Pé frio
Fui dar o remédio pra mamãe. Entreguei os comprimidos, o copinho d’água.
Com dificuldade, ela se sentou na cama, pegou os medicamentos, olhou atentamente para eles. Colocou primeiro o menor, depois o maior comprimido na boca.
Com as mãos trêmulas, levou a água e, com esforço, engoliu.
Me devolveu o copo, agradeceu… ou melhor, me abençoou.
Fui até a cozinha guardar o copo. Quando voltei, vi que seus pés estavam de fora. Sei como ela é friorenta. Fui lá e cobri.
Deu uma vontade de deitar ao lado dela. Às vezes faço isso. Deito, mas com cuidado pra não encostar. Ela sempre teve um certo receio… uma resistência ao toque de um homem, mesmo sendo eu, seu filho.
Do nada, falei:
— Mãe, vou dormir aqui com a senhora.
Ela estranhou:
— Como assim, vai dormir comigo?
— Tô morrendo de frio… vou deitar aqui. Agora que a senhora tá com esse cobertor novo, bem quentinho…
Esse cobertor, na verdade, tem história. Eram dois, largados na casa velha. Fui lá esses dias tirar os móveis, o resto de entulho, pra deixar tudo pronto pra alugar. E eles estavam lá, esquecidos.
Dois cobertores que não valiam por um. Leves, escorregadios, não abraçavam o corpo.
Resolvi juntar. Costurei um no outro. Fiz um só. Camada dupla.
Ficou mais pesado… e acolhedor.
Deitei ao lado dela, puxando o cobertor com cuidado. Fui me encostando devagar, evitando levar o frio do meu corpo de uma vez só.
Aproximei o pé… até encostar no dela.
Ela reagiu na hora:
— Nossa, filho… que pé frio!
E já veio com o cuidado:
— Ai, que dó… você tá sem cobertor? Pega outro, leva esse aqui…
Eu sorri:
— Tenho cobertor, mãe… é que eu queria esquentar o pé na senhora, que já tá quentinha.
Ela riu. Um riso leve, meio perdido… mas que reconhecia alguma coisa ali.
Porque havia mesmo.
Aos poucos, ela foi se aquietando.
Eu quase não me mexia. Ia só procurando um ponto em que o frio do meu pé encontrasse o calor do dela, sem incomodar.
De vez em quando, ela reclamava:
— Ai… que pé frio…
Mas não afastava.
Até que, sem perceber:
— Nossa… seu pé já tá quentinho…
Depois:
— Já aqueceu…
E, com um suspiro:
— Ai… que gostoso… você não tá mais com frio…
O corpo dela relaxou. Quase cochilou.
E eu fiquei ali, sem mexer… sustentando aquele instante.
Hoje eu olho pro passado e tenho a sensação de que o frio não é mais o mesmo.
Não sei se as estações mudaram… ou se fomos nós.
Antigamente, a casa era de barro. Não tinha laje, não tinha forro. O vento entrava cortando. O frio atravessava tudo, sem pedir licença.
A casa inteira gelava.
Hoje é diferente. As janelas vedam, o forro segura, as paredes não têm fresta. O frio lá fora pode ser forte, mas aqui dentro ele chega mais manso.
Quase outro frio.
Mas eu lembro.
Porque o frio de antes não era só do tempo.
E então veio a lembrança.
Eu criança, voltando da escola, naquele frio insuportável.
Mamãe… nunca foi uma pessoa fácil. Tinha dureza, uma forma brusca de cuidar. Um limite sempre ali, entre o carinho e a aspereza.
Mas havia amor.
E, do jeito dela, ela mostrava.
Nas noites de frio, antes de eu deitar, ela ia até a minha cama.
Entrava debaixo dos acolchoados — pesados, feitos de retalhos costurados — e ficava ali.
Esperando.
Esperando o corpo aquecer a cama.
Ela dizia que estava aquecendo o meu ninho.
Meu leito.
Como uma galinha que aquece o ninho pro pintinho não sofrer o frio.
Às vezes eu ainda estava na sala e já pedia:
— Mãe, esquenta a cama pra mim.
Ela resmungava… mas ia.
Depois chamava:
— Filho, já pode vir… já tá bem quentinho.
Eu entrava debaixo do cobertor. Ainda frio no começo.
Ela ficava mais um pouco. Às vezes me abraçava de leve, só até o meu corpo se ajeitar.
E então saía.
Voltava pra cama dela.
Fria outra vez.
Recomeçava tudo…
Mas com o coração aquecido.
Porque sabia que o menino estava no ninho.
Quente.
Protegido.
Amado — do jeito dela.
Aiii que lindo você escreve, emocionante, arrasa sempre!
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