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os 3 juntos

Hoje, quando cheguei ao trabalho, acho que estava evidente para todo mundo que eu tinha passado a noite praticamente acordado. Meu rosto denuncia quando isso acontece. O cansaço muda meu jeito de trabalhar, muda minha expressão, muda até a forma como eu caminho. Eu, que normalmente sou brincalhão, descontraído e converso com todo mundo, fico mais quieto, mais fechado, quase carrancudo. Até minha concentração muda. E quem trabalha comigo percebe. Em algum momento do plantão, não lembro exatamente se fui eu quem comentou primeiro ou se alguém perguntou, o assunto acabou chegando na minha mãe. Falei que tinha amanhecido acordado, que a insônia tinha vindo forte naquela madrugada e que fiquei pensando nela na clínica. Foi então que o Paulo, um dos auxiliares de enfermagem que trabalha comigo, parou na minha frente com uma expressão séria e falou: — Quero deixar uma coisa muito clara pra você, Claudinei. Aquilo me chamou atenção na hora. O jeito que ele falou parecia menos um conselho e mai...

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A melhora da minha mãe acabou trazendo um problema que eu não esperava. Quanto mais lúida ela parecia ficar dentro da clínica, mais ela acreditava que havia recuperado completamente sua autonomia. Na cabeça dela, já não fazia sentido continuar frequentando aquele lugar durante o dia. Todas as manhãs passaram a ser difíceis. Eu acordava, preparava o café, tentava manter uma rotina tranquila e, no momento em que falava para ela pentear o cabelo e se arrumar para irmos, começava o sofrimento. “Por que eu tenho que ir naquele lugar?” “Aquele lugar é horrível.” “Só tem velho e gente ruim da cabeça lá.” “Eu quero ficar na minha casa.” “Por que você está fazendo isso comigo?” Mas havia uma acusação que começou a se repetir com frequência e que me machucava profundamente. Ela dizia: “Quanto estão te pagando pra me levar lá?” Na cabeça dela, alguém me dava dinheiro para deixá-la naquela clínica. Ela já não conseguia compreender que era exatamente o contrário. Que eu trabalhava justamente para c...

cknt

Então expliquei tudo isso para o Paulo. Expliquei que meu intuito inicial nunca foi “internar” minha mãe definitivamente. Quando trouxe ela para morar comigo, a ideia era justamente o contrário: tentar reconstruir uma convivência, cuidar dela mais de perto, acompanhar os remédios, a alimentação, fazer companhia, tentar oferecer um pouco de dignidade e acolhimento nessa fase final da vida. Só que a doença avançou muito rápido. O declínio dela foi assustadoramente acelerado. E isso começou a me desesperar. Foi então que comecei, com muito peso no coração, a pensar na possibilidade de procurar uma clínica para idosos. Lembro perfeitamente da primeira vez que fui conhecer aquele lugar. Aquilo mexeu profundamente comigo. Voltei para casa destruído emocionalmente. Parecia que eu estava assinando algum tipo de derrota dentro de mim. Mas continuei explicando para ele que minha intenção inicial era completamente diferente da ideia de abandono que tanto me atormentava. A proposta era quase funci...

trabalho

Hoje, quando cheguei ao trabalho, acho que estava muito evidente que eu tinha passado a noite praticamente acordado. Meu rosto denuncia quando isso acontece. O cansaço muda meu jeito de trabalhar, muda minha expressão. Eu, que normalmente sou brincalhão, descontraído e converso com todo mundo, fico mais quieto, mais sério, quase carrancudo. Até minha concentração muda. Quem trabalha comigo percebe. Em algum momento do plantão, não lembro exatamente se fui eu quem comentou primeiro ou se alguém perguntou, o assunto acabou chegando na minha mãe. Falei que tinha amanhecido acordado, que a insônia tinha vindo forte naquela madrugada e que fiquei pensando nela na clínica. Foi então que um dos auxiliares de enfermagem que trabalha comigo, o Paulo, parou na minha frente de uma maneira muito séria e disse: “Quero deixar uma coisa muito clara pra você, Claudinei.” E começou a conversar comigo de um jeito que ficou marcado na minha cabeça. Ele disse que antigamente a palavra “asilo” carregava um...

Mensagem de fé

Mensagem Olá… Como você tem passado? A vida, às vezes, parece uma estrada longa e íngreme. Cada dia traz seus próprios desafios, seus pesos silenciosos, suas batalhas escondidas atrás dos sorrisos. Mas penso que chegar ao fim do dia ainda com forças no peito é uma forma de agradecer. Agradecer pelo pão, pelo abraço, pela esperança que insiste em nascer outra vez pela manhã. Quando aprendemos a enxergar Deus nas pequenas coisas, no vento leve da manhã, numa palavra amiga, num instante de paz em meio ao cansaço, a vida deixa de ser apenas sobrevivência. Ela se transforma em descoberta. Em busca. Em reconhecimento de que nunca caminhamos sozinhos. Que o seu dia seja leve. Que a fé lhe faça companhia mesmo nas horas difíceis. Estou bem… E confesso que sua mensagem tocou meu coração. Trouxe ânimo para enfrentar este novo dia, como quem abre a janela cedo e encontra a luz entrando devagar pela casa.

Madrugada

Acordei de madrugada mais uma vez. Isso tem acontecido com frequência ultimamente. Abro os olhos e, por alguns segundos, tenho aquela sensação automática de que minha mãe está lá embaixo, no quarto dela. Fico quase esperando ouvir a voz dela me chamando, perguntando alguma coisa, gritando meu nome ou andando pela casa durante a madrugada, como tantas vezes aconteceu nos últimos tempos. Mas logo a realidade volta. Minha mãe não está aqui. Ela está na clínica. Dormindo em um quarto que não é dela, dividindo espaço com pessoas que eu nem conheço. Embora eu tenha uma boa impressão do lugar, embora eu saiba racionalmente que talvez ela esteja sendo bem cuidada, existe uma parte de mim que nunca consegue descansar completamente. Fico imaginando como ela dorme. Se sente medo. Se chama por mim. Se sabe onde está. Se olha ao redor procurando coisas familiares e não encontra nada. Às vezes tento imaginar quem está dormindo ao lado dela naquele quarto compartilhado. E essa ideia me causa uma tris...

pente

Quando minha mãe voltou a morar comigo, no início ela ainda preservava muitos hábitos que carregou durante toda a vida. E um dos mais importantes era o cuidado quase sagrado com o cabelo. Mesmo já enfrentando os primeiros sinais mais severos da demência, ela ainda mantinha um enorme zelo pelos fios longos que cultivou por décadas. Tomava banho, lavava cuidadosamente o cabelo, secava devagar, penteava com paciência e depois ficava andando pelo corredor da casa esperando o cabelo terminar de secar naturalmente. Era um cabelo impressionante. Muito comprido, fino, brilhante, cheio de pontas delicadas, mas extremamente bonito. Um cabelo que ainda carregava parte da identidade da mulher que ela havia sido durante tantos anos. Enquanto ainda conseguia sair sozinha até o mercadinho da esquina, aquele cabelo chamava atenção por onde passava. Algumas pessoas admiravam sinceramente. Outras achavam estranho uma mulher daquela idade nunca ter cortado os cabelos. Alguns até zombavam discretamente. M...

Existe Deus?

Existe Deus… ou Nós o Criamos? E talvez, no meio de todas essas experiências, exista uma pergunta ainda mais profunda do que todas as outras: Deus existe… ou nós o criamos? Depois de passar por igrejas, templos, rituais, experiências transcendentais e diferentes manifestações de fé, comecei a perceber que cada pessoa fala de Deus como quem descreve algo íntimo demais para ser universalmente explicado. Todos parecem ter certeza. Mas cada um descreve um Deus diferente. O cristão fala de amor e salvação. O espírita fala de evolução. O umbandista fala de energia, ancestralidade e guias. O indígena encontra o sagrado na natureza. O místico encontra Deus dentro de si. O ateu questiona se tudo isso não seria apenas criação humana. E então nasce o conflito inevitável: se Deus é um só, por que cada ser humano o enxerga de maneira tão diferente? Talvez porque ninguém enxergue Deus por inteiro. Ou talvez porque cada pessoa construa Deus dentro da própria consciência. Foi aí que comecei a compreen...

o deus quw foi

O Deus que Foi, o Deus que É, e Quem Sou Eu Diante Dele Existe uma parte da minha espiritualidade que durante muito tempo viveu em conflito: minha sexualidade. Eu sou homossexual. E talvez essa tenha sido uma das maiores feridas produzidas dentro da minha experiência religiosa cristã. Porque o mesmo Deus que me ensinavam como amor também aparecia, muitas vezes, como condenação. O mesmo Deus que dizia “eu te amo” parecia dizer, ao mesmo tempo: “mas não assim”. E isso destrói silenciosamente uma pessoa. Porque nasce uma pergunta impossível dentro do coração: Como alguém pode ser amado e rejeitado ao mesmo tempo pelo mesmo Deus? Durante anos tentei separar quem eu era daquilo que sentia. Como se minha existência precisasse passar por correção para merecer espiritualidade. Como se houvesse algo quebrado em mim que precisava ser consertado para que Deus finalmente me aceitasse. Mas o tempo foi passando. E junto dele vieram as perguntas que nenhuma doutrina conseguiu responder completamente....

o deus que cada um carrega

Um Carrega Passei boa parte da minha vida acreditando que a fé precisava ter endereço fixo. Um templo, uma doutrina, uma verdade absoluta. Cresci entre misturas espirituais. Minha mãe buscava respostas em muitos lugares, e mesmo sem entender tudo quando criança, eu observava. Vi rezas diferentes, pessoas diferentes, manifestações diferentes de fé. Depois fui levado ao Cristianismo, onde permaneci durante muitos anos. Ali aprendi sobre Deus, sobre salvação, sobre o Espírito Santo, sobre céu, inferno e verdade. Por muito tempo pensei que aquele era o único caminho possível. Mas a vida, às vezes, nos leva para lugares inesperados. E comigo não foi diferente. Com o passar dos anos, comecei a observar mais do que repetir. Passei a olhar a fé das pessoas sem a necessidade imediata de julgar se estavam certas ou erradas. Apenas observava. E quando comecei a observar, percebi algo que nunca haviam me dito claramente: a experiência humana da espiritualidade é muito parecida em muitos lugares. F...