Vagalumes

Há um sonho que me visita mais de uma vez. Ele não chega com alarde, nem muda muito de forma. Pelo contrário, ele retorna quase idêntico, como se insistisse em ser visto com mais atenção a cada reencontro.
Eu estou em uma colina. Um lugar alto, aberto, onde não há casa alguma, nem sinal de presença humana. Apenas uma estrada de terra corta o cenário, simples, crua, como se sempre tivesse estado ali. E sou eu quem caminha por ela, no centro, sem pressa, sem destino declarado.
De cada lado da estrada, existem pequenos arbustos. Baixos, discretos, quase sem importância à primeira vista. Eles se espalham pelo terreno como pontos silenciosos de vida, ocupando o espaço com uma humildade que beira o esquecimento.
Ainda é claro. Mas não por muito tempo.
É exatamente nesse instante de transição — quando o dia começa a se despedir sem ainda ter ido embora — que algo começa a acontecer.
A noite se aproxima, mas não como se espera. Ela não chega trazendo escuridão. Ela chega despertando.
Um a um, aqueles pequenos arbustos começam a se transformar. Ao redor de cada um deles surge uma luminescência viva, como se incontáveis vagalumes se reunissem em um movimento circular, formando redemoinhos de luz. Não são cores isoladas. Cada arbusto carrega sua própria vibração, sua própria intensidade, e juntos eles constroem uma paleta impossível de nomear.
Não é apenas cor. É presença.
E então, como se obedecesse a um tempo exato, quase sagrado, tudo se intensifica. São seis horas da tarde. Um horário preciso, que não varia, que marca o início de algo que não sei explicar se pertence à natureza ou a algo além dela.
O que surge não é fogo, mas lembra o fogo. Não queima, não consome, não destrói. Apenas acende.
Línguas luminosas se erguem como se fossem chamas vivas. Formas que lembram dragões atravessam o ar em movimentos fluidos. Vagalumes se multiplicam em uma dança contínua. Há uma espécie de poeira no ar, mas não é opaca. É feita de luz, de neon incandescente, como partículas que brilham sem se desfazer.
Tudo vibra.
E aquilo que deveria ser noite — escura, silenciosa — se transforma em um campo infinito de claridade viva. Um espetáculo que não explode nem desaparece, mas se sustenta, se reúne, se organiza em uma harmonia que desafia qualquer lógica comum.
É como observar fagulhas de uma fogueira que nunca se apagam. Como flocos de neve aquecidos, que não derretem, mas brilham. Como se o mundo, por alguns instantes, revelasse uma camada escondida, uma dimensão que sempre esteve ali, aguardando o momento exato para se mostrar.
E eu estou ali.
No meio da estrada.
Não tocando, não interferindo, apenas testemunhando.
Como se aquele acontecimento não precisasse de mim para existir, mas ainda assim escolhesse acontecer diante de mim.

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