True Colors
Eu sempre fui uma pessoa que guarda as pessoas através da música. Não sei exatamente quando isso começou, mas sei reconhecer quando acontece. Basta uma canção tocar e, sem esforço nenhum, alguém reaparece.
Com True Colors é assim. Não é só a música. É a Silvinha.
Lembro do dia em que ela apareceu com o disco. Veio com aquele cuidado de quem carrega algo importante, quase sagrado. O vinil ainda estava envolto no plástico, intacto.
— Olha, Cláudio… — ela disse, com um sorriso que não cabia no rosto — olha o disco que eu ganhei.
Ela me chamava de Cláudio, e só ela me chamava assim daquele jeito, puxando um pouco a palavra, como se fosse um apelido disfarçado.
Eu me aproximei, curioso. Ela segurava o álbum com as duas mãos, mostrando a capa. Aquele monte de cores, a imagem da cantora refletida como num espelho d’água… tudo parecia diferente de qualquer outra coisa que a gente já tinha visto.
Ela começou a tirar o plástico devagar, com cuidado para não rasgar errado. O som do plástico cedendo ainda me vem à memória, fino, quase cerimonioso. Era como abrir alguma coisa que precisava ser respeitada.
— Vamos ouvir — ela disse.
Colocamos o disco para tocar. O chiado inicial da agulha encostando no vinil veio antes da música, como sempre. E então começou.
A gente não sabia inglês. Não entendia uma palavra do que estava sendo cantado. Mesmo assim, aquilo não fazia falta. A música chegava inteira, sem precisar de tradução.
— O que será que ela está falando? — eu perguntei, mais curioso do que incomodado.
A Silvinha deu de ombros, ainda olhando para o aparelho, como se a resposta pudesse sair dali.
— Não sei… mas é bonita, né?
E era. Bonita de um jeito que a gente sentia, mesmo sem entender. A melodia, a voz, tudo parecia dizer alguma coisa importante, mesmo que a gente não conseguisse colocar em palavras.
Ficamos ali, ouvindo. Sem pressa. Sem precisar entender.
Hoje, quando essa música toca, não é a letra que me vem primeiro. Nem a cantora, nem a época.
É a Silvinha.
Ela em pé, na minha frente, com aquele sorriso aberto, dizendo:
— Olha, Cláudio…
E naquele instante, tudo volta. Como se nunca tivesse ido embora.
Comentários
Postar um comentário