Sol noturno

Algumas vezes eu retorno a esse sonho. Ou talvez seja mais justo dizer que, em sonho, eu retorno a esse lugar.
A primeira vez foi inesperada. Eu estava ali sem saber o que iria acontecer, caminhando por um campo tomado por pequenos arbustos, sob um fim de tarde que parecia comum. Mas quando a noite começou a se aproximar, tudo se transformou. Aqueles arbustos se incendiaram em uma nuvem de neon que não os consumia. Cada um carregava sua própria cor, e cada cor encontrava outra, se completava, se misturava, até que tudo se tornava um único brilho vivo, um fogo que não destruía, mas iluminava a noite por inteiro.
Desde então, eu volto.
Não sei quando nem por quê, mas em alguns sonhos eu me vejo novamente naquele mesmo lugar. A mesma colina, a mesma estrada de terra, os mesmos arbustos silenciosos esperando o tempo certo. E eu caminho por ali como quem já conhece cada detalhe, como quem retorna a um ponto marcado dentro de si.
Não há pressa.
Às vezes eu me sento à beira do caminho. Encontro uma pedra, um pedaço de terra mais firme, e fico ali. Apenas esperando. Há em mim uma certeza tranquila, quase absoluta, de que aquilo vai acontecer de novo. Como se o tempo naquele lugar obedecesse a uma ordem própria, que não falha.
E então acontece.
A noite começa a chegar, e junto com ela, o despertar. A luz retorna, os arbustos se acendem, e tudo ganha vida outra vez. E mesmo já tendo visto antes, mesmo sabendo o que está por vir, eu me surpreendo.
Sempre.
A emoção é a mesma da primeira vez. Não se desgasta, não se acostuma. Porque aquilo não parece repetição. Parece revelação. Como se, a cada retorno, eu estivesse diante de uma nova manifestação de algo maior.
Não sei dizer se é um fenômeno da natureza, se é um encontro espiritual, se é a linguagem dos vagalumes, o sopro de um dragão invisível, ou um gesto silencioso de Deus.
Só sei que acontece.
E que, quando acontece, eu estou lá para ver.

Comentários