Nós e nossas mães
Nós e nossas mães
Hoje tive que cortar o cabelo da minha mãe.
Há uns trinta anos sem cortar, quase chegava ao chão... mas ela fez um ninho, deu tanto nó que acabou destruindo o próprio cabelo.
Não eram só fios. Era tempo guardado ali.
Era algo tão precioso para ela. Algo que parecia ter um sentido divino, mas já estava insustentável.
Tentei o quanto pude desembaraçar, mas não teve jeito.
Houve um momento em que ela mesma pediu:
— Por favor, pode cortar.
Ainda tentei mais um pouco... nada.
Perguntei se ela se importava se o cabelo ficasse curto.
Ela apenas disse:
— Os antigos diziam que era bom ter cabelo comprido. Nenhuma mulher cortava...
Nem mencionou religião.
A tesoura pesava mais do que devia na minha mão.
Parecia que eu estava cortando mais do que cabelo.
Com dor no coração, retirei aquele emaranhado de fios.
Ela apenas disse:
— Que alívio.
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