que a gente vai tentando explicar, até não ter mais como.
Hoje, ela depende de mim pra quase tudo que envolve decisão.
E isso não é leve.
Tem dias em que ela acorda melhor. Conversa, lembra de coisas antigas, parece atravessar um instante de lucidez que engana o coração da gente. Mas tem dias em que ela se perde completamente. Fica confusa, insegura, triste sem conseguir dizer direito o porquê. E nesses dias, eu já acordo sabendo que vou precisar conduzir tudo com mais firmeza.
Levar, buscar, organizar, decidir. Sempre decidir.
Outro dia eu vi um vídeo sobre barcos. Mas não ficou na minha cabeça como uma metáfora bonita e distante. Ficou mais próximo da vida real. Era como se dois barcos estivessem no mesmo lago, e em um deles nós estivéssemos conduzindo. Remando, tentando manter o rumo. Só que, em determinado momento, esse barco se aproxima de um vazio. Não um vazio de pessoas, mas um vazio de resposta, de direção, de troca. Um espaço onde não há mais movimento do outro lado como antes.
E o impacto acontece.
Não porque alguém quis. Não porque houve intenção. Mas porque é assim que o caminho vai se desenhando.
E isso me atravessou, porque é muito parecido com o que vivo com ela.
Eu estou conduzindo o barco da minha mãe.
E, em muitos momentos, ele bate nesse vazio das escolhas que ela já não consegue mais fazer.
E isso dói de um jeito difícil de explicar.
Porque decidir por alguém que um dia decidiu por você mexe com tudo por dentro. Não é só responsabilidade. É um tipo de inversão da vida. Eu decido a hora de sair, o que ela vai fazer no dia, onde ela fica mais segura, o que ela pode ou não fazer sozinha, o que precisa ser insistido mesmo quando ela não entende.
E tem um ponto especialmente difícil nisso: as medicações.
Ela muitas vezes não aceita. Não entende. Questiona. Esquece. E eu fico nesse lugar estranho entre respeitar o que ela sente naquele momento e garantir que ela não se coloque em risco. E quase sempre a escolha recai sobre mim. Mesmo quando ela me olha sem compreender, como se aquilo não fizesse sentido nenhum.
Mas não é simples.
É cuidado atravessado por culpa.
É amor atravessado por limite.
É presença atravessada por tristeza.
E eu sinto isso todos os dias.
Porque ela não queria isso. Ela não escolheria isso. E, ainda assim, é isso que está acontecendo.
E no meio dessa rotina toda, tem um silêncio que cresce.
Eu não tenho ninguém.
Não tenho filhos. Não tenho alguém que naturalmente assuma esse lugar de continuidade, de decisão por mim no futuro. Fora minha mãe, que provavelmente vai partir antes de mim, não existe uma rede clara que me sustente se um dia eu também não puder mais escolher.
E essa pergunta começa a aparecer de forma cada vez mais concreta.
Quando eu não conseguir mais decidir por mim… quem vai decidir?
Quem vai dizer o que fazer comigo, o que permitir, o que suspender, o que manter?
Qual caminho a vida vai escolher por mim quando eu não tiver mais voz dentro dela?
Isso não vem como drama. Vem como consciência.
E talvez seja aqui que entra outra parte da minha história, que também é feita de escolhas.
Já fiz muitas escolhas na vida. Algumas eu considero erradas, outras eu nem sei se foram certas ou erradas, só sei que me trouxeram até aqui. E muitas delas já não podem ser desfeitas. Não existe mais volta. O que existe é o resultado delas.
Às vezes eu me pego voltando no tempo na cabeça. Se eu não tivesse aceitado aquele convite. Se eu não tivesse ido por aquele caminho. Se eu tivesse dito não em vez de sim. E por um instante parece que a vida abre outras versões possíveis.
Mas sempre chega um ponto em que esse pensamento esbarra na realidade mais simples de todas: se eu tivesse escolhido diferente em alguns momentos, muita gente que está na minha vida hoje não estaria aqui.
Um dia desses eu conversei com uma amiga sobre isso. Ela me disse algo que ficou comigo. Se pudesse voltar em uma escolha da vida dela, ela não faria o que fez. Mesmo sabendo que isso significaria perder pessoas muito importantes, até coisas como os próprios filhos. Ela falou isso com uma sinceridade dura, quase sem romantizar.
Eu respondi de outro jeito. Eu disse que não sei se conseguiria apagar escolhas assim. Não porque tudo foi certo, mas porque eu não quero abrir mão das pessoas que chegaram até mim por causa delas. Mesmo com os erros, mesmo com os caminhos difíceis, mesmo com as dores. Sobrou gente. Sobrou história. Sobrou vida.
E eu não sei se isso se descarta.
Porque no fim, não são só escolhas. São consequências que viraram encontros.
E talvez a vida seja isso mesmo.
Um conjunto de decisões que, boas ou ruins, vão colocando pessoas no nosso caminho.
E eu não sei se eu mudaria o passado.
Mas eu sei que não quero perder o que ele me trouxe.
E hoje, no meio de tudo isso, eu sigo assim.
Escolhendo por ela.
Tentando não me perder em mim.
E convivendo com essa pergunta que não me larga:
se um dia eu não puder mais escolher… quem vai escolher por mim?

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