visita

Nos meus sonhos, aqueles que me acompanham desde que me entendo por gente, há sempre uma continuidade. Não são sonhos soltos. São caminhos que eu retorno, lugares que me reconhecem antes mesmo que eu os reconheça.
Depois de atravessar o caminho de terra, naquele primeiro encontro em que vi os arbustos se acenderem — não como fogo comum, mas como uma luz viva, que rodopiava como vagalumes e não consumia — tudo começou a mudar.
Passei a não estar mais sozinho.
Comecei a encontrar, nesses mesmos sonhos, pessoas importantes da minha vida. E, de algum modo, eu sentia que precisava levá-las até lá. Como se aquele lugar, que até então era só meu, devesse ser mostrado.
A tarde sempre começava a cair quando eu os conduzia pelo caminho. Eu ia explicando, quase em segredo, que aqueles arbustos, tão comuns à primeira vista, logo seriam tomados por algo que não queimava. Uma luz que era fogo e neve ao mesmo tempo. Flocos quentes, girando no ar, sem ferir.
Cada vez era alguém diferente. Nunca os mesmos.
Eu os levava até o casebre, fazia com que entrassem, apontava a janela. Dizia: “espera... daqui a pouco você vai ver.”
Mas, enquanto esperava, algo em mim se apertava.
Porque, até então, era só eu quem via.
E, pela primeira vez, me ocorreu que talvez aquilo não devesse ser compartilhado. Que talvez aquele espetáculo — aquele fenômeno estranho, belo e impossível — existisse apenas para mim.
E se eles não vissem?
Ou pior.
E se vissem?

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