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centrifuga

Era noite já. A casa em silêncio, mas não totalmente. No fundo, a centrífuga trabalhava firme, girando os cobertores recém-lavados. Um barulho pesado, ritmado, quase hipnótico… como se fosse o coração da casa batendo mais forte naquele momento. — Viu, filho? — Que foi, mãe? — Eu quero te falar uma coisa… deixar bem claro pra você. — Pode falar. Ela ajeitou o corpo na cadeira, olhou pro nada por um segundo e soltou: — Às vezes você me vê saindo, né… indo pra lá, pra cá… mas eu quero que você saiba: nenhum homem põe a mão em mim. A centrífuga acelerou, o som crescendo, ocupando o espaço entre eles. — Fica tranquila, mãe… — Não… eu quero que você entenda direito — ela insistiu. — Eu não quero casar. Não deixo homem se aproximar. Lá onde eu vou, eu fico de um lado… eles ficam do outro. O barulho continuava, firme, como se acompanhasse cada palavra. Ele ficou quieto por um instante, depois respondeu com calma: — Eu sei. Eu confio na senhora. Ela virou o rosto, encarou ele. — Tem certeza? — ...

Acredite

Acredite, acredite: no meio das pedras também existe um caminho e, muitas vezes, o mais bonito. Não se iluda com caminhos largos e cheios de cores. Tudo que vem fácil vai fácil. O caminho que tem pedras também tem beleza; afinal, as rosas também têm espinhos e não deixam de ser lindas nem de ter suaves aromas. Vá pela trilha do caminho com pedras. Elas lhe servirão para construir um castelo e, quando chegar lá na frente, entenderá: era o impulso para lhe fazer chegar mais longe. Parei de sentir medo quando me lembrei de quem eram as mãos que me sustentavam.

Definição

Às vezes acho que sou uma pessoa presa demais ao passado. Tenho dificuldade de deixar certas lembranças irem embora. Enquanto muita gente consegue seguir em frente sem olhar para trás, eu ainda fico revisitando ruas, rostos, vozes e situações que talvez só existam mais dentro de mim do que no mundo real. Carrego amizades antigas como se ainda fossem parte dos meus dias, mesmo sabendo que o tempo mudou tudo para todos nós. Sou sentimental demais. Coisas simples me atravessam de um jeito que às vezes nem consigo explicar. Uma música, uma estrada de terra, o cheiro de chuva, uma estrela no céu… tudo pode virar memória, saudade ou reflexão. Isso me ajuda a escrever, mas também me cansa. Minha cabeça raramente silencia. Também reconheço que sou repetitivo. Volto aos mesmos assuntos, às mesmas dores e às mesmas lembranças como alguém tentando encontrar uma resposta que talvez nem exista. Muitas vezes escrevo mais para aliviar o peito do que para produzir algo bonito. Nem sempre consigo separ...

carta

Eu estava sentado em um bar qualquer, desses onde a noite vai passando devagar entre mesas ocupadas, televisão ligada no canto e conversas misturadas ao som dos copos. Era um lugar simples, comum, daqueles em que quase nada inesperado acontece. Mas naquela noite aconteceu. Em uma mesa próxima havia algumas crianças. Enquanto os adultos conversavam distraídos, elas estavam concentradas em folhas de papel arrancadas de caderno, escrevendo com canetas coloridas e desenhando pequenos corações pelos cantos das páginas. Havia um silêncio curioso nelas. Uma dedicação sincera. Aquilo chamou minha atenção. Fiquei observando por alguns minutos até me aproximar e perguntar: — O que vocês estão escrevendo? Uma delas respondeu rapidamente: — Cartas. Sorri e perguntei de novo: — Cartas pra quem? Então veio a resposta que me atravessou de um jeito inesperado: — Pra alguém que a gente encontrar na rua. Naquele instante o bar pareceu diminuir de tamanho. Enquanto tanta gente passa umas pelas outras sem...

fabricado

Eu escrevo poesia. A maioria delas é mentira, mas é a minha forma de expressar os sentimentos que carrego dentro do coração. Quando eu bebo, e não é água que eu bebo, meus sentimentos se afloram. Eles exploram algo dentro de mim que nem eu mesmo reconheço. Acabo transformando em palavras as bobagens que carrego comigo e que talvez tenham algum significado. Às vezes para mim, às vezes para ele, às vezes para você que está lendo agora toda a bobagem ou toda a verdade que acabei de expressar. Poesia é arte. Poesia é descarte. Poesia é fuga. Pode ser apenas um devaneio, um momento de estresse, um instante de verdade ou de mentira. É algo que carrego na alma e expresso com calma para quem quiser compreender.

decisões

Eu demorei para entender que o dia começa antes da gente levantar da cama. Não no relógio. Nem no barulho da rua. O dia começa naquele instante silencioso em que os olhos abrem, mas o corpo ainda não decidiu se acompanha. Fico olhando o teto do quarto, imóvel, como se ainda existisse a chance de não entrar no mundo. Às vezes são poucos minutos. Às vezes mais. Não é preguiça. É como se eu precisasse reunir forças antes de aceitar que tudo vai começar outra vez. E começa. A água do café ferve. A claridade atravessa a janela. O cachorro do vizinho late em algum lugar da rua. A vida vai andando mesmo quando a gente ainda está parado por dentro. Durante muito tempo, achei que viver fosse simplesmente isso: tomar pequenas decisões automáticas. Escolher a roupa, decidir o almoço, resolver uma conta, adiar outra. Coisas comuns. Quase invisíveis. A gente faz sem pensar, como quem respira. Só que, dentro da minha casa, as escolhas deixaram de ser simples há quase um ano. Minha mãe veio morar com...

Campinas

Quando fui convidado para assumir a diretoria de saúde de Campinas, senti que a vida estava me levando para um caminho importante. Deixei Sorocaba para trás e mergulhei completamente naquela nova fase. Era uma cidade maior, uma responsabilidade enorme, decisões difíceis todos os dias, cobranças, reuniões, problemas urgentes surgindo a todo instante. Vivi intensamente aqueles anos. Permaneci ali por aproximadamente quatro anos, tentando dar conta daquilo que haviam confiado em minhas mãos. Mas, enquanto minha vida profissional parecia avançar, a vida pessoal começava silenciosamente a me chamar de volta. Minha mãe continuava morando sozinha em Capela do Alto. No começo, os sinais vieram discretos, quase imperceptíveis. Pequenos esquecimentos, histórias confusas, atitudes que pareciam apenas distrações da idade. Coisas que qualquer filho tenta normalizar para não precisar encarar aquilo que, no fundo, já começa a assustar. Só que o tempo foi mostrando que não era apenas distração. Os viz...

redação

Há dias em que a vida passa por nós sem deixar vestígios. Dias comuns, secos, repetidos. Mas existem outros em que algo muda no ar, mesmo que quase nada aconteça de extraordinário. E hoje foi um desses dias. Eu escrevo muitas coisas. Às vezes são pensamentos dispersos, fragmentos soltos, observações sem rumo aparente. Coisas que nascem do trânsito da vida, do movimento das pessoas, das vozes ao redor, dos silêncios também. Tenho o hábito de observar o ambiente como quem tenta escutar aquilo que não foi dito. Percebo gestos, olhares, pequenos acontecimentos. É como se o mundo, de alguma forma, se traduzisse dentro de mim. Hoje, por exemplo, limparam a mesa onde eu estava. Naquele instante achei que fosse um sinal de encerramento, um convite silencioso para ir embora. Pensei: “acho que chegou a hora de partir”. Mas depois percebi outra coisa. A mesa não estava sendo limpa para que eu saísse. Estava sendo preparada para que eu continuasse. Para que eu permanecesse ali mais um pouco. E fiq...

30

“30 cervejas, 5 cigarros… e continuo vivo. Gosto de relatar as coisas que acontecem ao meu redor. Hoje foi uma noite agradável. Uma daquelas noites em que consegui contribuir e, ao mesmo tempo, fui acolhido de volta. Houve coisas boas, houve coisas ruins, mas tudo fazia parte daquilo que a vida entrega sem pedir licença. Hoje a vida me deu a oportunidade de estar entre pessoas estranhas, mas estranhamente parecidas. Pessoas com dores, desejos e histórias diferentes, mas com algo em comum que compartilhamos de forma sincera e satisfatória. E aqui estamos nós. É normal? Talvez não. Mas foi verdadeiro. E isso basta. Boa noite, boa noite, boa noite… porque aqui as pessoas se cumprimentam, se entendem, se reconhecem no olhar. Cada um carrega sua frustração, sua ilusão, sua vontade de continuar vivendo e fazer com que o dia tenha valido a pena. Depois da labuta, depois da luta diária, chega a hora de descontrair, respirar um pouco e tentar dormir mais leve, para enfrentar o próximo amanhecer...

quarto

O quarto estava silencioso, envolvido pela luz suave da manhã que atravessava a janela e descansava sobre a colcha escura da cama. O teto de madeira dava ao ambiente um ar acolhedor, quase como uma lembrança antiga guardada no coração da casa. Sobre a cama, ao lado de mamãe, a Bíblia permanecia aberta, com as páginas já marcadas pelo tempo e pelas muitas leituras feitas em dias de alegria e também nos dias difíceis. Mamãe estava recostada nos travesseiros, vestindo uma blusa florida cheia de cores vivas — azul, amarelo, vermelho — como se ainda carregasse no peito toda a força da vida. Em suas mãos, um copo de água refletia a claridade do quarto. O olhar dela encontrava o meu com ternura, daquele jeito que só mãe consegue olhar: profundo, silencioso e cheio de amor. Eu me aproximei devagar, segurando o celular para registrar aquele instante simples e precioso. — Mãe... tá confortável aí? — perguntei com a voz baixa, quase num carinho. Ela suspirou levemente e respondeu: — Tô sim, meu f...

Proporção

Se eu falar que está fácil, eu minto. Se eu falar que está difícil, também minto. Se eu disser que está bom, é mentira. E se eu disser que está ruim, é uma mentira maior ainda. Então, como está? Desvenda esse mistério… Porque eu mesmo não sei responder. A única coisa que posso dizer é que hoje estou cansado. E não existe resposta para essa exaustão que me desequilibra, me tira o chão. Se eu falar que está fácil, então me desminta. Porque sei que o difícil depende da proporção.

Pé frio

Fui dar o remédio pra mamãe. Entreguei os comprimidos, o copinho d’água. Com dificuldade, ela se sentou na cama, pegou os medicamentos, olhou atentamente para eles. Colocou primeiro o menor, depois o maior comprimido na boca. Com as mãos trêmulas, levou a água e, com esforço, engoliu. Me devolveu o copo, agradeceu… ou melhor, me abençoou. Fui até a cozinha guardar o copo. Quando voltei, vi que seus pés estavam de fora. Sei como ela é friorenta. Fui lá e cobri. Deu uma vontade de deitar ao lado dela. Às vezes faço isso. Deito, mas com cuidado pra não encostar. Ela sempre teve um certo receio… uma resistência ao toque de um homem, mesmo sendo eu, seu filho. Do nada, falei: — Mãe, vou dormir aqui com a senhora. Ela estranhou: — Como assim, vai dormir comigo? — Tô morrendo de frio… vou deitar aqui. Agora que a senhora tá com esse cobertor novo, bem quentinho… Esse cobertor, na verdade, tem história. Eram dois, largados na casa velha. Fui lá esses dias tirar os móveis, o resto de entulho, p...

Escolhas

Todos os dias temos que fazer escolhas. E isso começa antes mesmo da gente levantar da cama. Tem o instante em que o corpo acorda, mas a cabeça ainda fica ali, negociando com o tempo. Levantar ou ficar mais um pouco. Fazer ou adiar. Ir ou não ir. Parece pequeno, mas é nesse pequeno que o dia inteiro começa a ser desenhado. A vida vai sendo isso, uma sequência de decisões silenciosas. O que comer, o que vestir, o que resolver primeiro, o que deixar passar. E a gente vai indo, quase sem perceber, acreditando que está no controle. Mas há quase um ano esse controle mudou de lugar dentro da minha casa. Minha mãe está comigo. E não é mais aquela presença autônoma de antes. Ela começou a se perder em coisas simples, depois em coisas mais complexas, até que chegou um ponto em que a realidade dela deixou de ser segura. Não foi uma virada brusca. Foi um desgaste lento, que a gente vai tentando explicar, até não ter mais como. Hoje, ela depende de mim pra quase tudo que envolve decisão. E isso nã...