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Atos dos solitários

Ato 1 Uma tentativa solitária de encontrar conforto em pessoas solitárias, que se sentem desconfortáveis em esperar algum conforto, mesmo sendo sincero e genuíno, mesmo quando vem de pessoas que são igualmente solitárias. Ato 2 E a Pequi? Continua internada, mas com danos neurológicos. Não vai voltar. Acho que eles tentam ao máximo tirá-la do quadro crítico, o que não ocorrerá. O sacrifício… não sei qual é o parâmetro usado para essas decisões. Ai, meu amor… é difícil esse momento, mas, com certeza, a vida tem o melhor para ela e para você. Fica bem. Ato 3 Não quis me ver. Não quer encontro. Não quer nada. Estou desde ontem chamando para dar um abraço. O abraço pretendido, o abraço esperado. Ato 4 Estou bem. No que tem para hoje. Está sendo bom. Difícil, mas estou levando da melhor forma possível. Não tive coragem de ter coragem. É uma decisão muito difícil. Mas está tão calma, amorosa, tão bem… e eu me sinto culpado por não conseguir ser mais presente. Vou levar isso tudo o quanto pud...

Cruel

Sempre cruel. Sua linguagem, uma torre de Babel. Seu discernimento era forte e brutal. Hoje… pouco compreende o seu redor, há simplicidade e amor. Muito amor. Como se as amarras que a prendiam, que me prendiam, estivessem desatadas, sem nó, sem barreiras, uma nova fronteira atravessada. Como se o passado não existisse, e o hoje, mesmo que desconexo, confuso, se resumisse em liberdade. Onde a velha verdade se diluiu, onde se vê somente a estrada que ainda resta para seguir, mesmo sem saber se há para onde prosseguir. Mas que sua única guia fosse sempre fundada no amor — que existiu, mas não se exibiu, não por vergonha, mas por falta de compaixão, que agora floriu e coloriu nossos caminhos..

Sem barreiras

Elas correm... para onde eu não sei. Elas dançam... uma música que ninguém ouve. Elas riem... para quem, não compreendo. Mas admiro cada um de seus movimentos. Quando elas se aproximam, são sempre cheias de amor. Não veem os defeitos, observam apenas o que é bom. E isso me faz tão bem. Ser observado sem barreiras, sem falsas verdades, de uma maneira genuína e sincera, com aquele olhar que somente elas têm. Um olhar que enxerga a alma, e não aquilo que dizem que a gente tem. Isso muito me satisfaz. E elas correm, para onde eu não sei. Certamente seja em uma direção que eu já segui, sem me importar onde deveria ir. E é nesse lugar que quero um dia chegar. E eu alcançarei... Pois voltarei a trilhar esse mesmo percurso em que um dia me perdi.

Pipil

Hoje cheguei em casa e ela não me reconheceu. Estava paralisada, sem controle, sem nenhum movimento. De certa forma, eu a escolhi. Quando Lana partiu, eu simplesmente decidi: quero outra em seu lugar. Mas é claro — ninguém substitui ninguém, nada substitui nada. Ela chegou, conquistou seu espaço e, aos poucos, me conquistou. Da pequena criatura que era, foi se desenvolvendo, crescendo… e me amou. E, da mesma forma, eu a amei. Eu chegava em casa — ou melhor, tentava chegar — e ela já me aguardava. De uma forma escandalosa, me recepcionava. Eu esperava silêncio, para não chamar atenção, mas ela não disfarçava. Fazia sua algazarra, me denunciava ao mundo. Ela era assim: Pequi. Pequi de Goiás. Na verdade, seu nome nasceu de um carinho: pequitita, pequiquita… Pequi. Porque ela era tão pequenininha, tão bonitinha… com seu rabinho balançante, ventilante, vibrante. Não havia outro nome possível. E hoje aconteceu. Cheguei em casa, e ela não me recebeu. Fui até a sua casinha e percebi: ela tremi...

Belo

Talvez tudo seja uma miragem, uma discreta bobagem que não queremos mirar. Estava tudo tão belo, cheio de alegria e espantos, que nem eu pude acreditar. Dançamos, sorrimos, bebemos. Os que nos observavam só tinham palavras de amor, pois viram algo raro: amor genuíno, liberdade, o sorriso expresso no olhar. Nem tinha como disfarçar a alegria presente, que envolvia, era quente, não tinha como apagar. Cada sorriso sincero, todo abraço era belo, tínhamos que compartilhar.

Prisões invisíveis

A verdadeira prisão não está na solidão ou nas marcas do caminho, mas na ideia de que já é tarde demais para buscar algo verdadeiro. E isso é verdade. Às vezes não é a vida que nos prende, mas a ideia de que já não há mais tempo para nos sentirmos livres e sermos quem realmente somos. Essa batalha que existe em nosso interior deve ser travada diariamente, pois constantemente somos convencidos de que não existe mais chance de mudança. E muitas vezes insistimos em acreditar.

Filho

Eu tenho mais um filho? Eu lhe conheço... mas não sei quem você é... Mas cadê seu filho? Não sei onde ele está... Ele não vem lhe visitar? Ele não vem pra cá... Meu filho não vem me visitar... Só se for você o meu filho... Sabia que eu acho que é você o meu filho... Será? Senhor Jesus, saber que você que é meu filho... Acho que sou eu mesmo... Eu que criei você. Você é o filho que eu chamava de filho?

Encontro

Nas próximas vezes que certamente acontecerão, ficaremos somente no cuidado. O próximo encontro será outro encontro... Cada encontro é outro encontro. E hoje tivemos um ótimo momento. Não se sinta incomodando, tudo foi totalmente consentido, para mim, foi mais que desejado. Eu estou muito fragilizado com um acontecimento recente. Talvez por isso, acabei saindo da linha. Foi ótimo... E pode ficar tranquilo, que isso não diminui em nada a grande pessoa que você é. De certa forma você confiou em mim. E eu recebi seu carinho com muito respeito. E espero que você tenha percebido que por você eu sinto imenso carinho. É tão bom se sentir acolhido. Eu me senti assim, totalmente acolhido por você. Você foi até onde se sentiu à vontade de ir... e me levou, como disse anteriormente, a um ótimo lugar, onde eu também precisava estar. Seu abraço é gigante... Um dia vou querer um momento só de abraços com você... Esse momento pode durar mais de uma hora...

Correntes

Nunca fui livre, sempre fui lançado em inúmeras prisões, algumas delas adentrei de maneira voluntária, e essas foram as mais difíceis de sair. Sempre deixado de lado, sempre a última escolha, o motivo do riso, a inspiração para o deboche. De cabeça sempre baixa, olhos fitados ao chão, com o corpo sendo doado em busca de compaixão. Longo e difícil caminho. Disso tudo, pouco me acompanha, embora ainda tenha força, pouco interfere nas minhas escolhas. Talvez tenha se convertido em força toda aquela tristeza, todo aquele abandono. Hoje já não pesa na alma. Aprendi a ser só e a estar bem em minha própria companhia. A solidão já não dói nem assusta. A noite, por mais escura que esteja, não causa espanto, nem consome esperanças. Tudo se tornou uma vaga lembrança que, às vezes, insiste em se apresentar, mas acaba sendo deixada de lado.