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Em cena

Às vezes me pergunto o quanto sou solitário e quais são as fugas que uso para preencher o vazio. Encho a mente com promessas, tentando manter estável a sanidade. Pego o carro, viro a esquina, ando na contramão, sempre em busca de uma emoção, mas ela não me atinge. Veja bem: o desejo de permanecer me restringe. Eu me distraio com distrações levianas. Comparo-me com as pessoas e quase sempre percebo que não sou equiparável. Às vezes me sinto maior, outras vezes menor, mas sei que, no fundo, somos todos iguais. Tento manter o equilíbrio, tento fazer tudo certo, mas sempre me decepciono com as escolhas que faço, com os caminhos que percorro e com o destino que traço. Eu sempre me traio. Ando no escuro. Ouço meus próprios passos me seguirem, perseguindo aquilo que sou, porque já não aceito nem compreender, nem mesmo saber o que ainda posso fazer para me satisfazer e me sentir um tanto melhor. Já tentei ser poeta. Já tentei ser atleta. Não consegui. Já escrevi uma música, já pensei em fazer ...

Vestígios

Tem coisas que não nos cabem mais, não se encaixam, ficaram para trás. Há outras que nos perseguem, invadem a alma, tiram a calma, nos desconcertam e nos fazem tocar o infinito. Aquilo que está tão distante, tão difícil de entender, mas que faz parte, faz falta, mesmo sem reconhecermos toda a sua intensidade. Eu mesmo já não me reconheço. Vejo apenas vestígios de realidades que não sei mais nomear. Guardo algumas sensações. E, vez ou outra, retorno a elas para não deixar morrer o pouco de compaixão que ainda carrego no peito. Algo que preciso cultivar para que não se perca, para que não deixe de ser memória. Aquilo que devo cultivar para nunca esquecer.

Du

Não sei se, na correria da vida, as pessoas ainda têm tempo para essas bobagens simples, como parar um instante para pensar no passado. Eu, de vez em quando — quase sempre — penso muito nas coisas que ficaram para trás. Hoje eu estava distraído em meus pensamentos quando tocou uma música. E, sem pedir licença, você veio nitidamente à minha cabeça. Sabe aquelas lembranças boas, cheias de carinho e amor, com gosto de amizade verdadeira? Daquelas que a gente quase nunca mais encontra e que, possivelmente, nunca mais esbarram em nosso caminho? Foi exatamente isso que me aconteceu. Tive até que parar o carro que dirigia para escrever sobre você. Porque há um carinho que precisa ser dito. Um afeto que existe em mim agora e que sei, com certeza, nunca morrerá. Tem coisas. Tem pessoas. Tem momentos que permanecem vivos em nossa memória — e dos quais faço questão de lembrar, de guardar e de falar. Por isso falo, ainda que minha voz quase não tenha som. Ela se resume em palavras escritas, que dã...

Caminhos que escolhi

Quando decidi mudar meus caminhos, feri pessoas que eu amava. Pessoas que estavam próximas se sentiram profundamente traídas, pois pensavam que sabiam como cuidar de mim. E isso muito me doeu. Mas, pela primeira vez, eu deixei de me machucar. Percebi que vivia dentro de uma prisão construída para mim, mas à qual eu nunca pertenci de verdade. Demorei para enxergar. Demorei para ter coragem. Porque não foi uma decisão fácil. Levou tempo para me desvencilhar das garras que me prendiam, da culpa que me martelava a cada pensamento que não cabia no que esperavam de mim. Mas quando deixei de precisar da aprovação dos outros e passei a depender apenas da minha própria consciência, algo em mim mudou profundamente. Hoje sou mais inteiro. Tenho paz. Sou mais feliz. Não porque foi fácil, mas porque foi verdadeiro. Tudo é um processo demorado e doloroso, mas depois que o tempo passa, a gente percebe o quanto estamos melhores e o quanto tardamos para tomar decisões que mudam nossas vidas por complet...

Compasso da madrugada

Hoje acordei com medo, a noite mal estava na metade, e eu me encontrava desperto. O aperto no peito me fez refletir sobre meu espaço no mundo, sobre o porquê de existir. Fiquei atento a cada batida do meu coração, que hoje não estava acelerado, mas batendo em um compasso que eu conseguia seguir. Conduzido por seu ritmo,  resolvi me encher de música e poesia, para acalmar a tristeza e enfrentar o novo dia que se ergueria e que eu teria de contemplar. O dia clareou. O sono não voltou, e eu me levantei. É sempre bom reconhecer essa força que, mesmo quando se esconde, ainda insiste em me manter de pé.

Até a hora de chegar

Eu vejo toda a descrição, espero a restauração e toda justa remissão, a que isso pode ocasionar. Eu perco a minha direção e ando sempre em contramão, não sei me reestruturar. Pois perco toda a razão quando o que eu quero é compreensão, alguém para me acompanhar. Mas eu caminho sempre só, mesmo com muitos ao meu redor, já não consigo enxergar. Eu grito, eu vivo, eu sei de cor. Em cada surpresa, eu sinto a dor, eu não carrego compaixão. Sei que todos têm seu valor, mas vejo apenas minha dor, eu já me acostumei com o descaso e com o pavor que o dia traz em seu rigor. Não sei se vou me encaixar. Com tudo isso que vivi, se repete e eu posso rir, até a hora de chorar. E mesmo assim, eu sigo. E, enfim, não por esperança, mas por saber que tudo isso tem um fim. Até a hora de chegar.

Sabedoria

Hoje cheguei em casa, e ela me perguntou: — Vicente, tô preocupada… o fio ainda não chegou. Será que ele volta pra casa hoje? Respondi: — Que fio? Ela: — O meu fio... — Volta, sim. Logo ele tá aqui. — Tô preocupada… será que aconteceu alguma coisa? — Não, fica tranquila. Logo ele chega, tá trabalhando… Fui até o quarto e voltei. Ela disse: — Glória a Deus que você chegou, eu tava preocupada. Perguntou: — Vai dormir aqui em casa ou na sua? — Hoje durmo com a senhora, na sua casa. Ela sorriu e disse, aliviada: — Glória a Deus! Foi a primeira vez que ela não me reconheceu...

Um papo com Danilo

Isso foi uma indireta? Foi, sim. Não pode? Pode… mas exige coragem. Você está solteiro? Estou solteiro. E distante. Distante de quê? De quase tudo que um dia fez sentido. Qual é a sua idade? A que você gostaria que eu tivesse? A sua. Eu queria ter a sua, mas carrego a minha. E qual é a minha? Não sei ao certo. Só sei que é menor que a minha. E ser mais novo tem alguma vantagem? Talvez o tempo. Quanto tempo você precisa? Não muito. Desde que seja bem vivido. Se pudesse mudar duas coisas hoje, por mágica, quais seriam? Traria de volta a lucidez da minha mãe, perdida no labirinto do Alzheimer. E a outra? Restauraria meu corpo ao que era aos vinte e cinco anos. Mas manteria a mente de agora. Eu entendo. Porque pediria as mesmas coisas. O tempo que vivi é maior do que o tempo que ainda tenho. Lucidez. Aquela idade. E saúde para nossas mães. Afinal, quantos anos você tem? Trinta e dois. Dizem que é uma das melhores idades da vida. Para mim, foi o auge. E você, o que mudaria na sua vida? Duas...

Sem aviso

Do nada vem… Brota de dentro uma inspiração. Às vezes é intuição. Às vezes carência. Talvez demência, ou apenas a falta do que fazer. Também vem a necessidade de criar, de expressar ideias, de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Mesmo que não seja filosoficamente musical, nem intelectual. Algo que apenas preencha as lacunas dessa alma desesperada por respostas, que se enche de perguntas e não espera por compreensão.

Translação

Eu deambulo claudicantemente. Cada passo torto é uma tentativa de acerto. Sempre erro. E cada erro é uma lição que não aprendo. Tenho insistido tanto que me encontro exausto na tentativa de completar um ciclo novo. E, a cada rodada, a cada volta supostamente concluída, entre translações e rotações, percebo: tudo — e todos — permanecem no mesmo lugar. É uma análise pretensiosa, talvez. Sobre a vida e sobre as pessoas. Tão distintas entre si, mas guiadas pelo mesmo querer: um saber imposto como verdade e mercadoria. Uma realidade dita absoluta, incontundente, que insiste em me acompanhar apenas para provar o quanto estou errado sobre tudo, sobre todos e, sobretudo, sobre mim mesmo.

Resíduo

Sobrou eu, como resíduo. Sobrou apenas eu. Converso comigo. Falo do passado, do futuro do passado. Falo de pessoas e também de expectativas. Hoje, porém, minha expectativa se arrasta, limitada, quase sem fôlego. E, ainda assim, há o que dizer. Porque, enquanto existimos, existe em nós algo que tenta fugir. Eu sempre fugi. E agora estou aqui. Uma fuga só minha, invisível aos olhos de todos. Ao meu redor, pensam que sabem quem eu sou. Não sabem. Não conhecem minha realidade. Nem mesmo eu sei exatamente quem sou. Mas sei que sou alguém. E que, mesmo em resto, mesmo em silêncio, há em mim algum valor.

Conveniencia

Se você sofrer um acidente na rua, nem me conte. Se quer ser inconveniente, seja longe de mim. Hoje é dia de chuva, depois de um calor insuportável. Então não me atormente. Não seja intolerável. Minha paciência do ano se esgotou. Eu saí para me divertir, não para sorrir forçado. Meu coração não é de aço. Então, em poucas palavras, me entenda: você não se encontra na minha página de amigos. Não me toque. Se toque e me deixe em paz. Quero ser conveniência, mas é impossível manter coerência e ser polidamente educado quando tudo o que sinto é limite.

dezesseis graus

Em algum momento da minha vida adulta, acreditei que abandonaria certos velhos hábitos. Mas ainda me vejo repetindo os mesmos erros, acreditando em verdades tolas, já desmentidas pelo tempo, que, quando retornam, voltam cheias de ilusão, disfarçadas de novas possibilidades. Mesmo desconfiado, com o pé atrás, reconhecendo a origem da notícia, sou cercado por dúvidas que não alertam: apenas seduzem. Dúvidas blindadas, vendadas com um toque de esperança, capazes de transformar cautela em hesitação. Sei que a armadilha está pronta, sei que sempre esteve. O inevitável não avisa, apenas espera. E ainda assim, o desejo de ser surpreendido me faz vacilar, faz com que eu aceite que velhas mentiras possam, desta vez, ser verdade. Não por acreditar nelas, mas porque resistir também cansa.

Um papo com Laura

Para quem nem acreditava que chegaria até aqui, a vida surpreendeu. Estar presente neste momento é conquista, é prova de superação, é mais do que viver: é vencer diariamente. Que sigamos com coragem, desejo, esperança e fé, sendo todos os dias conquistadores da nossa própria história. Esta é uma mensagem coletiva, mas cheia de amor, gratidão e verdade. Obrigado por cada palavra… você sabe o quanto tudo isso me atravessa. Nem sempre eu me sinto forte, nem sempre me sinto vencedor, mas ler o jeito como você me vê me dá um acolhimento enorme. Você é um vencedor, sempre. Por ser um homem com conquistas, com amores, com provocações, com grandes batalhas, pequenas guerras, grandes renovações e pequenos recuos — necessários para uma volta plena e definitiva. Você é como todo ser humano que tem um ideal e um significado justo e coerente. Sempre é uma fênix, que ressurge das cinzas para brilhar e voar livre. Voe livre, meu amigo, para contar seus contos, aumentar um ponto e dar brilho à vida da...

Laurinha

Você é um vencedor, sempre. Por ser um homem com conquistas, com amores, com provocações, com grandes batalhas, pequenas guerras, grandes renovações e pequenos recuos — necessários para uma volta plena e definitiva. Você é como todo ser humano que tem um ideal e um significado justo e coerente. Sempre é uma fênix, que ressurge das cinzas para brilhar e voar livre. Voe livre, meu amigo, para contar seus contos, aumentar um ponto e dar brilho à vida das pessoas que convivem com você. Te amo muito!

Natal

Um Natal diverso, cheio de compreensão, tolerância e amor genuíno. Sem preconceito — apenas amor. Que seja um tempo de verdade e acolhimento: acolhimento das diferenças, das semelhanças, das concordâncias e também das discordâncias. Que entendamos que, sozinhos, não somos nada; mas, juntos, somos muitos — e assim podemos alcançar objetivos maiores e mais humanos. Que os desejos do nosso coração sejam bons, e que o próximo esteja incluído em nossos planos, que tantas vezes são limitados e segregacionistas. Que possamos mudar isso. Que sejamos união. Nossa classe precisa aprender a caminhar lado a lado, nunca separados.

Favelados

Favelados, se formos somar, talvez estejamos caminhando para quase vinte anos de amizade e amor verdadeiro. Isso é de uma grandeza imensa. Manter, mesmo diante de tantas distâncias, esse respeito, essa amizade, esse carinho e esse amor é algo que valorizo profundamente. Guardo muitas memórias boas sobre tudo o que diz respeito a nós. Respeito nossas individualidades, nossos momentos de distanciamento e, sobretudo, a nossa conexão. O que existe em mim é um sentimento sincero: tudo é gratuito e cheio de amor genuíno. Mesmo que não nos vejamos com tanta frequência, vocês estão presentes na minha vida — nos pensamentos e nesse sentimento bonito chamado saudade. Amo cada um de uma forma única. Não é disputa nem comparação; é simplesmente o amor que cada um deixou em meu coração e que, de vez em quando, se agita entre lembranças adormecidas e transborda em recordações cheias de afeto. Feliz Natal. Feliz vida. Feliz amizade. Feliz continuidade.

Chuva

¿Qué haces acá? Este é sempre, sempre, o mesmo questionamento. Eu me vejo em esquinas, sempre, sempre em novas e conhecidas esquinas. Esquinas da vida, a curva da enxurrada, onde somente se enroscam os destroços. Eu sempre me vejo içado. E não me reconheço como o tal. Mas permaneço. Mesmo sem nome, sem identidade, fico na esquina. Se não sei quem sou, sei ao menos que não fui levado pela enxurrada. Permaneço a esperar, onde esse dilúvio me empurrará. Se é que a chuva um dia irá chegar.

Golias

Ouvi um som diferente do habitual, não era cachorro, nem era gato. Talvez um gafanhoto, que as asas tentou levantar. Ou talvez uma ida ao banheiro que, no meu estridente silêncio, fez-se despertar. Na camada da noite, cada silêncio é um movimento que chama atenção, mesmo com os dedos se descoordenando pelo chão para ruído não fazer. E eu incluo o garfo, o ruído do pão torrado, e da discreta mordida que não pode deixar dentes bater. Pois seu ranger pode acordar o Golias.

Mielina

Foi uma experiência antropológica. Falar sobre pessoas, das pessoas, dos próximos, de todos os que se encontram distantes. Pois não se fala mal de quem perto está. Dos mortos, sim, fala-se… Álcool, nicotina, ayahuasca, Mariana… Bainhas de menina, pessoas amielinizadas, sem sinapse. Não se encaixa, peça solta. Onde estaríamos se não estivéssemos aqui? Se o agora é ali, pois éramos — não estamos mais. Nunca fizemos igual, mesmo depois de anos de compreensão. Se eu acredito ou não, talvez seja apenas uma invenção que se tornou repetitiva informação, e que eu ouso não compreender

Novo

Decidi que deixarei tudo para trás., Pelo menos hoje, Decidi que deixarei tudo para trás, Pelo menos hoje, Que não vejo nada à minha frente. O que ficou no passado Já nem me lembro mais, Nem insisto em tentar relembrar. Não sei o que encontrarei, Quais memórias reconstruirei. Dependendo da emoção, será tragédia, Será satisfação. Melhor não descobrir, Ficar aberto às possibilidades De construir algo novo.

Saudades à parte

Quero expressar meus sentimentos, explorar meus pensamentos, ver se há algo que valha a pena compartilhar. Vou arriscar a sorte. Não vou falar sobre a morte nem sobre a tão penosa saudade. O que é uma pena não ser citada, pois é ela que me inspira a falar sobre saudades… Saudades à parte. Vamos falar de solidão, de abandono, de tristezas que somente nós reconhecemos. Nós as escondemos, mas nem sempre disfarçamos. No mês das luzes, muitas luzes se apagam. Desertos são revelados, continentes soterrados. Pois o brilho da hipocrisia é fascista: impulsiona o cativo a acreditar que sua prisão é liberdade. E não sabemos mais o que fazer com essa verdade, sempre chamada de liberdade, mas carregada de enganação.

Melodia

Ouço o que a música quer me dizer, dizeraudível para o meu coração. Cada nota, cada estrofe e compasso, sacode meu espírito e me lan4ça a um estado que nem sempre consigo . Percebo que há em mim algo enraizado, um desejo incontrolável de transpor barreiras. E a alma, ainda aprisionada, entende, a cada instante em que a canção ressoa, que eu deveria estar em outro lugar. Que não é aqui. Talvez nem seja ali. Talvez seja no solitário entendimento do lugar ao qual eu realmente deveria pertencer.

Inesperado

Estar entre os jovens é rejuvenescer, mesmo que por alguns instantes. Receber um convite inesperado é um pouco intrigante, porém aconchegante. Os sentimentos se mesclam, numa mistura desordenada, onde o inesperado se encontra com o desejado. Se eu não me encontro, me encaixo — na medida do impossível. Aconteceu sem ser previamente combinado. Viemos. Chegamos. Nos reunimos. Embora o contexto seja algo fora de qualquer texto previamente escrito, acredito que o acaso não se monta: ele se junta e apronta o irreconhecível. O que dará isso tudo? Somente o final das contas contabilizará. Se valerá a pena? Já valeu. O resto será apenas um exemplo de como a vida surpreende nos mais simples lugares em que você decide adentrar.

Colagem

Então, você se olha no espelho. A imagem que reflete revela o caos. Tudo aquilo que o coletivo imaginou era — de fato — a mais real das realidades. Tudo o que ignorei, sem compreender que era mais que toda verdade, nua e crua — como o cardápio posto à mesa que ninguém irá saborear. É isso o que sinto agora: cheio de desprezo, cheio de demora. Algo que nem eu mesmo posso compreender.