Melancolia

Sempre fui uma pessoa melancólica.

Transformava o amor em dor. Alimentava ressentimentos como quem precisava deles para continuar vivendo.

Na juventude, colocava músicas para chorar. Achava que, quanto mais o coração doía, mais vivo eu estava. Confundia sofrimento com intensidade.

Me acostumei com a dor. Fiz do lamento um abrigo.

Nunca deixei ninguém chegar perto o bastante. Nunca me entreguei por inteiro. Ergui barreiras, sabotei relacionamentos e, sempre que a felicidade se aproximava, encontrava um jeito de afastá-la.

Feri pessoas. Só depois percebi que também vivia ferido.

O tempo passou. A dor se aquietou. Encontrei paz. Mas, junto dela, veio uma vida sem sabor.

Agora a dor voltou.

Só que ela já não é fruto da minha melancolia. É uma dor de verdade.

E, pela primeira vez, tenho medo de não suportá-la.

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