Caminho sem volta
Durante muito tempo pensei que a minha dor estivesse apenas na perda gradual da memória da minha mãe. Com o tempo, percebi que havia algo ainda mais profundo. O que me machucava não era somente vê-la esquecer o mundo, mas sentir que eu também estava perdendo o lugar que ocupava na vida dela.
Mesmo com toda a distância que sempre existiu entre nós, bastava saber que ela estava ali. Em algum lugar, havia alguém que se preocupava comigo. Talvez não conversássemos tanto. Talvez nunca tivéssemos construído a relação que eu gostaria. Ainda assim, eu era seu filho, e essa certeza me dava um porto silencioso. Um lugar de pertencimento que eu jamais havia percebido até começar a perdê-lo.
A demência provoca uma despedida diferente de todas as outras. A pessoa continua viva, respira, sorri em alguns momentos, mas a relação vai sendo apagada lentamente. Não é apenas ela que esquece. Quem permanece também vê parte da própria identidade desaparecer.
Foi nesse período que comecei a olhar para a minha vida com mais honestidade. Percebi que muitas das minhas relações eram circunstanciais. Os colegas de trabalho, as conversas de fim de expediente, as mesas do bar, os rostos conhecidos que fazem companhia por algumas horas. Tudo isso ameniza o silêncio, mas não o preenche. Quando a noite termina e a porta de casa se fecha, sobra apenas a sensação de que, talvez, eu não pertença verdadeiramente a lugar algum.
Durante algum tempo, acreditei que eu não era ninguém para ninguém. Hoje entendo que sentir isso não significa que seja verdade. Apenas revela o tamanho da falta que faz sermos reconhecidos por quem conhece a nossa história.
Sempre fui alguém que observa as pessoas. Escuto mais do que falo. Escrevo porque sinto demais. Tento espalhar gentileza, abraço forte, ofereço carinho com a esperança, muitas vezes silenciosa, de encontrar acolhimento. Talvez por isso as ausências me machuquem tanto. Quem oferece afeto acaba percebendo, com mais intensidade, quando ele não encontra onde repousar.
A doença da minha mãe retirou de mim a última certeza de pertencimento que eu ainda carregava. Descobri que a minha saudade não era apenas dela. Era da sensação de existir no olhar de alguém que conhecia a minha história desde o primeiro capítulo.
Essa é uma perda imensa. Uma perda que não acontece de uma vez, mas aos poucos, enquanto a memória vai se desfazendo e os vínculos vão ficando cada vez mais difíceis de alcançar.
Às vezes penso que o que mais dói não é ficar sozinho. É perceber que a última pessoa que guardava o meu lugar no mundo está, lentamente, perdendo o caminho de volta até mim.
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