Caminho sem volta
Durante muito tempo pensei que a minha dor estivesse apenas na perda gradual da memória da minha mãe. Com o tempo, percebi que havia algo ainda mais profundo. O que me machucava não era somente vê-la esquecer o mundo, mas sentir que eu também estava perdendo o lugar que ocupava na vida dela. Mesmo com toda a distância que sempre existiu entre nós, bastava saber que ela estava ali. Em algum lugar, havia alguém que se preocupava comigo. Talvez não conversássemos tanto. Talvez nunca tivéssemos construído a relação que eu gostaria. Ainda assim, eu era seu filho, e essa certeza me dava um porto silencioso. Um lugar de pertencimento que eu jamais havia percebido até começar a perdê-lo. A demência provoca uma despedida diferente de todas as outras. A pessoa continua viva, respira, sorri em alguns momentos, mas a relação vai sendo apagada lentamente. Não é apenas ela que esquece. Quem permanece também vê parte da própria identidade desaparecer. Foi nesse período que comecei a olhar para a minh...