Redação

Ela vai ficar bem, tenha certeza.
Mesmo que agora doa pensar nisso,
mesmo que essa decisão pese mais do que o peito suporta.
Porque, às vezes,
deixar não é abandonar,
é proteger.
Não é ausência,
é cuidado —
como sempre foi.
Eu sei…
parece despedida,
mas é só um outro jeito de estar perto.
Um lugar onde também vão cuidar dela,
onde suas mãos não precisarão carregar tudo sozinhas.
E então vem a pergunta,
seca, direta, inevitável:
qual foi a sua decisão?
Um teste.
Só um teste…
levar hoje à tarde,
buscar na segunda,
como quem mede o tempo
com o coração em suspenso.
Mas os sinais já estavam ali,
escapando pelas frestas do portão:
sacolas, chaves, pequenos esquecimentos
que já não voltam sozinhos.
Restos de um cuidado
que já não se sustenta.
E a verdade, silenciosa, insiste:
não é mais seguro deixá-la só.
E cuidar de longe,
por mais que doa,
ainda é cuidar.
É difícil…
difícil como poucas coisas são.
Mas há um amor que não abraça —
decide.
E esse amor, às vezes,
fere mais do que consola.
Pode crer.
Deixei a mãe lá.
E algo em mim também ficou.
Tô destruído…
agora é esperar
e ver o que o tempo responde.
Vai dar tudo certo — dizem.
Talvez ela nem perceba o lugar,
talvez o mundo ao redor
já não tenha o mesmo contorno.
Mas o peso…
esse a gente sente inteiro.
Eu ainda estou aprendendo.
Experimentando o impossível
de aceitar de primeira.
Sem saber o resultado,
sem saber o depois.
A gente vai juntando histórias,
ouvindo daqui, dali…
tentando entender o que não se explica,
o que só se vive.
Porque só quem passa por isso
reconhece o outro no olhar.
Troca silêncios,
divide forças.
Enquanto o resto do mundo fala —
julga.
Uns com palavras leves,
outros com pedras.
Mas quase sempre olhando apenas
para o próprio umbigo,
sem jamais alcançar
a dor do outro.

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