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E o mais estranho em tudo isso é perceber que, na verdade, eu já vivia sozinho há muitos anos. Faz muito tempo que eu não morava mais com minha mãe. Nossa convivência já havia sido interrompida pela vida, pela distância, pelos conflitos e pelo tempo. Cada um passou a existir dentro da própria rotina, da própria casa, dos próprios silêncios. Mas, mesmo assim, existia uma espécie de presença invisível. Eu sabia que ela estava lá. Na casa dela. Na cidade dela. Vivendo a vida dela. Pensando em mim de algum jeito. Mesmo distante, existia ainda um lugar no mundo onde minha mãe permanecia inteira. E talvez isso me sustentasse mais do que eu percebia. Porque agora tudo parece invertido. Hoje ela está fisicamente mais próxima de mim do que esteve durante muitos anos. E, ainda assim, nunca esteve tão distante. A demência criou um afastamento que nenhuma estrada conseguiu criar antes. Às vezes olho para ela e percebo apenas fragmentos da mulher que conheci. Pequenos lampejos surgem de vez em quan...

Mensagem de fé

Mensagem Olá… Como você tem passado? A vida, às vezes, parece uma estrada longa e íngreme. Cada dia traz seus próprios desafios, seus pesos silenciosos, suas batalhas escondidas atrás dos sorrisos. Mas penso que chegar ao fim do dia ainda com forças no peito é uma forma de agradecer. Agradecer pelo pão, pelo abraço, pela esperança que insiste em nascer outra vez pela manhã. Quando aprendemos a enxergar Deus nas pequenas coisas, no vento leve da manhã, numa palavra amiga, num instante de paz em meio ao cansaço, a vida deixa de ser apenas sobrevivência. Ela se transforma em descoberta. Em busca. Em reconhecimento de que nunca caminhamos sozinhos. Que o seu dia seja leve. Que a fé lhe faça companhia mesmo nas horas difíceis. Estou bem… E confesso que sua mensagem tocou meu coração. Trouxe ânimo para enfrentar este novo dia, como quem abre a janela cedo e encontra a luz entrando devagar pela casa.

Madrugada

Acordei de madrugada mais uma vez. Isso tem acontecido com frequência ultimamente. Abro os olhos e, por alguns segundos, tenho aquela sensação automática de que minha mãe está lá embaixo, no quarto dela. Fico quase esperando ouvir a voz dela me chamando, perguntando alguma coisa, gritando meu nome ou andando pela casa durante a madrugada, como tantas vezes aconteceu nos últimos tempos. Mas logo a realidade volta. Minha mãe não está aqui. Ela está na clínica. Dormindo em um quarto que não é dela, dividindo espaço com pessoas que eu nem conheço. Embora eu tenha uma boa impressão do lugar, embora eu saiba racionalmente que talvez ela esteja sendo bem cuidada, existe uma parte de mim que nunca consegue descansar completamente. Fico imaginando como ela dorme. Se sente medo. Se chama por mim. Se sabe onde está. Se olha ao redor procurando coisas familiares e não encontra nada. Às vezes tento imaginar quem está dormindo ao lado dela naquele quarto compartilhado. E essa ideia me causa uma tris...

No final da noite

Mesmo estando sempre nos lugares mais improváveis, cercado pelas pessoas mais diversas e vivendo situações quase indescritíveis, ao final da noite percebo que tudo faz sentido. Cada encontro, cada momento e cada detalhe acabam me completando de alguma forma, transformando minhas perguntas em novas respostas. Então volto para casa satisfeito. Não porque tenha feito tudo da maneira certa, mas porque a própria vida, mesmo em sua desordem, me oferece uma resposta segura. É nela que encontro força para me sustentar, seguir em frente e enfrentar um novo amanhã.

pente

Quando minha mãe voltou a morar comigo, no início ela ainda preservava muitos hábitos que carregou durante toda a vida. E um dos mais importantes era o cuidado quase sagrado com o cabelo. Mesmo já enfrentando os primeiros sinais mais severos da demência, ela ainda mantinha um enorme zelo pelos fios longos que cultivou por décadas. Tomava banho, lavava cuidadosamente o cabelo, secava devagar, penteava com paciência e depois ficava andando pelo corredor da casa esperando o cabelo terminar de secar naturalmente. Era um cabelo impressionante. Muito comprido, fino, brilhante, cheio de pontas delicadas, mas extremamente bonito. Um cabelo que ainda carregava parte da identidade da mulher que ela havia sido durante tantos anos. Enquanto ainda conseguia sair sozinha até o mercadinho da esquina, aquele cabelo chamava atenção por onde passava. Algumas pessoas admiravam sinceramente. Outras achavam estranho uma mulher daquela idade nunca ter cortado os cabelos. Alguns até zombavam discretamente. M...

Existe Deus?

Existe Deus… ou Nós o Criamos? E talvez, no meio de todas essas experiências, exista uma pergunta ainda mais profunda do que todas as outras: Deus existe… ou nós o criamos? Depois de passar por igrejas, templos, rituais, experiências transcendentais e diferentes manifestações de fé, comecei a perceber que cada pessoa fala de Deus como quem descreve algo íntimo demais para ser universalmente explicado. Todos parecem ter certeza. Mas cada um descreve um Deus diferente. O cristão fala de amor e salvação. O espírita fala de evolução. O umbandista fala de energia, ancestralidade e guias. O indígena encontra o sagrado na natureza. O místico encontra Deus dentro de si. O ateu questiona se tudo isso não seria apenas criação humana. E então nasce o conflito inevitável: se Deus é um só, por que cada ser humano o enxerga de maneira tão diferente? Talvez porque ninguém enxergue Deus por inteiro. Ou talvez porque cada pessoa construa Deus dentro da própria consciência. Foi aí que comecei a compreen...

o deus quw foi

O Deus que Foi, o Deus que É, e Quem Sou Eu Diante Dele Existe uma parte da minha espiritualidade que durante muito tempo viveu em conflito: minha sexualidade. Eu sou homossexual. E talvez essa tenha sido uma das maiores feridas produzidas dentro da minha experiência religiosa cristã. Porque o mesmo Deus que me ensinavam como amor também aparecia, muitas vezes, como condenação. O mesmo Deus que dizia “eu te amo” parecia dizer, ao mesmo tempo: “mas não assim”. E isso destrói silenciosamente uma pessoa. Porque nasce uma pergunta impossível dentro do coração: Como alguém pode ser amado e rejeitado ao mesmo tempo pelo mesmo Deus? Durante anos tentei separar quem eu era daquilo que sentia. Como se minha existência precisasse passar por correção para merecer espiritualidade. Como se houvesse algo quebrado em mim que precisava ser consertado para que Deus finalmente me aceitasse. Mas o tempo foi passando. E junto dele vieram as perguntas que nenhuma doutrina conseguiu responder completamente....

o deus que cada um carrega

Um Carrega Passei boa parte da minha vida acreditando que a fé precisava ter endereço fixo. Um templo, uma doutrina, uma verdade absoluta. Cresci entre misturas espirituais. Minha mãe buscava respostas em muitos lugares, e mesmo sem entender tudo quando criança, eu observava. Vi rezas diferentes, pessoas diferentes, manifestações diferentes de fé. Depois fui levado ao Cristianismo, onde permaneci durante muitos anos. Ali aprendi sobre Deus, sobre salvação, sobre o Espírito Santo, sobre céu, inferno e verdade. Por muito tempo pensei que aquele era o único caminho possível. Mas a vida, às vezes, nos leva para lugares inesperados. E comigo não foi diferente. Com o passar dos anos, comecei a observar mais do que repetir. Passei a olhar a fé das pessoas sem a necessidade imediata de julgar se estavam certas ou erradas. Apenas observava. E quando comecei a observar, percebi algo que nunca haviam me dito claramente: a experiência humana da espiritualidade é muito parecida em muitos lugares. F...