lugar
Eu fui conhecer um lugar onde ninguém deveria estar.
Eu acho que a vida deveria ser mais generosa e nos preparar um lugar onde, quando estivéssemos próximos do fim, estivéssemos cercados de amor, de pessoas conhecidas, de pessoas que fazem parte da nossa história — que contribuíram para a nossa felicidade e para quem também contribuímos em sua formação, em seu crescimento, em sua personalidade.
Eu sei que muitas pessoas agem de maneira equivocada, traçam caminhos tortuosos, causam traumas, dor… mas, no geral, segundo o que eu compreendo, tudo é gerado no amor. Mesmo a dor, mesmo a castração, mesmo a exposição — lá no fundo, ainda que sustentado por uma compreensão errada, existe um resquício de amor.
E, de repente, você chega no final… e hoje, na sociedade em que vivemos, acabamos sozinhos.
A juventude é cercada por pessoas de todos os lados. Vamos crescendo, e essa sintonia vai se desfazendo, as pessoas vão diminuindo, as interações vão se rareando. E então chegam os 40, os 50, os 60 anos de vida… e o que nos resta é o grupo do trabalho, a meia dúzia de amigos do boteco, três ou quatro amigos sinceros de uma vida inteira — e um resto de vida que ainda sobra, cheio de incertezas.
Hoje eu visitei o lugar onde as pessoas são deixadas.
Fui até lá para deixar a minha mãe — a mesma que me abandonou, que depois, de alguma forma, voltou ao meu caminho — e que hoje eu não estou conseguindo cuidar, não estou conseguindo dar a ela o mínimo de dignidade possível.
Eu chorei.
Na hora em que conheci o lugar, eu chorei.
Ao deixá-la, eu também chorei.
Mas, ao chegar em casa, eu compreendi que, para este momento, aquele é o melhor lugar.
Porque aqui, o abandono era maior.
Lá, há pelo menos segurança.
Aqui havia apenas uma certeza: a de que o incerto era a única garantia.
Era um abandono disfarçado de cuidado.
Era um cárcere privado que eu não admitia que existisse.
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