51
Na frente do terreiro, quatro vezes eu passei.
A primeira foi por engano. Eu não estava sóbrio e li uma placa: “karaokê”. Eu gosto de música, via a música acontecendo, as pessoas batendo palma, e cheguei para pegar uma senha e cantar. Mas, quando olhei melhor, não se tratava de karaokê. Tratava-se de uma concentração de fé.
Li novamente a placa. Li e reli, até perceber que havia lido errado: era karatê. No prédio acima havia uma escola de karatê, mas embaixo havia um templo de fé.
E ali fiquei, observando o ritual. Curioso que sou, observei, permaneci mais de uma hora. Me distraí e voltei embora.
Mas algo me chamou.
E lá voltei.
Parei na frente e observei. Tirei conclusões, lembrei da infância, lembrei da vida, lembrei da minha mãe, pensei em mim e pensei por que eu estava ali.
Mais uma vez, me retirei.
Pela terceira vez, voltei. Fiquei mais de uma hora. Então abriram-se as porteiras, e achei aquilo interessante. Havia crianças rindo, mas alguns daqueles risos me perturbavam, então me retirei.
Hoje, nesta noite, retornei.
Estava distraído quando lembrei que havia um lugar onde existia uma manifestação de fé. E a minha curiosidade me levou novamente até ali.
Desta vez, entrei.
Perguntei algumas coisas às pessoas que estavam ao meu lado. Recebi algumas respostas não tão convincentes, mas a porteira se abriu, e eu atravessei.
Minha senha, dessa vez, era 11.
Na outra vez, quando não tive coragem de passar, era 51 — a senha que abandonei.
Hoje eu entrei.
Segundo quem me orientou, quem me receberia seria uma baiana.
E uma baiana me recebeu.
Com ela conversei.
Ela me perguntou o que eu procurava.
Eu apenas perguntei por que eu estava ali.
Ela me respondeu:
— Você está aqui porque foi chamado.
Então perguntei:
— Que chamado é esse?
Ela me disse que o chamado era para eu me encontrar e abrir os meus caminhos.
Falei que era curioso.
Ela respondeu que curiosidade era uma coisa boa, e que havia sido justamente a curiosidade que me levara até ali.
Permaneci calado por um instante.
Então ela perguntou:
— Você tem algo para me falar?
Eu apenas perguntei:
— Eu sou uma pessoa boa?
Ela me respondeu com outra pergunta:
— Você faz o bem?
Eu disse:
— Eu tento.
Ela continuou:
— Você ama o próximo? Você deseja o bem ao próximo?
Eu respondi:
— Na maioria das vezes, sim.
Então ela disse:
— Essa resposta você já tem.
Eu falei:
— Não tenho mais nada para questionar.
Ela então disse:
— Então vou te fazer um passe.
E o passe eu recebi.
Fechei os olhos e senti o seu toque passando pelo meu corpo, como se arrancasse de mim algo que nem mesmo eu sabia o que era.
No final de tudo, eu a abracei.
E ela me disse:
— Você está aqui hoje para receber um abraço da Baiana.
Eu respondi:
— O abraço é a melhor coisa que existe. O abraço cura.
E eu me senti curado.
Ela me deu alguns conselhos. Disse que, quando eu me sentisse atraído, eu voltasse novamente.
E me pediu:
— Acenda uma vela em um copo com água a cada sete dias. Reze para o seu anjo. Quando a vela acabar, jogue essa água fora. E repita isso quantas vezes for necessário, que um caminho eu lhe abrirei.
Saí dali com um bilhete no bolso e com gratidão por aquele que me doou a senha, porque eu estava no final da fila e fui colocado no décimo primeiro lugar.
E assim atravessei a porteira e, pela primeira vez, estive no centro.
Não sei se acreditei.
Não sei se a vela acenderei.
Nem sei mesmo se um dia voltarei.
Mas o abraço foi bem-vindo.
E, às vezes, há curas que não vêm das respostas, mas do simples gesto de alguém nos acolher sem perguntas.
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