pente
Quando minha mãe voltou a morar comigo, no início ela ainda preservava muitos hábitos que carregou durante toda a vida. E um dos mais importantes era o cuidado quase sagrado com o cabelo.
Mesmo já enfrentando os primeiros sinais mais severos da demência, ela ainda mantinha um enorme zelo pelos fios longos que cultivou por décadas. Tomava banho, lavava cuidadosamente o cabelo, secava devagar, penteava com paciência e depois ficava andando pelo corredor da casa esperando o cabelo terminar de secar naturalmente.
Era um cabelo impressionante.
Muito comprido, fino, brilhante, cheio de pontas delicadas, mas extremamente bonito. Um cabelo que ainda carregava parte da identidade da mulher que ela havia sido durante tantos anos.
Enquanto ainda conseguia sair sozinha até o mercadinho da esquina, aquele cabelo chamava atenção por onde passava. Algumas pessoas admiravam sinceramente. Outras achavam estranho uma mulher daquela idade nunca ter cortado os cabelos. Alguns até zombavam discretamente. Mas ninguém ficava indiferente.
Eu me lembro de estar sentado no botequinho perto de casa com alguns amigos quando minha mãe atravessava a esquina vindo em direção ao mercado para comprar pão, leite ou alguma coisinha simples. Ela vinha caminhando devagar, orgulhosa, com aquele cabelo enorme solto nas costas.
E todos comentavam.
“Nossa, olha o cabelo da sua mãe.”
“Meu Deus, quase bate no chão.”
“Que cabelo bonito.”
Ela gostava daquela admiração. Dava para perceber.
Talvez porque aquele cabelo fosse uma das últimas coisas sobre as quais ela ainda sentia controle, orgulho e pertencimento.
Mas, aos poucos, a doença começou a roubar dela justamente essa capacidade de cuidar daquilo que mais amava.
Ela ainda lavava os cabelos, mas já não conseguia secar direito. Começava a enrolar os fios molhados, prendia de qualquer maneira e depois aparecia com o cabelo completamente embaraçado, cheio de nós endurecidos.
Então vinha até mim aflita:
“Eu não consigo mais pentear.”
Pedia para levá-la a um cabeleireiro, mas imediatamente demonstrava medo:
“Mas fala pra não cortar meu cabelo.”
Esse medo era real para ela.
Dentro da fé que carregou durante quase três décadas, cortar o cabelo significava quase uma desobediência espiritual. Aquilo não era apenas estética. Era doutrina, identidade e fé.
Houve dias em que os nós estavam tão apertados que o cabelo começava praticamente a colar no couro cabeludo.
E eu tentava cuidar.
Sentava com ela pacientemente, pegava creme, pente, separava os fios devagar e começava um trabalho extremamente lento e delicado. Às vezes passávamos quase duas horas assim. Eu fui até procurar na internet formas de desembaraçar cabelos muito embolados. Aprendi técnicas, testei produtos, fui descobrindo maneiras menos dolorosas de soltar aqueles nós.
Mesmo assim, machucava.
O couro cabeludo dela doía.
Ela reclamava.
Mandava eu parar.
Dizia:
“Deixa assim mesmo. Não mexe mais.”
Mas eu continuava, fio por fio, tentando salvar não apenas o cabelo, mas talvez algo da dignidade que ela ainda reconhecia em si mesma.
Muitos fios arrebentavam no processo. Às vezes saíam tufos inteiros presos na escova ou nos dedos. E eu, discretamente, escondia aqueles cabelos no bolso para que ela não percebesse o quanto estava perdendo.
Eu tinha medo de entristecê-la.
Porque, para minha mãe, perder o cabelo parecia quase perder uma parte da própria alma.
Depois que conseguia desembaraçar tudo, eu soltava os fios novamente, deixava secar e até tirava fotos dela de costas para mostrar que o cabelo ainda estava bonito, comprido e preservado.
Ela gostava de ver.
Parecia aliviar o coração dela.
Isso aconteceu algumas vezes.
Mas a doença continuou avançando.
E chegou um momento em que já não era mais possível salvar aquele cabelo apenas com paciência, creme e cuidado.
Então aconteceu aquilo que durante toda a vida ela mais temeu.
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