o deus quw foi
O Deus que Foi, o Deus que É, e Quem Sou Eu Diante Dele
Existe uma parte da minha espiritualidade que durante muito tempo viveu em conflito: minha sexualidade.
Eu sou homossexual.
E talvez essa tenha sido uma das maiores feridas produzidas dentro da minha experiência religiosa cristã. Porque o mesmo Deus que me ensinavam como amor também aparecia, muitas vezes, como condenação. O mesmo Deus que dizia “eu te amo” parecia dizer, ao mesmo tempo: “mas não assim”.
E isso destrói silenciosamente uma pessoa.
Porque nasce uma pergunta impossível dentro do coração: Como alguém pode ser amado e rejeitado ao mesmo tempo pelo mesmo Deus?
Durante anos tentei separar quem eu era daquilo que sentia. Como se minha existência precisasse passar por correção para merecer espiritualidade. Como se houvesse algo quebrado em mim que precisava ser consertado para que Deus finalmente me aceitasse.
Mas o tempo foi passando. E junto dele vieram as perguntas que nenhuma doutrina conseguiu responder completamente.
Quem é esse Deus que cria alguém para depois condená-lo por existir exatamente como é?
Que amor é esse que acolhe e exclui ao mesmo tempo?
E foi nesse ponto que comecei a desconstruir não apenas a religião, mas também a imagem de Deus que haviam colocado dentro de mim desde pequeno.
Percebi que muitos dos deuses que conhecemos carregam mais o medo humano do que necessariamente o divino. São deuses moldados por cultura, tradição, controle, culpa e interpretação. Cada religião cria linguagens para explicar o sagrado, mas nenhuma consegue capturar completamente aquilo que talvez seja infinito demais para caber em palavras.
Então comecei a reconstruir minha própria relação com Deus.
Não mais baseada apenas na culpa.
Não mais baseada no medo.
Não mais baseada na ideia de que existir autenticamente me afastaria do amor divino.
Hoje, quando penso em Deus, penso também em existência. E minha sexualidade faz parte dessa existência. Não como pecado, não como erro, não como desvio, mas como parte inseparável de quem eu sou.
Porque eu não consigo mais acreditar num Deus que me cria inteiro, mas exige que eu viva pela metade.
E talvez essa tenha sido uma das maiores mudanças da minha vida espiritual: deixar de perguntar apenas “quem é Deus?” e começar a perguntar também “quem sou eu diante desse Deus?”
O Deus que existia na minha infância era um Deus absoluto, rígido e cercado de respostas prontas. O Deus que existe hoje para mim é mais silencioso, mais misterioso e muito menos preocupado em caber dentro de instituições humanas.
O Deus que foi era o Deus da culpa.
O Deus que é tornou-se o Deus da experiência.
E eu também já não sou mais o mesmo.
Hoje não me vejo apenas como alguém tentando alcançar Deus através das regras de uma religião. Me vejo como alguém atravessando a própria existência, tentando compreender o mistério da vida, do amor, do corpo, da consciência e da espiritualidade.
Talvez Deus esteja justamente aí: naquilo que existe de mais verdadeiro dentro de nós.
Porque se Deus for realmente infinito, talvez Ele seja grande demais para odiar alguém por amar.
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