Ala 7a
Capítulo – A porta da Ala 7A
Depois da entrevista, tudo aconteceu depressa.
Ainda tentava organizar na cabeça as perguntas que havia respondido quando fui apresentado à enfermeira responsável pela ala onde, caso fosse aprovado, passaria a trabalhar.
Ela estendeu a mão e sorriu.
— Eu sou a Ivone.
Era uma senhora baixa, talvez com pouco mais de sessenta anos. Tinha os cabelos cacheados na altura dos ombros, um corpo miúdo e arredondado e um jeito tranquilo de falar que transmitia segurança. Os óculos ficavam pendurados por uma corrente fina em volta do pescoço e balançavam levemente enquanto caminhava. Havia nela uma serenidade difícil de explicar. Parecia uma daquelas pessoas que já tinham visto tanto sofrimento que aprenderam a substituí-lo pela delicadeza.
Ela disse que me mostraria o hospital antes de me apresentar ao restante da equipe.
Naquele primeiro dia eu não iniciaria o plantão às seis e meia da manhã, como aconteceria dali em diante. Já era por volta das dez horas. A entrevista havia terminado há pouco e aquela visita fazia parte da experiência que definiria minha contratação.
Saímos da parte administrativa e começamos a descer.
O hospital havia sido construído em um terreno inclinado. A cada corredor percorrido parecia que eu mergulhava um pouco mais naquele universo que até então conhecia apenas por fora.
Enquanto caminhávamos, dona Ivone ia apontando cada setor.
Ali ficava a lavanderia.
Mais adiante era o refeitório dos funcionários.
Passamos pela ala das crianças. Em seguida atravessamos outro corredor, de onde era possível apenas enxergar parte da Ala 6. Não entramos. Ela apenas comentou rapidamente sobre o setor e continuamos andando.
Eu ainda observava tudo com a curiosidade de quem estava chegando a um novo emprego. O prédio era limpo. As paredes estavam bem pintadas. Tudo parecia organizado. Não havia qualquer sinal do que eu encontraria poucos minutos depois.
Foi somente quando nos aproximamos da Ala 7A que senti a atmosfera mudar.
O corredor terminava diante de uma porta pesada.
Dona Ivone retirou uma chave do bolso.
Achei curioso perceber que aquela mesma chave abria praticamente todas as portas do hospital. Na época não dei muita importância ao detalhe. Mais tarde compreenderia que aquela pequena chave representava um enorme poder dentro daquele lugar.
Ela destrancou a porta e olhou para mim.
— Vamos entrar.
Assim que atravessamos, ela chamou alguém.
— Sidney!
Um rapaz apareceu caminhando em nossa direção.
Sorria com facilidade.
Era auxiliar de enfermagem e seria a primeira pessoa com quem eu realmente teria contato dentro da ala.
Ela fez as apresentações.
— Esse é o rapaz que veio para a experiência. Quero que você fique com ele hoje. Mostre a rotina, apresente os pacientes, leve ao refeitório na hora do almoço e explique como tudo funciona.
Depois voltou-se para mim.
— Qualquer dúvida, pergunte para o Sidney. Ele conhece cada cantinho daqui.
Desejou-me boa sorte, sorriu novamente e foi embora.
Fiquei observando enquanto ela atravessava o portão e desaparecia pelo corredor.
A partir daquele instante eu estava sozinho.
Ou melhor, achava que estava.
Bastaram alguns segundos para perceber que dezenas de olhos me observavam.
Foi impossível contar quantos pacientes havia naquele pátio.
Todos pareciam ter notado imediatamente que existia um rosto novo entre eles.
Alguns apenas olhavam.
Outros sorriam.
Alguns caminhavam em minha direção.
Havia pacientes falando sem parar, outros gritavam frases repetidas, alguns riam sozinhos, outros permaneciam completamente indiferentes ao movimento ao redor.
O som nunca cessava.
Era uma mistura de vozes, passos, portas, risadas, choros e palavras que se repetiam continuamente.
No começo tentei prestar atenção em tudo.
Depois percebi que era impossível.
Meu olhar foi interrompido por uma cena que nunca mais saiu da memória.
Um homem pequeno chorava encostado próximo ao muro.
Seu nome era Jair Américo.
No livro mudarei seu nome para preservar sua identidade, mas sua imagem continua absolutamente viva na minha lembrança.
Era ruivo.
Muito magro.
O corpo estava coberto por curativos.
O nariz apresentava um ferimento profundo.
As pernas também.
A pele carregava marcas antigas e recentes de agressões que ele mesmo provocava.
Chorava como uma criança.
Falava.
Reclamava.
Articulava bem as palavras, mas parecia viver aprisionado em um sofrimento que ninguém conseguia alcançar.
Perguntei discretamente ao Sidney quem era aquele paciente.
Ele olhou na direção do homem.
— É o Jair. Está numa fase difícil. Anda se machucando bastante. O médico vem esta semana para ajustar a medicação. Vamos ver se melhora.
Foi minha primeira apresentação à realidade da doença mental grave.
Não através de livros.
Não através de aulas.
Mas através de um ser humano.
Enquanto caminhávamos, os pacientes cercavam o Sidney.
Foi então que comecei a entender que ele era muito querido por todos.
Quem conseguia falar chamava seu nome da maneira que podia.
— Tidney!
— Diney!
Alguns pronunciavam apenas parte das sílabas.
Ele respondia a todos.
Chamava cada paciente pelo nome.
Brincava.
Fazia perguntas.
Cantava pequenos trechos de músicas.
Um deles apareceu.
— Corujinha... cadê sua nega?
O paciente abriu um sorriso enorme.
Sidney ria junto.
Naquele ambiente pesado ainda existia espaço para afeto.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi um pacote de fumo que ele carregava no bolso.
Durante vários momentos do dia, enquanto conversava comigo ou observava os pacientes, ia enrolando pequenos cigarros de palha com enorme habilidade.
Os pacientes se aproximavam.
Esperavam.
Alguns tinham seu próprio fumo.
Outros dependiam dele.
Sidney acendia os cigarros com um isqueiro que mantinha sempre consigo. Os pacientes jamais podiam portar fogo.
Percebi também que aquilo fazia parte da rotina de negociação.
— Fica vestido.
Depois eu faço um paieiro para você.
Era uma forma de convencê-los a colaborar.
Naquele momento tudo me parecia estranho.
Hoje compreendo que muitas decisões eram tomadas tentando equilibrar cuidado, convivência e sobrevivência dentro de uma realidade extremamente difícil.
Outra cena logo chamou minha atenção.
Muitos pacientes permaneciam completamente nus.
Pouco antes do almoço, um carrinho surgia trazendo as roupas.
Era impressionante.
Como se obedecessem a um relógio invisível, vários pacientes se aproximavam para vestir suas roupas.
Eles sabiam.
Roupa significava comida.
Vestiam-se rapidamente.
Iam até o refeitório.
Comiam.
Voltavam ao pátio.
E poucos minutos depois começavam novamente a retirar as roupas.
Alguns simplesmente as arremessavam sobre o telhado.
No início achei que fosse um episódio isolado.
Não era.
Acontecia todos os dias.
Existia até um funcionário responsável por lidar com aquilo.
Chamava-se Daniel.
Um homem moreno, já com mais de trinta anos, sempre uniformizado de azul e usando boné.
Carregava um longo bastão com um gancho na ponta.
Subia no telhado diversas vezes durante o dia para recuperar as roupas espalhadas.
Lá de cima ia puxando uma por uma com movimentos já automatizados, jogando tudo dentro de um hamper para que fossem novamente encaminhadas à lavanderia.
Hoje lembro daquela cena quase como uma coreografia.
Na época achei inacreditável.
Outra coisa me marcou profundamente.
O tempo.
Nunca havia trabalhado em um lugar onde as horas demorassem tanto para passar.
Depois que os pacientes retornavam do almoço, praticamente não existia nenhuma atividade organizada.
Ficávamos dentro do pátio.
Conversávamos.
Observávamos.
Prestávamos assistência.
Respondíamos aos chamados.
E esperávamos.
Os pacientes repetiam frases.
Chamavam nossa atenção.
Seguravam nossa roupa.
Queriam conversar.
Alguns apenas caminhavam de um lado para outro durante horas.
Outros gritavam.
Outros choravam.
Outros permaneciam imóveis.
O relógio parecia ter parado.
Lembro de olhar várias vezes para o relógio de pulso imaginando que já fosse o fim do expediente.
Mal haviam passado alguns minutos.
Aquela sensação de lentidão era quase física.
Também me impressionou o sol.
O pátio era totalmente aberto.
Não existia iluminação elétrica porque funcionava apenas durante o dia.
Também não lembro de ventiladores, tomadas ou qualquer sistema que amenizasse o calor.
O ar circulava pouco.
O cheiro de fezes, urina e suor permanecia preso entre os muros altos.
Quando o sol do meio-dia caía diretamente sobre o concreto, alguns pacientes procuravam naturalmente as sombras projetadas pelas paredes.
Outros não possuíam essa percepção.
Continuavam caminhando sob o calor intenso.
Alguns dormiam diretamente no chão, expostos ao sol.
Era preciso aproximar-se, acordá-los com cuidado e conduzi-los para um lugar protegido.
Eles não percebiam que a pele estava queimando.
Era um gesto simples.
Mas naquele dia compreendi que cuidar, muitas vezes, significava impedir pequenos sofrimentos que eles já não conseguiam evitar sozinhos.
Quando chegou a hora do almoço, acompanhei o Sidney até o refeitório.
A comida tinha boa aparência.
Era bem preparada.
Mesmo assim não consegui comer.
O cheiro que vinha do pátio ainda estava impregnado nas minhas roupas, nas mãos e, principalmente, na minha cabeça.
Olhei para o prato.
Tentei levar a primeira garfada à boca.
Desisti.
Meu estômago simplesmente recusou.
Passei o restante do dia tentando entender aquele lugar.
No fim do expediente, saí do hospital muito mais cansado mentalmente do que fisicamente.
Era como se eu tivesse vivido vários dias dentro de um único.
Quando entrei no ônibus para voltar a Capela do Alto, sentei perto da janela.
O cansaço venceu rapidamente.
Adormeci.
Não sei quanto tempo dormi.
Mas lembro perfeitamente do susto ao acordar.
Por alguns segundos tive a impressão de ainda estar dentro do pátio.
Os gritos continuavam ecoando na minha cabeça.
As vozes.
Os choros.
As palavras repetidas.
O som das portas.
O cheiro.
Tudo parecia ter embarcado comigo naquele ônibus.
Naquele dia eu acreditava que havia conhecido um pátio.
Hoje sei que estava enganado.
Eu havia apenas atravessado uma porta.
As verdadeiras histórias ainda estavam por começar.
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