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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Caminhos que escolhi

Quando decidi mudar meus caminhos, feri pessoas que eu amava. Pessoas que estavam próximas se sentiram profundamente traídas, pois pensavam que sabiam como cuidar de mim. E isso muito me doeu. Mas, pela primeira vez, eu deixei de me machucar. Percebi que vivia dentro de uma prisão construída para mim, mas à qual eu nunca pertenci de verdade. Demorei para enxergar. Demorei para ter coragem. Porque não foi uma decisão fácil. Levou tempo para me desvencilhar das garras que me prendiam, da culpa que me martelava a cada pensamento que não cabia no que esperavam de mim. Mas quando deixei de precisar da aprovação dos outros e passei a depender apenas da minha própria consciência, algo em mim mudou profundamente. Hoje sou mais inteiro. Tenho paz. Sou mais feliz. Não porque foi fácil, mas porque foi verdadeiro. Tudo é um processo demorado e doloroso, mas depois que o tempo passa, a gente percebe o quanto estamos melhores e o quanto tardamos para tomar decisões que mudam nossas vidas por complet...

Compasso da madrugada

Hoje acordei com medo, a noite mal estava na metade, e eu me encontrava desperto. O aperto no peito me fez refletir sobre meu espaço no mundo, sobre o porquê de existir. Fiquei atento a cada batida do meu coração, que hoje não estava acelerado, mas batendo em um compasso que eu conseguia seguir. Conduzido por seu ritmo,  resolvi me encher de música e poesia, para acalmar a tristeza e enfrentar o novo dia que se ergueria e que eu teria de contemplar. O dia clareou. O sono não voltou, e eu me levantei. É sempre bom reconhecer essa força que, mesmo quando se esconde, ainda insiste em me manter de pé.

Até a hora de chegar

Eu vejo toda a descrição, espero a restauração e toda justa remissão, a que isso pode ocasionar. Eu perco a minha direção e ando sempre em contramão, não sei me reestruturar. Pois perco toda a razão quando o que eu quero é compreensão, alguém para me acompanhar. Mas eu caminho sempre só, mesmo com muitos ao meu redor, já não consigo enxergar. Eu grito, eu vivo, eu sei de cor. Em cada surpresa, eu sinto a dor, eu não carrego compaixão. Sei que todos têm seu valor, mas vejo apenas minha dor, eu já me acostumei com o descaso e com o pavor que o dia traz em seu rigor. Não sei se vou me encaixar. Com tudo isso que vivi, se repete e eu posso rir, até a hora de chorar. E mesmo assim, eu sigo. E, enfim, não por esperança, mas por saber que tudo isso tem um fim. Até a hora de chegar.

Sabedoria

Hoje cheguei em casa, e ela me perguntou: — Vicente, tô preocupada… o fio ainda não chegou. Será que ele volta pra casa hoje? Respondi: — Que fio? Ela: — O meu fio... — Volta, sim. Logo ele tá aqui. — Tô preocupada… será que aconteceu alguma coisa? — Não, fica tranquila. Logo ele chega, tá trabalhando… Fui até o quarto e voltei. Ela disse: — Glória a Deus que você chegou, eu tava preocupada. Perguntou: — Vai dormir aqui em casa ou na sua? — Hoje durmo com a senhora, na sua casa. Ela sorriu e disse, aliviada: — Glória a Deus! Foi a primeira vez que ela não me reconheceu...

Um papo com Danilo

Isso foi uma indireta? Foi, sim. Não pode? Pode… mas exige coragem. Você está solteiro? Estou solteiro. E distante. Distante de quê? De quase tudo que um dia fez sentido. Qual é a sua idade? A que você gostaria que eu tivesse? A sua. Eu queria ter a sua, mas carrego a minha. E qual é a minha? Não sei ao certo. Só sei que é menor que a minha. E ser mais novo tem alguma vantagem? Talvez o tempo. Quanto tempo você precisa? Não muito. Desde que seja bem vivido. Se pudesse mudar duas coisas hoje, por mágica, quais seriam? Traria de volta a lucidez da minha mãe, perdida no labirinto do Alzheimer. E a outra? Restauraria meu corpo ao que era aos vinte e cinco anos. Mas manteria a mente de agora. Eu entendo. Porque pediria as mesmas coisas. O tempo que vivi é maior do que o tempo que ainda tenho. Lucidez. Aquela idade. E saúde para nossas mães. Afinal, quantos anos você tem? Trinta e dois. Dizem que é uma das melhores idades da vida. Para mim, foi o auge. E você, o que mudaria na sua vida? Duas...

Sem aviso

Do nada vem… Brota de dentro uma inspiração. Às vezes é intuição. Às vezes carência. Talvez demência, ou apenas a falta do que fazer. Também vem a necessidade de criar, de expressar ideias, de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Mesmo que não seja filosoficamente musical, nem intelectual. Algo que apenas preencha as lacunas dessa alma desesperada por respostas, que se enche de perguntas e não espera por compreensão.

Translação

Eu deambulo claudicantemente. Cada passo torto é uma tentativa de acerto. Sempre erro. E cada erro é uma lição que não aprendo. Tenho insistido tanto que me encontro exausto na tentativa de completar um ciclo novo. E, a cada rodada, a cada volta supostamente concluída, entre translações e rotações, percebo: tudo — e todos — permanecem no mesmo lugar. É uma análise pretensiosa, talvez. Sobre a vida e sobre as pessoas. Tão distintas entre si, mas guiadas pelo mesmo querer: um saber imposto como verdade e mercadoria. Uma realidade dita absoluta, incontundente, que insiste em me acompanhar apenas para provar o quanto estou errado sobre tudo, sobre todos e, sobretudo, sobre mim mesmo.