E o mais estranho em tudo isso é perceber que, na verdade, eu já vivia sozinho há muitos anos.
Faz muito tempo que eu não morava mais com minha mãe. Nossa convivência já havia sido interrompida pela vida, pela distância, pelos conflitos e pelo tempo. Cada um passou a existir dentro da própria rotina, da própria casa, dos próprios silêncios.
Mas, mesmo assim, existia uma espécie de presença invisível.
Eu sabia que ela estava lá.
Na casa dela.
Na cidade dela.
Vivendo a vida dela.
Pensando em mim de algum jeito.
Mesmo distante, existia ainda um lugar no mundo onde minha mãe permanecia inteira. E talvez isso me sustentasse mais do que eu percebia.
Porque agora tudo parece invertido.
Hoje ela está fisicamente mais próxima de mim do que esteve durante muitos anos. E, ainda assim, nunca esteve tão distante.
A demência criou um afastamento que nenhuma estrada conseguiu criar antes.
Às vezes olho para ela e percebo apenas fragmentos da mulher que conheci. Pequenos lampejos surgem de vez em quando no olhar, em alguma frase, num gesto rápido, numa lembrança inesperada. Mas logo desaparecem outra vez.
E talvez seja isso que torna a solidão tão profunda.
Porque antes eu tinha distância, mas ainda existia presença.
Agora tenho presença física, mas ausência emocional.
É estranho admitir isso, mas acho que eu não me sentia tão sozinho quando sabia que minha mãe ainda existia plenamente em algum lugar do mundo. Quando eu podia imaginar ela acordando cedo, cuidando da casa, penteando o cabelo, indo ao mercado, orando, vivendo suas manias, reclamando da vida ou falando de Deus.
Ela estava lá.
Inteira.
Agora, às vezes, sinto como se estivesse convivendo apenas com partes do que ela um dia foi.
E talvez o ser humano não esteja preparado para esse tipo de despedida lenta, onde a pessoa vai desaparecendo aos poucos diante dos nossos olhos, enquanto o corpo continua ali, respirando, ocupando espaço e tentando existir.

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