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Mostrando postagens de junho, 2026

raios

Caminho por um campo aberto, um pasto verdejante que parece não ter fim. A relva toca meus tornozelos com suavidade, como se reconhecesse minha presença. À minha frente, uma colina se ergue em silêncio, e acima dela o céu começa a se transformar. Ainda é dia, mas o dia já não se sustenta inteiro. O sol, cansado, se inclina no horizonte, espalhando tons quentes que escorrem pela paisagem. Estou sozinho. E, ainda assim, não há solidão. Caminho sem pressa, como quem não precisa chegar. O vento passa leve, carregando um cheiro de terra úmida e algo que me escapa à memória, mas que me conforta. Aos poucos, a luz do dia vai cedendo espaço à noite que se aproxima sem ruído, sem anúncio. Apenas acontece. E então eu percebo. Primeiro, um ponto tímido de luz, quase imperceptível, surgindo do chão. Depois outro. E mais outro. Pequenos brilhos começam a despontar sob meus pés, como se a terra respirasse luz. São como vagalumes, mas não vêm do ar, vêm de baixo, da própria superfície que piso. Amare...

desdecho

E, talvez, seja por isso que eu volte. Não apenas para ver tudo outra vez, nem para confirmar se ainda está lá, mas para não deixar que esse lugar exista só em mim. Porque, por muito tempo, eu temi. Temi que ninguém visse. Temi que, ao verem, deixasse de ser meu. Temi que tudo aquilo se perdesse no instante em que fosse compartilhado. Mas não. Algumas coisas não se desfazem quando são divididas. Elas se confirmam. E é por isso que, sempre que a noite começa a cair, eu caminho de novo por aquela estrada. Levo comigo alguém que, de alguma forma, faz parte daquilo que eu sou. E espero. Espero o instante em que a escuridão se abre e a luz começa a nascer de dentro da terra. Não para provar que é real. Mas para que, por um momento, deixe de ser só um sonho meu.

outeos encontros

Assim que a escuridão caía sobre o chão, a luz acesa na janela da casa se tornava pequena. Quase insignificante diante do que surgia lá fora. Porque a noite não era apenas noite. Era uma noite acesa. Uma noite com sol. Os arbustos despertavam em fogo que não queimava, não consumia, apenas existia para iluminar. Como se sopros de dragões passassem por entre eles, espalhando vida em forma de luz. Nuvens de vagalumes se formavam no ar, misturadas a cores que lembravam néon, mas sem origem, sem fonte, sem explicação. E eu estava ali. Levando outros comigo. Pessoas que eu amava, pessoas que eu queria que vissem, que acreditassem, que sentissem. Porque aquilo, que por tanto tempo foi só meu, começava a se abrir. E, ainda assim, não deixava de ser estranho. Era como espalhar um fogo que não queima. Como oferecer um sol que não aquece. Como atravessar uma noite que se transforma em dia sem pedir licença. E, naquele instante, todos nós éramos alcançados por essa luz. Não para entender. Mas para...

bia

Começou em um arbusto, depois em outro. Uma luz fraca, quase nada. Uma fagulha tímida. Um sopro leve, como um vento sem força, que mal se percebia. Mas dentro de mim acendeu outra coisa. Uma certeza. Não era sobre provar que eu estava certo. Nem eu mesmo sabia se aquilo era verdade. Mas eu precisava que ela visse. Precisava que, pelo menos naquele pequeno movimento, naquele quase nada, existisse algo que dissesse: eu não inventei isso. O sol já tinha ido embora. A noite se firmava escura. E ali, sob os arbustos, só restavam pequenos pontos de luz, tão fracos que mal iluminavam o chão. Eu tentei disfarçar. Disse qualquer coisa, meio sem jeito: — Acho que hoje não… hoje não vai acontecer. Mas, sem que ela dissesse nada, eu entendi. No olhar dela não havia dúvida, nem cobrança. Se não acontecesse, tudo bem. E foi nesse instante que aconteceu. Como se o chão respirasse fundo, um vento subiu de baixo para cima. Não era brisa. Era um sopro cheio, vivo. Rodopiava como se tivesse corpo. Como s...

visita

Nos meus sonhos, aqueles que me acompanham desde que me entendo por gente, há sempre uma continuidade. Não são sonhos soltos. São caminhos que eu retorno, lugares que me reconhecem antes mesmo que eu os reconheça. Depois de atravessar o caminho de terra, naquele primeiro encontro em que vi os arbustos se acenderem — não como fogo comum, mas como uma luz viva, que rodopiava como vagalumes e não consumia — tudo começou a mudar. Passei a não estar mais sozinho. Comecei a encontrar, nesses mesmos sonhos, pessoas importantes da minha vida. E, de algum modo, eu sentia que precisava levá-las até lá. Como se aquele lugar, que até então era só meu, devesse ser mostrado. A tarde sempre começava a cair quando eu os conduzia pelo caminho. Eu ia explicando, quase em segredo, que aqueles arbustos, tão comuns à primeira vista, logo seriam tomados por algo que não queimava. Uma luz que era fogo e neve ao mesmo tempo. Flocos quentes, girando no ar, sem ferir. Cada vez era alguém diferente. Nunca os mes...

Sol noturno

Algumas vezes eu retorno a esse sonho. Ou talvez seja mais justo dizer que, em sonho, eu retorno a esse lugar. A primeira vez foi inesperada. Eu estava ali sem saber o que iria acontecer, caminhando por um campo tomado por pequenos arbustos, sob um fim de tarde que parecia comum. Mas quando a noite começou a se aproximar, tudo se transformou. Aqueles arbustos se incendiaram em uma nuvem de neon que não os consumia. Cada um carregava sua própria cor, e cada cor encontrava outra, se completava, se misturava, até que tudo se tornava um único brilho vivo, um fogo que não destruía, mas iluminava a noite por inteiro. Desde então, eu volto. Não sei quando nem por quê, mas em alguns sonhos eu me vejo novamente naquele mesmo lugar. A mesma colina, a mesma estrada de terra, os mesmos arbustos silenciosos esperando o tempo certo. E eu caminho por ali como quem já conhece cada detalhe, como quem retorna a um ponto marcado dentro de si. Não há pressa. Às vezes eu me sento à beira do caminho. Encont...

casinha

E a noite começava. Desta vez, não era da estrada que eu via. Eu estava abrigado, em silêncio, olhando através de uma janela. Havia uma distância sutil entre mim e o campo, como se eu ocupasse um lugar de contemplação, não de passagem. Foi assim que eu percebi. Lá fora, o mesmo fenômeno voltava a acontecer. Aquele fogo que não era fogo, aquela matéria luminosa que lembrava flocos de neve aquecidos, começou a envolver cada um dos arbustos. Um a um, eles se acendiam, tomados por uma presença viva, colorida, quase pulsante. E então eu compreendi, ainda que sem palavras: aquela noite não seria escura. Era mais uma noite de sol. Não um único sol, mas muitos. Pequenos sóis espalhados pelo campo, cada um com sua cor, sua intensidade, seu movimento. Sóis incandescentes que rodopiavam ao redor dos arbustos, dançando em um ritmo próprio, como se obedecessem a uma ordem invisível. E juntos, eles formavam algo maior. Um arco-íris vivo, incandescente, em constante movimento. Não queimava, não feria...

Vagalumes

Há um sonho que me visita mais de uma vez. Ele não chega com alarde, nem muda muito de forma. Pelo contrário, ele retorna quase idêntico, como se insistisse em ser visto com mais atenção a cada reencontro. Eu estou em uma colina. Um lugar alto, aberto, onde não há casa alguma, nem sinal de presença humana. Apenas uma estrada de terra corta o cenário, simples, crua, como se sempre tivesse estado ali. E sou eu quem caminha por ela, no centro, sem pressa, sem destino declarado. De cada lado da estrada, existem pequenos arbustos. Baixos, discretos, quase sem importância à primeira vista. Eles se espalham pelo terreno como pontos silenciosos de vida, ocupando o espaço com uma humildade que beira o esquecimento. Ainda é claro. Mas não por muito tempo. É exatamente nesse instante de transição — quando o dia começa a se despedir sem ainda ter ido embora — que algo começa a acontecer. A noite se aproxima, mas não como se espera. Ela não chega trazendo escuridão. Ela chega despertando. Um a um, ...