Pé frio
Fui dar o remédio pra mamãe. Entreguei os comprimidos, o copinho d’água. Com dificuldade, ela se sentou na cama, pegou os medicamentos, olhou atentamente para eles. Colocou primeiro o menor, depois o maior comprimido na boca. Com as mãos trêmulas, levou a água e, com esforço, engoliu. Me devolveu o copo, agradeceu… ou melhor, me abençoou. Fui até a cozinha guardar o copo. Quando voltei, vi que seus pés estavam de fora. Sei como ela é friorenta. Fui lá e cobri. Deu uma vontade de deitar ao lado dela. Às vezes faço isso. Deito, mas com cuidado pra não encostar. Ela sempre teve um certo receio… uma resistência ao toque de um homem, mesmo sendo eu, seu filho. Do nada, falei: — Mãe, vou dormir aqui com a senhora. Ela estranhou: — Como assim, vai dormir comigo? — Tô morrendo de frio… vou deitar aqui. Agora que a senhora tá com esse cobertor novo, bem quentinho… Esse cobertor, na verdade, tem história. Eram dois, largados na casa velha. Fui lá esses dias tirar os móveis, o resto de entulho, p...