bia
Começou em um arbusto, depois em outro.
Uma luz fraca, quase nada. Uma fagulha tímida. Um sopro leve, como um vento sem força, que mal se percebia.
Mas dentro de mim acendeu outra coisa.
Uma certeza.
Não era sobre provar que eu estava certo. Nem eu mesmo sabia se aquilo era verdade. Mas eu precisava que ela visse. Precisava que, pelo menos naquele pequeno movimento, naquele quase nada, existisse algo que dissesse: eu não inventei isso.
O sol já tinha ido embora. A noite se firmava escura. E ali, sob os arbustos, só restavam pequenos pontos de luz, tão fracos que mal iluminavam o chão.
Eu tentei disfarçar.
Disse qualquer coisa, meio sem jeito: — Acho que hoje não… hoje não vai acontecer.
Mas, sem que ela dissesse nada, eu entendi. No olhar dela não havia dúvida, nem cobrança. Se não acontecesse, tudo bem.
E foi nesse instante que aconteceu.
Como se o chão respirasse fundo, um vento subiu de baixo para cima. Não era brisa. Era um sopro cheio, vivo. Rodopiava como se tivesse corpo. Como se fossem dragões invisíveis girando entre os arbustos.
As fagulhas reagiram.
Uma a uma, começaram a crescer, a se espalhar, a arder sem consumir. E então todos os arbustos, de baixo para cima, se acenderam outra vez.
Meu corpo inteiro respondeu antes de qualquer pensamento. Meus olhos vibraram. O sorriso veio sem pedir licença.
Quando olhei para ela, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Ela não disse muito. Nem precisava. Mas agradeceu. Agradeceu por estar ali, dentro de algo que até então era só meu, e que eu decidi dividir.
A noite deixou de ser noite.
Tudo se acendeu. A escuridão se abriu em cores, em movimentos, em formas de luz que não cabiam em explicação. Era como se vários sóis nascessem ao mesmo tempo, sem ferir, sem queimar.
A gente se abraçou.
E chorou.
E, por um instante, pareceu que aquela luz nos atravessava, como se também fôssemos feitos dela.
Até que tudo se apagou.
E eu acordei.
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