Nós

Nós e nossas mães
Hoje tive que cortar o cabelo da minha mãe.
Fazia uns trinta anos que ela não cortava. O cabelo já quase tocava o chão. Era comprido, pesado, carregado de tempo. Mas, aos poucos, foi se transformando em um ninho. Deu tanto nó, tanto embaraço, que já não era mais possível cuidar. O que antes era zelo virou sofrimento.
Não eram só fios. Era uma história inteira presa ali.
Ela sempre foi muito cuidadosa com os cabelos. Tinha orgulho do cabelo escuro e, com quase oitenta anos, ainda sem fios brancos.
Quando jovem, sempre usou os cabelos longos. Havia uma franjinha que nunca faltava, leve, bem despontada — como um detalhe dela mesma.
Depois que se converteu à religião cristã, nunca mais pôs a tesoura no cabelo. Tinha a intenção de nunca tirar sequer uma ponta. Aquilo, para ela, era mais do que costume — era santidade.
Mas a demência que a acometeu não permitiu manter esse olhar de cuidado. Quando me dei conta, o cabelo estava todo danificado, como se um nó tivesse sido dado de dentro para fora — e já não havia como desatar.
Sentei ao lado dela e tentei, com paciência, desfazer os nós. Insisti como quem tenta salvar alguma coisa que já sabe que está perdida.
Não teve jeito.
Depois de um tempo, em um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra, ela mesma pediu:
— Por favor, pode cortar.
Ainda tentei mais um pouco. Talvez por ela, talvez por mim. Mas não havia mais o que fazer.
Perguntei se ela se importava se o cabelo ficasse curto.
Ela respondeu com calma:
— Os antigos diziam que era bom ter cabelo comprido. Nenhuma mulher cortava...
E ficou nisso.
Não falou de religião. Não explicou nada. Continuou com seu olhar distante.
Peguei a tesoura. Ela parecia mais pesada do que deveria. Naquele momento, não era só cabelo.
Hoje, eu tirei o que, para ela, representava santidade.
Cortei. No início tive dificuldade — havia partes em que nem a tesoura conseguia entrar. Mas, aos poucos, os nós foram se rompendo, os fios foram cedendo, um a um. Deixou de ser resistência. O que antes era tão importante caiu sobre o chão.
Com dor no coração, terminei.
Ela passou a mão na cabeça e disse:
— Que alívio.
E, no meio de toda aquela insanidade, não houve nela o peso da culpa.
Apenas em mim — por entender que, em outro momento da vida, aquilo teria sido precioso… e imperdoável.
Era santidade.
Amanhã vou ter que levá-la à cabeleireira. O que fiz não foi profissional.
Mas, na verdade, não é isso que pesa.
É a família. Os que professam a mesma fé. Que me verão como um desviado, que não preservou nem respeitou quem me criou.
Vão dizer que traí a fé dela.
Mas quem cuida sou eu.
Quem vê de perto sou eu.
Eles não veem os nós.
Não sentem o peso.
Só carregam ideias.
E não fazem ideia do peso que tirei dos ombros da minha mãe — e do que, agora, carrego nos meus.

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