Atos dos solitários

Ato 1
Uma tentativa solitária
de encontrar conforto
em pessoas solitárias,
que se sentem desconfortáveis
em esperar algum conforto,
mesmo sendo sincero e genuíno,
mesmo quando vem de pessoas que são igualmente solitárias.
Ato 2
E a Pequi?
Continua internada,
mas com danos neurológicos.
Não vai voltar.
Acho que eles tentam ao máximo
tirá-la do quadro crítico,
o que não ocorrerá.
O sacrifício…
não sei qual é o parâmetro usado
para essas decisões.
Ai, meu amor…
é difícil esse momento,
mas, com certeza, a vida tem o melhor
para ela e para você.
Fica bem.
Ato 3
Não quis me ver.
Não quer encontro.
Não quer nada.
Estou desde ontem chamando
para dar um abraço.
O abraço pretendido,
o abraço esperado.
Ato 4
Estou bem.
No que tem para hoje.
Está sendo bom.
Difícil, mas estou levando
da melhor forma possível.
Não tive coragem de ter coragem.
É uma decisão muito difícil.
Mas está tão calma, amorosa, tão bem…
e eu me sinto culpado
por não conseguir ser mais presente.
Vou levar isso tudo o quanto puder,
mas isso me traz sofrimento.
Ato 5
A primeira percepção
é sobre o olhar da criança sobre mim.
A segunda é sobre mamãe —
seu novo olhar sobre mim.
Coisas que vivenciei hoje.
— Que lindo, amigo…
E que bom que esse novo olhar
é de amor e ternura.
Ela, nesse momento da vida,
esqueceu da igreja, do preconceito…
e só lembra do amor,
mesmo sem saber ao certo quem eu sou.
De certa forma,
sempre foi o amor que prevaleceu.
Ato 6
Sabe quando tudo dá certo
sem você correr atrás?
As coisas apenas acontecem.
Falamos sobre solidão,
sobre estar bem na própria companhia.
Isso é bom.
Uma poesia leve,
gostosa de se ler,
compreender que nem tudo se resume
em erros ou acertos —
são apenas acontecimentos
que nos conduzem a diferentes lugares.
Ato 7
Está salvo, meu amigo.
Obrigado por tudo.
Estamos juntos.
Você é uma pessoa muito respeitosa e gentil.
Pode contar comigo.
Abençoados sejam você e sua família.
Você também.
Desculpa qualquer coisa.
Você também.
Foi um ótimo abraço, o seu.
Foi o primeiro…
e provavelmente o último.
O pai está aqui!
Chama!
Que só vem…
Ato 8
Estava cheio de erros…
Amigo… cruel, adorei.
Acho que foi feito para mim.
É sobre o olhar das crianças.
É sobre o novo olhar da minha mãe.
Sem barreiras…
Senti uma nostalgia.
São coisas que vivenciei hoje.
De certa forma, amor…
talvez eu também esteja te olhando
de outra forma.
Sim… você sempre é amor,
em intensidades diferentes.
Estou há um tempo chorando,
mas, de certa forma, é um choro bom.
Sempre amor.
Se é que existe.
Então quer falar a respeito?
Choro bom… ou não?
Estou aqui.
Foi um bom choro,
pois refleti sobre o amor,
que de dor se transformou em calmaria.
Não vamos superfaturar o amor.
Bem isso, meu amigo…
sem romantizar,
apenas contemplar
o que ele oferece hoje.
Perfeito…
vamos receber e viver o presente,
o simples.
Isso é genuíno e certo.
Você é necessário demais na minha vida.
Reconheço seu carinho. Ele é evidente.
Fique bem sempre.
No geral, estou bem,
mas, nos momentos de fragilidade, escrevo.
Às vezes parece que sou apenas solidão,
mas é só um momento de fraqueza
que não tenho vergonha de compartilhar.
Amigo, cada um tem sua válvula de escape…
você escreve, eu faço crochê e ataco a comida.
É assim que a gente vai vivendo:
escrevendo, crochetando
e atacando…
até mesmo a comida.
Ato 9
E coloriu nossos caminhos.
Agora, encontram-se floridos.
O senhor está inspirado hoje.
Foram dois belos textos.
Ato 10
Recebi tanto amor das crianças
que me cercam hoje…
E tanto amor da mamãe,
que nem se lembra quem eu sou.
Chorei agora.
Ah, eu via o que meu pai e minhas tias passaram
quando a vó teve Alzheimer.
Era triste ela não reconhecer ninguém.
Chora não…
porque eu estou chorona essa semana,
daí eu choro junto.
Tô chorando…
(risos abafados pelas lágrimas).
Mas é choro bom.
O meu foi de finalização.
Logo passa.
Daqueles que são necessários.
Tem horas que é preciso.
Sim…
Pra finalizar a noite… amo você.
Vou deitar e ver se o sono vem. Beijos.
Tenha uma ótima noite.
Precisamos nos ver.
Precisamos mesmo.
Mas não podemos ficar só no “precisamos”.
Temos que nos ver.
Dar um abração,
jogar conversa fora.
Agora dei uma risada…
estar com você me desperta sorrisos.
É isso que eu amo em você.
Ato 11
Estou de passagem…
Passa por aqui.
Era trote…
mas passarei.
Ato 12
E o nosso encontro?
Ocorrerá o encontro?
Que encontro?
O nosso.
Para o brinde,
para o abraço…
Não ocorrerá o encontro.
Não houve o encontro.
Eu esperava o encontro,
desejava esse encontro,
e, depois de tantos encontros,
não houve o costumeiro encontro.
Ato 13
Vou descansar,
solitário,
com a sensação
de que tive inúmeros encontros —
sejam eles solitários ou não,
de certa forma,
houve o encontro.

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