Jardim
A gente vai envelhecendo e vai tendo a impressão de que está morrendo aos poucos.
Às vezes dá a sensação de que somos uma carcaça viva, carregando uma alma já cansada, quase apagada.
Eu sei que é forte dizer isso.
Mas o peso da vida, o dia a dia, vão deixando a gente cada vez menos empolgado com as coisas.
Talvez seja uma fase.
Mas tem sido uma fase que está durando tempo demais.
Hoje eu olhei o meu jardim, as flores que eu cultivo.
E, às vezes, nem tenho vontade de molhar.
O que vem é um impulso estranho, quase bruto:
vontade de quebrar tudo, cortar cada galho, arrancar cada raiz, deixar de cultivar.
Porque, em alguns momentos, dá vontade de que nada mais dependa de mim.
Que nenhum ser vivo precise de mim para existir.
E às vezes o simples fato de ter que molhar uma planta já me cansa.
Antes não era assim.
Eu olhava para as minhas plantas, esperava o botão brotar, esperava a flor nascer,
e festejava cada pequena vida que surgia.
Hoje… talvez o meu coração esteja cansado.
E eu já não consigo encontrar alegria em cuidar das coisas simples,
das coisas que antes me alegravam.
Talvez a solidão tenha chegado sem me avisar.
E, quando eu percebi, ela já estava ali.
Isso me preocupa.
Porque eu não sou tão velho assim.
Mas, ainda assim, deixei que a vida me levasse a um ponto
em que até o mínimo de cuidado já parece demais.
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