raios
Caminho por um campo aberto, um pasto verdejante que parece não ter fim. A relva toca meus tornozelos com suavidade, como se reconhecesse minha presença. À minha frente, uma colina se ergue em silêncio, e acima dela o céu começa a se transformar. Ainda é dia, mas o dia já não se sustenta inteiro. O sol, cansado, se inclina no horizonte, espalhando tons quentes que escorrem pela paisagem.
Estou sozinho. E, ainda assim, não há solidão.
Caminho sem pressa, como quem não precisa chegar. O vento passa leve, carregando um cheiro de terra úmida e algo que me escapa à memória, mas que me conforta. Aos poucos, a luz do dia vai cedendo espaço à noite que se aproxima sem ruído, sem anúncio. Apenas acontece.
E então eu percebo.
Primeiro, um ponto tímido de luz, quase imperceptível, surgindo do chão. Depois outro. E mais outro. Pequenos brilhos começam a despontar sob meus pés, como se a terra respirasse luz. São como vagalumes, mas não vêm do ar, vêm de baixo, da própria superfície que piso. Amarelados, suaves, giram ao meu redor, se multiplicam, me cercam.
Não aquecem. Não esfriam. Apenas iluminam.
Paro de andar. Não por medo, mas por respeito. Há algo ali que não me pertence, e ainda assim me envolve. As luzes aumentam em número, dançam ao meu redor, sobem pelas minhas pernas como uma corrente silenciosa. Sinto meu corpo mais leve, como se algo estivesse sendo retirado de mim, ou talvez devolvido.
Meus pés já não encontram o chão.
No início, é sutil. Um afastamento quase imperceptível. Depois, inevitável. Eu me desprendo. Não há esforço, não há susto. Apenas um consentimento silencioso. Sou erguido por aquela poeira de luz que agora me envolve por inteiro. Um redemoinho calmo, vivo, pulsante.
E eu subo.
A noite se instala de vez, profunda, vasta. E quanto mais escura ela se torna, mais intenso é o brilho que me carrega. Sou uma silhueta envolta em centelhas, um corpo suspenso em um céu que já não tem limites definidos.
O vento me encontra lá em cima.
Ele não me empurra, não me arrasta. Ele me conduz. E eu vou.
Passo sobre colinas que se desenham como sombras suaves. Sobre rios que refletem fragmentos de lua ainda nascente. Sobre mares escuros, extensos, que respiram em silêncio. Florestas passam abaixo de mim como manchas densas, cheias de vida oculta. Montanhas surgem e desaparecem, vales se abrem como segredos que não me pertencem.
E eu sigo.
Não sei para onde. E, pela primeira vez, isso não importa.
Há um momento, porém, em que algo muda.
A força que me sustenta começa a se desfazer. Não de forma brusca, mas como algo que cumpre seu tempo. As luzes ao meu redor perdem intensidade, se soltam, deixam de girar com a mesma firmeza. Sinto o início de uma queda, mas não há medo nela.
Porque, ao cair, eu percebo.
As luzes não desaparecem.
Elas descem.
Desprendem-se de mim e seguem seu próprio caminho, como se agora tivessem outro destino. Abaixo, muito abaixo, vejo pessoas. Pequenas à distância, mas nítidas em presença. Algumas caminham, outras estão paradas, outras parecem apenas existir sob o peso de seus próprios dias.
E as luzes vão até elas.
Caem como uma chuva lenta, delicada. Como flocos de neve que não gelam, mas iluminam. Cada centelha encontra um corpo, um rosto, um gesto. E ao tocar, algo acontece.
Eu vejo.
Mesmo de longe, eu vejo.
Há quem levante a cabeça. Há quem feche os olhos. Há quem sorria sem entender por quê. Há quem apenas respire diferente, como se algo dentro tivesse sido reorganizado.
E eu continuo descendo, enquanto aquilo que me elevou se reparte entre tantos.
A noite segue longa, profunda, mas já não é a mesma. Há pontos de luz espalhados por ela, pequenos focos que resistem à escuridão. E eu, agora mais próximo da terra, sinto que já não carrego nada.
Ou talvez carregue de outro jeito.
No horizonte, uma mudança quase imperceptível começa a surgir. Uma linha tênue, um rompimento na escuridão. O arrebol anuncia o que vem antes de qualquer som: o nascimento de um novo dia.
E o sol retorna.
Seus primeiros raios tocam o mundo com cuidado, como se não quisessem interromper o que ainda termina. A luz que antes me envolvia já não existe como antes. Ela se dissolve, se mistura com a claridade que cresce.
Eu desço.
Sem pressa. Sem resistência.
E quando meus pés finalmente encontram o chão, há um silêncio diferente ali. Não o silêncio da ausência, mas o silêncio de algo que aconteceu por inteiro.
Respiro fundo.
O campo ainda está ali. A colina ainda se ergue à minha frente. O vento ainda passa. Tudo parece igual, como se nada tivesse sido alterado.
Mas há algo.
Algo que não se vê, mas permanece.
Talvez eu não tenha sido levado para longe. Talvez nunca tenha saído daqui. Talvez o que aconteceu não tenha sido uma viagem, mas um atravessamento.
Porque agora, ao olhar o horizonte iluminado, eu entendo sem precisar nomear:
aquilo que me elevou não era para me manter no alto.
Era para passar por mim.
E enquanto o dia nasce por completo, sigo caminhando, com a estranha e serena sensação de que, em algum lugar, mesmo sem saber quem, alguém amanheceu um pouco mais leve… por causa da luz que um dia me tocou.
Comentários
Postar um comentário