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Caminho sem volta

Durante muito tempo pensei que a minha dor estivesse apenas na perda gradual da memória da minha mãe. Com o tempo, percebi que havia algo ainda mais profundo. O que me machucava não era somente vê-la esquecer o mundo, mas sentir que eu também estava perdendo o lugar que ocupava na vida dela. Mesmo com toda a distância que sempre existiu entre nós, bastava saber que ela estava ali. Em algum lugar, havia alguém que se preocupava comigo. Talvez não conversássemos tanto. Talvez nunca tivéssemos construído a relação que eu gostaria. Ainda assim, eu era seu filho, e essa certeza me dava um porto silencioso. Um lugar de pertencimento que eu jamais havia percebido até começar a perdê-lo. A demência provoca uma despedida diferente de todas as outras. A pessoa continua viva, respira, sorri em alguns momentos, mas a relação vai sendo apagada lentamente. Não é apenas ela que esquece. Quem permanece também vê parte da própria identidade desaparecer. Foi nesse período que comecei a olhar para a minh...

Madrugada

Acordei de madrugada mais uma vez. Isso tem acontecido com frequência ultimamente. Abro os olhos e, por alguns segundos, tenho aquela sensação automática de que minha mãe está lá embaixo, no quarto dela. Fico quase esperando ouvir a voz dela me chamando, perguntando alguma coisa, gritando meu nome ou andando pela casa durante a madrugada, como tantas vezes aconteceu nos últimos tempos. Mas logo a realidade volta. Minha mãe não está aqui. Ela está na clínica. Dormindo em um quarto que não é dela, dividindo espaço com pessoas que eu nem conheço. Embora eu tenha uma boa impressão do lugar, embora eu saiba racionalmente que talvez ela esteja sendo bem cuidada, existe uma parte de mim que nunca consegue descansar completamente. Fico imaginando como ela dorme. Se sente medo. Se chama por mim. Se sabe onde está. Se olha ao redor procurando coisas familiares e não encontra nada. Às vezes tento imaginar quem está dormindo ao lado dela naquele quarto compartilhado. E essa ideia me causa uma tris...

Existe Deus?

Existe Deus… ou Nós o Criamos? E talvez, no meio de todas essas experiências, exista uma pergunta ainda mais profunda do que todas as outras: Deus existe… ou nós o criamos? Depois de passar por igrejas, templos, rituais, experiências transcendentais e diferentes manifestações de fé, comecei a perceber que cada pessoa fala de Deus como quem descreve algo íntimo demais para ser universalmente explicado. Todos parecem ter certeza. Mas cada um descreve um Deus diferente. O cristão fala de amor e salvação. O espírita fala de evolução. O umbandista fala de energia, ancestralidade e guias. O indígena encontra o sagrado na natureza. O místico encontra Deus dentro de si. O ateu questiona se tudo isso não seria apenas criação humana. E então nasce o conflito inevitável: se Deus é um só, por que cada ser humano o enxerga de maneira tão diferente? Talvez porque ninguém enxergue Deus por inteiro. Ou talvez porque cada pessoa construa Deus dentro da própria consciência. Foi aí que comecei a compreen...

o deus quw foi

O Deus que Foi, o Deus que É, e Quem Sou Eu Diante Dele Existe uma parte da minha espiritualidade que durante muito tempo viveu em conflito: minha sexualidade. Eu sou homossexual. E talvez essa tenha sido uma das maiores feridas produzidas dentro da minha experiência religiosa cristã. Porque o mesmo Deus que me ensinavam como amor também aparecia, muitas vezes, como condenação. O mesmo Deus que dizia “eu te amo” parecia dizer, ao mesmo tempo: “mas não assim”. E isso destrói silenciosamente uma pessoa. Porque nasce uma pergunta impossível dentro do coração: Como alguém pode ser amado e rejeitado ao mesmo tempo pelo mesmo Deus? Durante anos tentei separar quem eu era daquilo que sentia. Como se minha existência precisasse passar por correção para merecer espiritualidade. Como se houvesse algo quebrado em mim que precisava ser consertado para que Deus finalmente me aceitasse. Mas o tempo foi passando. E junto dele vieram as perguntas que nenhuma doutrina conseguiu responder completamente....

o deus que cada um carrega

Um Carrega Passei boa parte da minha vida acreditando que a fé precisava ter endereço fixo. Um templo, uma doutrina, uma verdade absoluta. Cresci entre misturas espirituais. Minha mãe buscava respostas em muitos lugares, e mesmo sem entender tudo quando criança, eu observava. Vi rezas diferentes, pessoas diferentes, manifestações diferentes de fé. Depois fui levado ao Cristianismo, onde permaneci durante muitos anos. Ali aprendi sobre Deus, sobre salvação, sobre o Espírito Santo, sobre céu, inferno e verdade. Por muito tempo pensei que aquele era o único caminho possível. Mas a vida, às vezes, nos leva para lugares inesperados. E comigo não foi diferente. Com o passar dos anos, comecei a observar mais do que repetir. Passei a olhar a fé das pessoas sem a necessidade imediata de julgar se estavam certas ou erradas. Apenas observava. E quando comecei a observar, percebi algo que nunca haviam me dito claramente: a experiência humana da espiritualidade é muito parecida em muitos lugares. F...