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Pé frio

Fui dar o remédio pra mamãe. Entreguei os comprimidos, o copinho d’água. Com dificuldade, ela se sentou na cama, pegou os medicamentos, olhou atentamente para eles. Colocou primeiro o menor, depois o maior comprimido na boca. Com as mãos trêmulas, levou a água e, com esforço, engoliu. Me devolveu o copo, agradeceu… ou melhor, me abençoou. Fui até a cozinha guardar o copo. Quando voltei, vi que seus pés estavam de fora. Sei como ela é friorenta. Fui lá e cobri. Deu uma vontade de deitar ao lado dela. Às vezes faço isso. Deito, mas com cuidado pra não encostar. Ela sempre teve um certo receio… uma resistência ao toque de um homem, mesmo sendo eu, seu filho. Do nada, falei: — Mãe, vou dormir aqui com a senhora. Ela estranhou: — Como assim, vai dormir comigo? — Tô morrendo de frio… vou deitar aqui. Agora que a senhora tá com esse cobertor novo, bem quentinho… Esse cobertor, na verdade, tem história. Eram dois, largados na casa velha. Fui lá esses dias tirar os móveis, o resto de entulho, p...

Escolhas

Todos os dias temos que fazer escolhas. E isso começa antes mesmo da gente levantar da cama. Tem o instante em que o corpo acorda, mas a cabeça ainda fica ali, negociando com o tempo. Levantar ou ficar mais um pouco. Fazer ou adiar. Ir ou não ir. Parece pequeno, mas é nesse pequeno que o dia inteiro começa a ser desenhado. A vida vai sendo isso, uma sequência de decisões silenciosas. O que comer, o que vestir, o que resolver primeiro, o que deixar passar. E a gente vai indo, quase sem perceber, acreditando que está no controle. Mas há quase um ano esse controle mudou de lugar dentro da minha casa. Minha mãe está comigo. E não é mais aquela presença autônoma de antes. Ela começou a se perder em coisas simples, depois em coisas mais complexas, até que chegou um ponto em que a realidade dela deixou de ser segura. Não foi uma virada brusca. Foi um desgaste lento, que a gente vai tentando explicar, até não ter mais como. Hoje, ela depende de mim pra quase tudo que envolve decisão. E isso nã...