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raios

Caminho por um campo aberto, um pasto verdejante que parece não ter fim. A relva toca meus tornozelos com suavidade, como se reconhecesse minha presença. À minha frente, uma colina se ergue em silêncio, e acima dela o céu começa a se transformar. Ainda é dia, mas o dia já não se sustenta inteiro. O sol, cansado, se inclina no horizonte, espalhando tons quentes que escorrem pela paisagem. Estou sozinho. E, ainda assim, não há solidão. Caminho sem pressa, como quem não precisa chegar. O vento passa leve, carregando um cheiro de terra úmida e algo que me escapa à memória, mas que me conforta. Aos poucos, a luz do dia vai cedendo espaço à noite que se aproxima sem ruído, sem anúncio. Apenas acontece. E então eu percebo. Primeiro, um ponto tímido de luz, quase imperceptível, surgindo do chão. Depois outro. E mais outro. Pequenos brilhos começam a despontar sob meus pés, como se a terra respirasse luz. São como vagalumes, mas não vêm do ar, vêm de baixo, da própria superfície que piso. Amare...

desdecho

E, talvez, seja por isso que eu volte. Não apenas para ver tudo outra vez, nem para confirmar se ainda está lá, mas para não deixar que esse lugar exista só em mim. Porque, por muito tempo, eu temi. Temi que ninguém visse. Temi que, ao verem, deixasse de ser meu. Temi que tudo aquilo se perdesse no instante em que fosse compartilhado. Mas não. Algumas coisas não se desfazem quando são divididas. Elas se confirmam. E é por isso que, sempre que a noite começa a cair, eu caminho de novo por aquela estrada. Levo comigo alguém que, de alguma forma, faz parte daquilo que eu sou. E espero. Espero o instante em que a escuridão se abre e a luz começa a nascer de dentro da terra. Não para provar que é real. Mas para que, por um momento, deixe de ser só um sonho meu.

outeos encontros

Assim que a escuridão caía sobre o chão, a luz acesa na janela da casa se tornava pequena. Quase insignificante diante do que surgia lá fora. Porque a noite não era apenas noite. Era uma noite acesa. Uma noite com sol. Os arbustos despertavam em fogo que não queimava, não consumia, apenas existia para iluminar. Como se sopros de dragões passassem por entre eles, espalhando vida em forma de luz. Nuvens de vagalumes se formavam no ar, misturadas a cores que lembravam néon, mas sem origem, sem fonte, sem explicação. E eu estava ali. Levando outros comigo. Pessoas que eu amava, pessoas que eu queria que vissem, que acreditassem, que sentissem. Porque aquilo, que por tanto tempo foi só meu, começava a se abrir. E, ainda assim, não deixava de ser estranho. Era como espalhar um fogo que não queima. Como oferecer um sol que não aquece. Como atravessar uma noite que se transforma em dia sem pedir licença. E, naquele instante, todos nós éramos alcançados por essa luz. Não para entender. Mas para...

bia

Começou em um arbusto, depois em outro. Uma luz fraca, quase nada. Uma fagulha tímida. Um sopro leve, como um vento sem força, que mal se percebia. Mas dentro de mim acendeu outra coisa. Uma certeza. Não era sobre provar que eu estava certo. Nem eu mesmo sabia se aquilo era verdade. Mas eu precisava que ela visse. Precisava que, pelo menos naquele pequeno movimento, naquele quase nada, existisse algo que dissesse: eu não inventei isso. O sol já tinha ido embora. A noite se firmava escura. E ali, sob os arbustos, só restavam pequenos pontos de luz, tão fracos que mal iluminavam o chão. Eu tentei disfarçar. Disse qualquer coisa, meio sem jeito: — Acho que hoje não… hoje não vai acontecer. Mas, sem que ela dissesse nada, eu entendi. No olhar dela não havia dúvida, nem cobrança. Se não acontecesse, tudo bem. E foi nesse instante que aconteceu. Como se o chão respirasse fundo, um vento subiu de baixo para cima. Não era brisa. Era um sopro cheio, vivo. Rodopiava como se tivesse corpo. Como s...

visita

Nos meus sonhos, aqueles que me acompanham desde que me entendo por gente, há sempre uma continuidade. Não são sonhos soltos. São caminhos que eu retorno, lugares que me reconhecem antes mesmo que eu os reconheça. Depois de atravessar o caminho de terra, naquele primeiro encontro em que vi os arbustos se acenderem — não como fogo comum, mas como uma luz viva, que rodopiava como vagalumes e não consumia — tudo começou a mudar. Passei a não estar mais sozinho. Comecei a encontrar, nesses mesmos sonhos, pessoas importantes da minha vida. E, de algum modo, eu sentia que precisava levá-las até lá. Como se aquele lugar, que até então era só meu, devesse ser mostrado. A tarde sempre começava a cair quando eu os conduzia pelo caminho. Eu ia explicando, quase em segredo, que aqueles arbustos, tão comuns à primeira vista, logo seriam tomados por algo que não queimava. Uma luz que era fogo e neve ao mesmo tempo. Flocos quentes, girando no ar, sem ferir. Cada vez era alguém diferente. Nunca os mes...

Sol noturno

Algumas vezes eu retorno a esse sonho. Ou talvez seja mais justo dizer que, em sonho, eu retorno a esse lugar. A primeira vez foi inesperada. Eu estava ali sem saber o que iria acontecer, caminhando por um campo tomado por pequenos arbustos, sob um fim de tarde que parecia comum. Mas quando a noite começou a se aproximar, tudo se transformou. Aqueles arbustos se incendiaram em uma nuvem de neon que não os consumia. Cada um carregava sua própria cor, e cada cor encontrava outra, se completava, se misturava, até que tudo se tornava um único brilho vivo, um fogo que não destruía, mas iluminava a noite por inteiro. Desde então, eu volto. Não sei quando nem por quê, mas em alguns sonhos eu me vejo novamente naquele mesmo lugar. A mesma colina, a mesma estrada de terra, os mesmos arbustos silenciosos esperando o tempo certo. E eu caminho por ali como quem já conhece cada detalhe, como quem retorna a um ponto marcado dentro de si. Não há pressa. Às vezes eu me sento à beira do caminho. Encont...

casinha

E a noite começava. Desta vez, não era da estrada que eu via. Eu estava abrigado, em silêncio, olhando através de uma janela. Havia uma distância sutil entre mim e o campo, como se eu ocupasse um lugar de contemplação, não de passagem. Foi assim que eu percebi. Lá fora, o mesmo fenômeno voltava a acontecer. Aquele fogo que não era fogo, aquela matéria luminosa que lembrava flocos de neve aquecidos, começou a envolver cada um dos arbustos. Um a um, eles se acendiam, tomados por uma presença viva, colorida, quase pulsante. E então eu compreendi, ainda que sem palavras: aquela noite não seria escura. Era mais uma noite de sol. Não um único sol, mas muitos. Pequenos sóis espalhados pelo campo, cada um com sua cor, sua intensidade, seu movimento. Sóis incandescentes que rodopiavam ao redor dos arbustos, dançando em um ritmo próprio, como se obedecessem a uma ordem invisível. E juntos, eles formavam algo maior. Um arco-íris vivo, incandescente, em constante movimento. Não queimava, não feria...

Vagalumes

Há um sonho que me visita mais de uma vez. Ele não chega com alarde, nem muda muito de forma. Pelo contrário, ele retorna quase idêntico, como se insistisse em ser visto com mais atenção a cada reencontro. Eu estou em uma colina. Um lugar alto, aberto, onde não há casa alguma, nem sinal de presença humana. Apenas uma estrada de terra corta o cenário, simples, crua, como se sempre tivesse estado ali. E sou eu quem caminha por ela, no centro, sem pressa, sem destino declarado. De cada lado da estrada, existem pequenos arbustos. Baixos, discretos, quase sem importância à primeira vista. Eles se espalham pelo terreno como pontos silenciosos de vida, ocupando o espaço com uma humildade que beira o esquecimento. Ainda é claro. Mas não por muito tempo. É exatamente nesse instante de transição — quando o dia começa a se despedir sem ainda ter ido embora — que algo começa a acontecer. A noite se aproxima, mas não como se espera. Ela não chega trazendo escuridão. Ela chega despertando. Um a um, ...

Semente

Quero fugir, correr para bem longe, ir além de onde o sol se esconde. Seguir sem olhar para trás, levar comigo apenas o que basta. O agora é o que tenho. E é nele que a vida acontece. O passado pesa nos ombros, mas é no aprendizado que ele deve ficar. Nem sempre sei o que guardo no bolso. O futuro está logo ali, nascendo das sementes que espalho pelo caminho. Há vontade de desistir, mas a liberdade não aceita acordo. E, às vezes, é ela mesma que me prende.

Possibilidade

Eu me olho no espelho todos os dias. E todos os dias vejo um reflexo que insiste em dizer que sou eu. Mas às vezes desconfio. Talvez seja só uma versão editada, uma interpretação que o meu próprio olhar inventa para não se perder de vez. Eu me toco, me aliso, como quem tenta confirmar presença, e ainda assim pergunto: quem sou eu? Quem é esse que me devolve o olhar, como se me conhecesse mais do que eu mesmo? Já tentei responder em voz alta, como quem canta uma verdade qualquer, mas a pergunta sempre volta, um pouco mais funda. Olho para dentro e encontro o mesmo reflexo, só que sem espelho. E o pior é isso: nem eu sei de mim. E ainda assim tem quem diga que sabe, quem me define, me resume, me explica como se fosse simples. Eu queria entender. Não para caber numa resposta, mas para não ferir sem perceber, para não atravessar o outro com partes minhas que nem conheço. Talvez eu nunca descubra. Talvez eu só aprenda a ser mais cuidadoso com o que sou, mesmo sem saber direito o que isso si...

Desepero

Tenho tanta saudade do futuro que ainda não chegou, mas que eu desejo tanto que venha logo. Já faz tanto tempo… que eu nem me empolgo mais. Desisti. Desisti de esperar o futuro chegar… chegar para acabar com essa insistência em desistir de aguardar, em esperar o futuro me encontrar hoje, ou quem sabe ontem, nesse presente... Do passado, retomo aquilo tudo que esqueci, que já desisti... Já que hoje nada acontece, me vejo no passado, pensando no projeto do futuro como se já tivesse sido. Para ver se algo de novo acontece, e se já aconteceu, e eu nem vi. E, de alguma forma, aquilo que não me pegue desprevenido, nem o futuro quando vier, nem o passado quando voltar. Estou aqui para aguardar o que venha me recepcionar, sem causar decepção.

Lugar

Agora que sentei, não levanto mais. Agora que entrei, ninguém me tira daqui. Nem é o lugar onde eu gostaria de estar. Não havia opção. Havia, mas também existia um "não", que já se encontrava pronto, assim como este lugar em que me encontro sem hesitar. Existir é fazer parte de inúmeros contextos, alguns deles, os mais inusitados. E eu estive cansado. Meu cansaço me leva a inúmeros lugares, na procura de descanso, de um pouco de distração, para não confundir a mente e arrancar de vez toda semente ruim, toda erva daninha que tenta se apossar do meu insensato coração. Um coração que perde a razão nos lugares em que não deveria se encontrar.

pequeno pássaro

Como um pássaro pousa nas mãos do Senhor, pequeno pássaro, sempre canta seu louvor. Aleluia! Olha que mensagem interessante: o pássaro, que era livre, volta para as mãos do seu Senhor e diz “aleluia”. Talvez eu tenha interpretado errado, mas essa mensagem me soou estranha agora que me lembrei dela. Ela me fez pensar: como o pássaro volta para as mãos do seu Senhor e fala “aleluia”? Eu penso diferente. Acho que o pássaro, quando consegue escapar depois de ter sido capturado, diria: “Aleluia! Longe de ti, meu senhor. Não quero mais te ver nunca mais.”

nei

Mesmo estando sempre nos lugares mais improváveis, cercado pelas pessoas mais diversas e vivendo situações quase indescritíveis, ao final da noite percebo que tudo faz sentido. Cada encontro, cada momento e cada detalhe acabam me completando de alguma forma, transformando minhas perguntas em novas respostas. Então volto para casa satisfeito. Não porque tenha feito tudo da maneira certa, mas porque a própria vida, mesmo em sua desordem, me oferece uma resposta segura. É nela que encontro força para me sustentar, seguir em frente e enfrentar um novo amanhã.

qhh

“Eu saio à procura de um lugar que possa me aliviar a dor. Encontro, nas esquinas e no bar, pessoas que me oferecem o amor, mas eu perco a crença, eu perco a vontade de encontrar, porque eu não sei onde encontrar tudo aquilo que eu busco. Eu vejo todos tagarelar as suas dores, suas ilusões. Eu ouço contos e contos; os meus, os meus delírios, minhas transgressões. Algumas coisas eu invento, as outras verdadeiramente foram totalmente vivenciadas por mim. Mas quem ouve falar nem ao menos consegue acreditar; pensa que louco eu sou por acreditar no amor e que um simples abraço pode curar, pode afastar, pode transformar um minuto de dor em uma eternidade de amor.”

popo

Não sou uma pessoa tão velha assim, não tive tantas experiências espetaculares, mas já convivi no caminho da fé de diversas formas. Fui apresentado a inúmeras ilusões filosóficas, religiões estratosféricas — não sei se existe essa palavra, mas é assim que eu posso definir. E nada do que hoje eu vivenciei me surpreendeu. Achei o básico do básico. Posso estar errado, mas achei um teatro quase ensaiado e repetido, que tenta convencer pessoas nada sãs a se entregarem. Por isso, quando eu entrei, eu disse que perguntas eu não tinha e que respostas eu não esperava. Apenas questionei: o que eu estou fazendo aqui? Tentaram me iludir com outras perguntas, tentando respostas em meio a outros questionamentos. Entrei na dança para que nada ficasse em vão. Fui fazendo com que a minha presença lá tivesse significado, e que a presença dela fosse significante. Pouco significou, porém, tudo deu certo e, no final, o abraço aconteceu.

Pergunta

Esperar uma pergunta e receber outra deve ser muito frustrante. Responder a uma pergunta com outra pergunta deve ser algo assustador. Quando a pessoa que você questiona — ou melhor, quando a pessoa de quem você espera uma resposta — não quer responder, você faz da sua questão uma resposta que o outro não quer, ou que o outro não tem. Uma pergunta que não existe, mas que deveria existir. Então você estimula a pergunta para dar uma resposta a quem não perguntou.

Ditado

Há um ditado que diz que o 51 é uma boa ideia. Então talvez tenha sido mesmo uma boa ideia deixar para trás a senha que eu ganhei e abandonar o lugar. Naquele dia, eu não entrei. Deixei o número no cesto, virei as costas e fui embora. Achei que fosse desistência. Hoje penso que talvez tenha sido apenas uma boa ideia. Porque nem toda porta aberta é para ser atravessada naquele instante. Há momentos em que a melhor decisão é recuar, observar, deixar passar. O 51 foi isso. Uma boa ideia. A ideia de não forçar. A ideia de não entrar sem certeza. A ideia de deixar para trás o que ainda não era meu. Mas depois veio o 11. E o 11 não foi ideia. O 11 foi oportunidade. Não foi algo que eu pensei. Foi algo que me foi dado. Eu não deixei no cesto. Eu aceitei. E com ele atravessei a porteira. Por isso, hoje eu penso: O 51 foi a boa ideia de esperar. O 11 foi a oportunidade de entrar. Um eu deixei para trás. O outro me levou para dentro.

51

Na frente do terreiro, quatro vezes eu passei. A primeira foi por engano. Eu não estava sóbrio e li uma placa: “karaokê”. Eu gosto de música, via a música acontecendo, as pessoas batendo palma, e cheguei para pegar uma senha e cantar. Mas, quando olhei melhor, não se tratava de karaokê. Tratava-se de uma concentração de fé. Li novamente a placa. Li e reli, até perceber que havia lido errado: era karatê. No prédio acima havia uma escola de karatê, mas embaixo havia um templo de fé. E ali fiquei, observando o ritual. Curioso que sou, observei, permaneci mais de uma hora. Me distraí e voltei embora. Mas algo me chamou. E lá voltei. Parei na frente e observei. Tirei conclusões, lembrei da infância, lembrei da vida, lembrei da minha mãe, pensei em mim e pensei por que eu estava ali. Mais uma vez, me retirei. Pela terceira vez, voltei. Fiquei mais de uma hora. Então abriram-se as porteiras, e achei aquilo interessante. Havia crianças rindo, mas alguns daqueles risos me perturbavam, então me ...

11

O 51 foi a senha que eu deixei. Estava nas minhas mãos, mas eu não atravessei. Era a minha vez, mas eu recuei. Fiquei do lado de fora, olhando, pensando, desconfiando, tentando entender por que aquele lugar me chamava e por que, ao mesmo tempo, eu não tinha coragem de entrar. O 51 ficou para trás. Era meu, mas eu não quis. Ou talvez quisesse, mas ainda não era a hora. Depois veio o 11. Não era o número que eu esperava. Não era o número que eu havia deixado. Era outro. Era novo. Era o que me foi dado. E com ele eu entrei. Curioso pensar que um número eu rejeitei, e o outro eu ganhei. Talvez a vida seja assim. Há coisas que chegam e nós não estamos prontos. Há portas abertas que mesmo assim não atravessamos. Há senhas que chamam o nosso nome, mas o medo fala mais alto. E depois, quando já nem estamos pensando, quando a distração nos leva de volta, a vida nos entrega outro número, outra chance, outro momento. O 51 foi a senha que eu deixei. O 11 foi a senha que eu aceitei. Uma ficou para ...

bar

Nem preciso contar que bebi. E agora, estranho e bonito, depois de compartilhar o texto contigo, eu li isso chorando de alegria boa, de carinho por você. Agora estou rindo com cara de choro, no bar, e até isso me rendeu mais risos. E no fim, nos resumimos a isso: boas lágrimas e ótimos risos. Essa é uma declaração de amor, cheia de lágrimas e risos.

Risada

Você é uma pessoa que me arranca sorrisos quando estamos perto, mesmo quando estamos um tanto distantes. Você traz alegria aos meus pensamentos, a todo momento, mesmo quando o tempo se desvia. Eu rio sozinho quando lembro das nossas risadas, que ninguém além de nós compreende, talvez porque a gente nunca explique. Nós nos entendemos, e sabemos o momento exato em que devemos parar de falar sério, esquecer a política, as dores do mundo, e falar de qualquer coisa, como se não fosse nada demais. Aquelas coisas que não dizemos em público, mas entendemos nos olhares trocados, quando passa ao nosso lado aquele belo rapaz, com aquela calça marcada, que a gente comenta baixo, ou de forma escancarada, só pra ver a risada escapar. E depois a gente disfarça, muda de assunto, como se não tivesse importância. Mas eu lembro disso sozinho, e sozinho rio por dentro, como quem guarda uma coisa que não precisa ser dita. Por encontrar alegria contigo, hoje, rio neste exato momento em que acabamos de nos c...

Mensagem de fé

Mensagem Olá… Como você tem passado? A vida, às vezes, parece uma estrada longa e íngreme. Cada dia traz seus próprios desafios, seus pesos silenciosos, suas batalhas escondidas atrás dos sorrisos. Mas penso que chegar ao fim do dia ainda com forças no peito é uma forma de agradecer. Agradecer pelo pão, pelo abraço, pela esperança que insiste em nascer outra vez pela manhã. Quando aprendemos a enxergar Deus nas pequenas coisas, no vento leve da manhã, numa palavra amiga, num instante de paz em meio ao cansaço, a vida deixa de ser apenas sobrevivência. Ela se transforma em descoberta. Em busca. Em reconhecimento de que nunca caminhamos sozinhos. Que o seu dia seja leve. Que a fé lhe faça companhia mesmo nas horas difíceis. Estou bem… E confesso que sua mensagem tocou meu coração. Trouxe ânimo para enfrentar este novo dia, como quem abre a janela cedo e encontra a luz entrando devagar pela casa.

Madrugada

Acordei de madrugada mais uma vez. Isso tem acontecido com frequência ultimamente. Abro os olhos e, por alguns segundos, tenho aquela sensação automática de que minha mãe está lá embaixo, no quarto dela. Fico quase esperando ouvir a voz dela me chamando, perguntando alguma coisa, gritando meu nome ou andando pela casa durante a madrugada, como tantas vezes aconteceu nos últimos tempos. Mas logo a realidade volta. Minha mãe não está aqui. Ela está na clínica. Dormindo em um quarto que não é dela, dividindo espaço com pessoas que eu nem conheço. Embora eu tenha uma boa impressão do lugar, embora eu saiba racionalmente que talvez ela esteja sendo bem cuidada, existe uma parte de mim que nunca consegue descansar completamente. Fico imaginando como ela dorme. Se sente medo. Se chama por mim. Se sabe onde está. Se olha ao redor procurando coisas familiares e não encontra nada. Às vezes tento imaginar quem está dormindo ao lado dela naquele quarto compartilhado. E essa ideia me causa uma tris...

pente

Quando minha mãe voltou a morar comigo, no início ela ainda preservava muitos hábitos que carregou durante toda a vida. E um dos mais importantes era o cuidado quase sagrado com o cabelo. Mesmo já enfrentando os primeiros sinais mais severos da demência, ela ainda mantinha um enorme zelo pelos fios longos que cultivou por décadas. Tomava banho, lavava cuidadosamente o cabelo, secava devagar, penteava com paciência e depois ficava andando pelo corredor da casa esperando o cabelo terminar de secar naturalmente. Era um cabelo impressionante. Muito comprido, fino, brilhante, cheio de pontas delicadas, mas extremamente bonito. Um cabelo que ainda carregava parte da identidade da mulher que ela havia sido durante tantos anos. Enquanto ainda conseguia sair sozinha até o mercadinho da esquina, aquele cabelo chamava atenção por onde passava. Algumas pessoas admiravam sinceramente. Outras achavam estranho uma mulher daquela idade nunca ter cortado os cabelos. Alguns até zombavam discretamente. M...