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Crenças

E a gente se surpreende quando percebe que, mesmo os dias repetidos, são todos muito diferentes. Que aquela velha crença de que nada hoje surpreende apenas me faz notar que tudo era inconsequente, mesmo na hora de acordar. Embora fosse de repente, acontecia lentamente, e eu não conseguia acompanhar. Pois a velocidade com que me encontrava não me permitia descansar; só me fazia indiferente ao que estava ao meu redor. Não compreendia o presente, o que o dia tinha para oferecer. Apenas via a semente, não via nada germinar. Mantinha-me na mesma posição em que ainda me encontro. Não sei mudar. Isso me deixa quase louco, não consigo decifrar…

Fardo

Sabe quando meu amor floresce? Quando estou levemente embriagado. Enfim percebo que as minhas palavras, que eram tão atormentadas, se amolecem. Eu me derreto e percebo que uma simples banana se transforma em uma canção de amor, pois reconheço cada fragilidade. Eu percebo que toda hostilidade se transformou em algo totalmente disperso, totalmente entregue ao acaso, aquilo que não se reconhece. Apenas vive um momento, espera o nada, pois não há mais nada a ser esperado. Porque o hoje se mistura com o passado, não se assemelha ao futuro, porque nada é planejado. Há apenas resquícios de histórias que não sobrevivem naquele lapso de memória que apenas surge, que brilha e se apaga com facilidade. Toda a fragilidade em que tenho de lembrar, ignorar, planejar, nem que seja somente na hora do alimento diário, aquela fórmula mágica que me faz descansar e redistribuir meu pensamento, meu sentimento em algo que já se diluiu. Não se constrói, apenas se completa no esquecimento e na falta de esperan...

Em cena

Às vezes me pergunto o quanto sou solitário e quais são as fugas que uso para preencher o vazio. Encho a mente com promessas, tentando manter estável a sanidade. Pego o carro, viro a esquina, ando na contramão, sempre em busca de uma emoção, mas ela não me atinge. Veja bem: o desejo de permanecer me restringe. Eu me distraio com distrações levianas. Comparo-me com as pessoas e quase sempre percebo que não sou equiparável. Às vezes me sinto maior, outras vezes menor, mas sei que, no fundo, somos todos iguais. Tento manter o equilíbrio, tento fazer tudo certo, mas sempre me decepciono com as escolhas que faço, com os caminhos que percorro e com o destino que traço. Eu sempre me traio. Ando no escuro. Ouço meus próprios passos me seguirem, perseguindo aquilo que sou, porque já não aceito nem compreender, nem mesmo saber o que ainda posso fazer para me satisfazer e me sentir um tanto melhor. Já tentei ser poeta. Já tentei ser atleta. Não consegui. Já escrevi uma música, já pensei em fazer ...

Vestígios

Tem coisas que não nos cabem mais, não se encaixam, ficaram para trás. Há outras que nos perseguem, invadem a alma, tiram a calma, nos desconcertam e nos fazem tocar o infinito. Aquilo que está tão distante, tão difícil de entender, mas que faz parte, faz falta, mesmo sem reconhecermos toda a sua intensidade. Eu mesmo já não me reconheço. Vejo apenas vestígios de realidades que não sei mais nomear. Guardo algumas sensações. E, vez ou outra, retorno a elas para não deixar morrer o pouco de compaixão que ainda carrego no peito. Algo que preciso cultivar para que não se perca, para que não deixe de ser memória. Aquilo que devo cultivar para nunca esquecer.

Du

Não sei se, na correria da vida, as pessoas ainda têm tempo para essas bobagens simples, como parar um instante para pensar no passado. Eu, de vez em quando — quase sempre — penso muito nas coisas que ficaram para trás. Hoje eu estava distraído em meus pensamentos quando tocou uma música. E, sem pedir licença, você veio nitidamente à minha cabeça. Sabe aquelas lembranças boas, cheias de carinho e amor, com gosto de amizade verdadeira? Daquelas que a gente quase nunca mais encontra e que, possivelmente, nunca mais esbarram em nosso caminho? Foi exatamente isso que me aconteceu. Tive até que parar o carro que dirigia para escrever sobre você. Porque há um carinho que precisa ser dito. Um afeto que existe em mim agora e que sei, com certeza, nunca morrerá. Tem coisas. Tem pessoas. Tem momentos que permanecem vivos em nossa memória — e dos quais faço questão de lembrar, de guardar e de falar. Por isso falo, ainda que minha voz quase não tenha som. Ela se resume em palavras escritas, que dã...

Caminhos que escolhi

Quando decidi mudar meus caminhos, feri pessoas que eu amava. Pessoas que estavam próximas se sentiram profundamente traídas, pois pensavam que sabiam como cuidar de mim. E isso muito me doeu. Mas, pela primeira vez, eu deixei de me machucar. Percebi que vivia dentro de uma prisão construída para mim, mas à qual eu nunca pertenci de verdade. Demorei para enxergar. Demorei para ter coragem. Porque não foi uma decisão fácil. Levou tempo para me desvencilhar das garras que me prendiam, da culpa que me martelava a cada pensamento que não cabia no que esperavam de mim. Mas quando deixei de precisar da aprovação dos outros e passei a depender apenas da minha própria consciência, algo em mim mudou profundamente. Hoje sou mais inteiro. Tenho paz. Sou mais feliz. Não porque foi fácil, mas porque foi verdadeiro. Tudo é um processo demorado e doloroso, mas depois que o tempo passa, a gente percebe o quanto estamos melhores e o quanto tardamos para tomar decisões que mudam nossas vidas por complet...

Compasso da madrugada

Hoje acordei com medo, a noite mal estava na metade, e eu me encontrava desperto. O aperto no peito me fez refletir sobre meu espaço no mundo, sobre o porquê de existir. Fiquei atento a cada batida do meu coração, que hoje não estava acelerado, mas batendo em um compasso que eu conseguia seguir. Conduzido por seu ritmo,  resolvi me encher de música e poesia, para acalmar a tristeza e enfrentar o novo dia que se ergueria e que eu teria de contemplar. O dia clareou. O sono não voltou, e eu me levantei. É sempre bom reconhecer essa força que, mesmo quando se esconde, ainda insiste em me manter de pé.

Até a hora de chegar

Eu vejo toda a descrição, espero a restauração e toda justa remissão, a que isso pode ocasionar. Eu perco a minha direção e ando sempre em contramão, não sei me reestruturar. Pois perco toda a razão quando o que eu quero é compreensão, alguém para me acompanhar. Mas eu caminho sempre só, mesmo com muitos ao meu redor, já não consigo enxergar. Eu grito, eu vivo, eu sei de cor. Em cada surpresa, eu sinto a dor, eu não carrego compaixão. Sei que todos têm seu valor, mas vejo apenas minha dor, eu já me acostumei com o descaso e com o pavor que o dia traz em seu rigor. Não sei se vou me encaixar. Com tudo isso que vivi, se repete e eu posso rir, até a hora de chorar. E mesmo assim, eu sigo. E, enfim, não por esperança, mas por saber que tudo isso tem um fim. Até a hora de chegar.

Sabedoria

Hoje cheguei em casa, e ela me perguntou: — Vicente, tô preocupada… o fio ainda não chegou. Será que ele volta pra casa hoje? Respondi: — Que fio? Ela: — O meu fio... — Volta, sim. Logo ele tá aqui. — Tô preocupada… será que aconteceu alguma coisa? — Não, fica tranquila. Logo ele chega, tá trabalhando… Fui até o quarto e voltei. Ela disse: — Glória a Deus que você chegou, eu tava preocupada. Perguntou: — Vai dormir aqui em casa ou na sua? — Hoje durmo com a senhora, na sua casa. Ela sorriu e disse, aliviada: — Glória a Deus! Foi a primeira vez que ela não me reconheceu...

Um papo com Danilo

Isso foi uma indireta? Foi, sim. Não pode? Pode… mas exige coragem. Você está solteiro? Estou solteiro. E distante. Distante de quê? De quase tudo que um dia fez sentido. Qual é a sua idade? A que você gostaria que eu tivesse? A sua. Eu queria ter a sua, mas carrego a minha. E qual é a minha? Não sei ao certo. Só sei que é menor que a minha. E ser mais novo tem alguma vantagem? Talvez o tempo. Quanto tempo você precisa? Não muito. Desde que seja bem vivido. Se pudesse mudar duas coisas hoje, por mágica, quais seriam? Traria de volta a lucidez da minha mãe, perdida no labirinto do Alzheimer. E a outra? Restauraria meu corpo ao que era aos vinte e cinco anos. Mas manteria a mente de agora. Eu entendo. Porque pediria as mesmas coisas. O tempo que vivi é maior do que o tempo que ainda tenho. Lucidez. Aquela idade. E saúde para nossas mães. Afinal, quantos anos você tem? Trinta e dois. Dizem que é uma das melhores idades da vida. Para mim, foi o auge. E você, o que mudaria na sua vida? Duas...

Sem aviso

Do nada vem… Brota de dentro uma inspiração. Às vezes é intuição. Às vezes carência. Talvez demência, ou apenas a falta do que fazer. Também vem a necessidade de criar, de expressar ideias, de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Mesmo que não seja filosoficamente musical, nem intelectual. Algo que apenas preencha as lacunas dessa alma desesperada por respostas, que se enche de perguntas e não espera por compreensão.

Translação

Eu deambulo claudicantemente. Cada passo torto é uma tentativa de acerto. Sempre erro. E cada erro é uma lição que não aprendo. Tenho insistido tanto que me encontro exausto na tentativa de completar um ciclo novo. E, a cada rodada, a cada volta supostamente concluída, entre translações e rotações, percebo: tudo — e todos — permanecem no mesmo lugar. É uma análise pretensiosa, talvez. Sobre a vida e sobre as pessoas. Tão distintas entre si, mas guiadas pelo mesmo querer: um saber imposto como verdade e mercadoria. Uma realidade dita absoluta, incontundente, que insiste em me acompanhar apenas para provar o quanto estou errado sobre tudo, sobre todos e, sobretudo, sobre mim mesmo.