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Seis

Acordei às seis. Talvez antes. Tenho um sono conturbado; enquanto durmo, viajo… vou para inúmeras dimensões. Ao acordar, tento me lembrar dos lugares que visitei. Muitos deles são passados, outros nem existem. Encontro pessoas que depois não reconheço — não lembro os rostos, mas guardo alguns contextos. Às vezes, o sonho me anima a esperar algo diferente do dia… o que nem sempre vem cheio de alegria. You know… nem sempre vem carregado de boas novidades. Hoje foi um dia assim. Sexta-feira. Foi intenso, mas foi produtivo. Em alguns momentos, não tive paciência de esperar… talvez faltou aquele cuidado maior. Ainda assim, cuidei bem dos que passaram ao meu lado. Agora, eu gostaria de fazer uma reflexão mais plena… talvez uma poesia mais complexa. Algo transcendental, que alcançasse inúmeros corações, que ajudasse — de alguma forma — a melhorar a maneira das pessoas enxergarem a vida. Mas, na verdade… tudo se repete. É a mesma vida, a mesma turma, o mesmo espaço, o mesmo palhaço… e o mesmo ...

Desabafo

Depois da notícia, dois litrões... dois Rivotril. Um miojo, muitas lágrimas... Inúmeras lembranças, muitas saudades... E três ovos mergulhados no ensopado de macarrão... Isso deveria ser uma poesia, mas se trata de um desabafo... Que abafa o choro, mas não esconde a lágrima. Não deixa de ser valoroso, não deixa de ser verdadeiro. Isso tudo é inteiramente eu... Foi o que restou. Um miojo com ovos, sendo engolido com lágrimas de tristeza.

Luto

A vida merece ser celebrada entre os que nos acompanham: festejada, exposta, lembrada. Há vida em tudo, em tudo que é vivo e nos envolve. Fui envolvido, eu me envolvo com facilidade, mas me canso fácil, pois não suprem expectativas. Talvez esperemos demais de quem não tem o que oferecer. Mas… Pequi… Ela foi intensa. Ela foi amiga, foi verdadeira. Nunca vi tanto amor acumulado em uma só criatura. Amávamo-nos… isso é certeiro. Hoje ela se foi. Sinto-me estranho em chorar. Era apenas um animal. Nada disso! Minha companhia… companheira, amiga. Que, nos dias de solidão, mesmo fedida, eu a envolvia em meus braços e com ela dormia para não me sentir sozinho. E ela se alegrava… pois sabia que amor havia. Hoje não serei seu colo amigo, ela não será companhia. Resta-me a mesa do bar e as lágrimas escondidas, que eu insisto em abafar para sobreviver a este dia.

Lençóis

Lembra que eu lhe disse que a próxima massagem seria uma outra massagem, e que você não deveria se preocupar com isso? Era sobre isso que eu estava falando... Lembra que você me disse algo assim, sobre intimidade? Que é algo de que a gente não tem como voltar atrás? Algo assim... Lhe digo: está tudo bem, quando tudo está bem... Eu queria comentar algo sobre o lençol... Tenho uma interpretação holística sobre o lençol deslizando pelo corpo. Eu visualizo tudo o que é ruim em mim sendo retirado do meu corpo, como uma limpeza... Me sinto renovado. Mas toda essa figuração é muito filosófica e significativa... É transformador. Como lhe disse: seu abraço é gigante... Um dia vou querer um momento só de abraços com você... Esse momento pode durar mais de uma hora... E só agora pude refletir sobre a terapia de hoje. E agora estou deitado para dormir. Deitei também... Renovado. Pela massagem. Pelo encontro com amigos... De certa forma, hoje foi um dia de paz.

Atos dos solitários

Ato 1 Essa é uma tentativa solitária de encontrar conforto em pessoas solitárias, que se sentem desconfortáveis em esperar algum conforto, mesmo sendo sincero e genuíno, mesmo que venha de pessoas igualmente solitárias, que também se encontram em busca de algum conforto. Ato 2 E a Pequi, como está? Percebendo a comoção, respondo: continua internada, mas com danos neurológicos. Não vai voltar para casa, possivelmente. Acho que eles tentam ao máximo tirá-la do quadro crítico, algo que não ocorrerá. O sacrifício… não sei qual é o parâmetro usado para essas decisões,  mas acontecerá. É algo inevitável. Ai, meu amor… é difícil esse momento, mas, com certeza,  a vida tem o melhor para ela e para você. Fique bem. Fiquem bem. Ato 3 Não quis me ver. Não quis o encontro. Não quis nada. Estou desde ontem chamando para dar um abraço. O abraço pretendido, o abraço esperado. E, depois de tantos anos de abraços,  dessa vez não houve o desejado abraço. Ato 4 Estou bem. No que tem para ho...

Cruel

Sempre cruel. Sua linguagem, uma torre de Babel. Seu discernimento era forte e brutal. Hoje… pouco compreende o seu redor, há simplicidade e amor. Muito amor. Como se as amarras que a prendiam, que me prendiam, estivessem desatadas, sem nó, sem barreiras, uma nova fronteira atravessada. Como se o passado não existisse, e o hoje, mesmo que desconexo, confuso, se resumisse em liberdade. Onde a velha verdade se diluiu, onde se vê somente a estrada que ainda resta para seguir, mesmo sem saber se há para onde prosseguir. Mas que sua única guia fosse sempre fundada no amor — que existiu, mas não se exibiu, não por vergonha, mas por falta de compaixão, que agora floriu e coloriu nossos caminhos..

Sem barreiras

Elas correm... para onde eu não sei. Elas dançam... uma música que ninguém ouve. Elas riem... para quem, não compreendo. Mas admiro cada um de seus movimentos. Quando elas se aproximam, são sempre cheias de amor. Não veem os defeitos, observam apenas o que é bom. E isso me faz tão bem. Ser observado sem barreiras, sem falsas verdades, de uma maneira genuína e sincera, com aquele olhar que somente elas têm. Um olhar que enxerga a alma, e não aquilo que dizem que a gente tem. Isso muito me satisfaz. E elas correm, para onde eu não sei. Certamente seja em uma direção que eu já segui, sem me importar onde deveria ir. E é nesse lugar que quero um dia chegar. E eu alcançarei... Pois voltarei a trilhar esse mesmo percurso em que um dia me perdi.

Pipil

Hoje cheguei em casa e ela não me reconheceu. Estava paralisada, sem controle, sem nenhum movimento. De certa forma, eu a escolhi. Quando Lana partiu, eu simplesmente decidi: quero outra em seu lugar. Mas é claro — ninguém substitui ninguém, nada substitui nada. Ela chegou, conquistou seu espaço e, aos poucos, me conquistou. Da pequena criatura que era, foi se desenvolvendo, crescendo… e me amou. E, da mesma forma, eu a amei. Eu chegava em casa — ou melhor, tentava chegar — e ela já me aguardava. De uma forma escandalosa, me recepcionava. Eu esperava silêncio, para não chamar atenção, mas ela não disfarçava. Fazia sua algazarra, me denunciava ao mundo. Ela era assim: Pequi. Pequi de Goiás. Na verdade, seu nome nasceu de um carinho: pequitita, pequiquita… Pequi. Porque ela era tão pequenininha, tão bonitinha… com seu rabinho balançante, ventilante, vibrante. Não havia outro nome possível. E hoje aconteceu. Cheguei em casa, e ela não me recebeu. Fui até a sua casinha e percebi: ela tremi...

Belo

Talvez tudo seja uma miragem, uma discreta bobagem que não queremos mirar. Estava tudo tão belo, cheio de alegria e espantos, que nem eu pude acreditar. Dançamos, sorrimos, bebemos. Os que nos observavam só tinham palavras de amor, pois viram algo raro: amor genuíno, liberdade, o sorriso expresso no olhar. Nem tinha como disfarçar a alegria presente, que envolvia, era quente, não tinha como apagar. Cada sorriso sincero, todo abraço era belo, tínhamos que compartilhar.

Prisões invisíveis

A verdadeira prisão não está na solidão ou nas marcas do caminho, mas na ideia de que já é tarde demais para buscar algo verdadeiro. E isso é verdade. Às vezes não é a vida que nos prende, mas a ideia de que já não há mais tempo para nos sentirmos livres e sermos quem realmente somos. Essa batalha que existe em nosso interior deve ser travada diariamente, pois constantemente somos convencidos de que não existe mais chance de mudança. E muitas vezes insistimos em acreditar.

Filho

Eu tenho mais um filho? Eu lhe conheço... mas não sei quem você é... Mas cadê seu filho? Não sei onde ele está... Ele não vem lhe visitar? Ele não vem pra cá... Meu filho não vem me visitar... Só se for você o meu filho... Sabia que eu acho que é você o meu filho... Será? Senhor Jesus, saber que você que é meu filho... Acho que sou eu mesmo... Eu que criei você. Você é o filho que eu chamava de filho?

Encontro

Nas próximas vezes que certamente acontecerão, ficaremos somente no cuidado. O próximo encontro será outro encontro... Cada encontro é outro encontro. E hoje tivemos um ótimo momento. Não se sinta incomodando, tudo foi totalmente consentido, para mim, foi mais que desejado. Eu estou muito fragilizado com um acontecimento recente. Talvez por isso, acabei saindo da linha. Foi ótimo... E pode ficar tranquilo, que isso não diminui em nada a grande pessoa que você é. De certa forma você confiou em mim. E eu recebi seu carinho com muito respeito. E espero que você tenha percebido que por você eu sinto imenso carinho. É tão bom se sentir acolhido. Eu me senti assim, totalmente acolhido por você. Você foi até onde se sentiu à vontade de ir... e me levou, como disse anteriormente, a um ótimo lugar, onde eu também precisava estar. Seu abraço é gigante... Um dia vou querer um momento só de abraços com você... Esse momento pode durar mais de uma hora...

Correntes

Nunca fui livre, sempre fui lançado em inúmeras prisões, algumas delas adentrei de maneira voluntária, e essas foram as mais difíceis de sair. Sempre deixado de lado, sempre a última escolha, o motivo do riso, a inspiração para o deboche. De cabeça sempre baixa, olhos fitados ao chão, com o corpo sendo doado em busca de compaixão. Longo e difícil caminho. Disso tudo, pouco me acompanha, embora ainda tenha força, pouco interfere nas minhas escolhas. Talvez tenha se convertido em força toda aquela tristeza, todo aquele abandono. Hoje já não pesa na alma. Aprendi a ser só e a estar bem em minha própria companhia. A solidão já não dói nem assusta. A noite, por mais escura que esteja, não causa espanto, nem consome esperanças. Tudo se tornou uma vaga lembrança que, às vezes, insiste em se apresentar, mas acaba sendo deixada de lado.