Madrugada
Acordei de madrugada mais uma vez. Isso tem acontecido com frequência ultimamente. Abro os olhos e, por alguns segundos, tenho aquela sensação automática de que minha mãe está lá embaixo, no quarto dela. Fico quase esperando ouvir a voz dela me chamando, perguntando alguma coisa, gritando meu nome ou andando pela casa durante a madrugada, como tantas vezes aconteceu nos últimos tempos.
Mas logo a realidade volta.
Minha mãe não está aqui.
Ela está na clínica.
Dormindo em um quarto que não é dela, dividindo espaço com pessoas que eu nem conheço. Embora eu tenha uma boa impressão do lugar, embora eu saiba racionalmente que talvez ela esteja sendo bem cuidada, existe uma parte de mim que nunca consegue descansar completamente.
Fico imaginando como ela dorme.
Se sente medo.
Se chama por mim.
Se sabe onde está.
Se olha ao redor procurando coisas familiares e não encontra nada.
Às vezes tento imaginar quem está dormindo ao lado dela naquele quarto compartilhado. E essa ideia me causa uma tristeza difícil de explicar. Porque minha mãe sempre foi tão ligada às coisas dela, ao jeito dela, ao espaço dela, ao cabelo dela, às roupas dela, à rotina dela. E agora vive num lugar onde tudo parece provisório.
Então vem a culpa.
Uma culpa estranha.
Silenciosa.
Difícil até de organizar dentro da cabeça.
E junto dela aparece outra sensação ainda mais difícil de admitir: a solidão.
Tenho percebido o quanto me tornei sozinho.
E o mais estranho é que essa solidão começou antes mesmo da minha mãe sair de casa. Porque, embora ela estivesse fisicamente perto de mim, já existia entre nós uma distância imensa criada pela demência.
A mulher que vivia comigo já não conseguia mais me enxergar completamente como filho. Em muitos momentos nem sabia quem eu era. E eu também, aos poucos, fui perdendo a sensação de ainda ter minha mãe comigo de verdade.
É uma espécie de luto confuso.
A pessoa continua viva.
Respira.
Anda.
Fala algumas coisas.
Mas, ao mesmo tempo, partes dela já não estão mais aqui.
E talvez seja isso que mais machuca.
Hoje, nesta madrugada silenciosa, me peguei pensando que talvez eu não tenha mais ninguém no mundo. Sei que parece exagero. Sei que provavelmente amanhã cedo o dia começa, o trabalho ocupa a cabeça, o telefone toca, as obrigações aparecem e tudo isso perde força.
Mas agora, enquanto a madrugada ainda está escura e o silêncio da casa parece maior do que deveria, essa sensação existe de maneira muito real.
Um vazio enorme.
Como se alguma coisa dentro de mim também estivesse ficando ausente aos poucos.
E às vezes essa dor é difícil de suportar.
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