a gata
A gata Minha mãe veio comigo, e com ela, veio a gata. Não chegou só como animal, chegou como acusação, como dúvida, como um ruído constante dentro da casa. Ela dizia: — você bateu na gata. — cadê a gata? — você fez alguma coisa com ela. E eu, que nunca levantei a mão nem para a minha Pequi, que já partiu e ainda mora em mim, me via tentando provar o impossível: minha inocência dentro de um mundo que já não era mais o mesmo que o meu. Os meses passaram, e as histórias mudaram de forma, mas nunca de peso. Se a gata sumia, eu era o culpado. Depois, não mais: a gata estava se despedindo, indo morrer sozinha, como se os animais soubessem a hora de partir. E eu fui ficando no meio disso tudo, entre o que ela via e o que nunca existiu. Um dia, o silêncio. Deixei minha mãe alguns dias fora, porque também sou feito de limites, mesmo quando não queria ser. E a gata sumiu. E eu respirei. Não por maldade, mas por cansaço. Uma cruz a menos, pensei, sem coragem de dizer em voz alta. Minha mãe voltou...