Daime

Hoje compreendi algo importante durante minha viagem interior: devo estar apenas nos lugares onde desejo estar. Devo dividir meu tempo apenas com aqueles com quem realmente quero compartilhar a vida.

Quando faço uma escolha consciente, ela deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a ser um compromisso. Depois que escolho permanecer em determinado lugar, não há mais sentido em fugir da experiência. É preciso atravessá-la.

O que me deu coragem para enfrentar certas situações foi entender que elas não duram para sempre. Tudo tem um início, um meio e um fim. Saber disso me permitiu suportar o desconforto, porque eu sabia que, ao final, poderia retornar ao meu lugar seguro: aquele espaço onde pertenço, onde me sinto acolhido e onde desejo permanecer.

É verdade que existem lugares e momentos em que precisamos estar, mesmo sem vontade. Fazem parte da vida, das responsabilidades e dos ciclos inevitáveis. Mas também é verdade que esses lugares não precisam se tornar morada. São, muitas vezes, apenas passagens.

Aceitar que o desconforto pode ser transitório nos devolve a liberdade. Podemos planejar a saída, preparar um novo caminho e escolher, quando for possível, ambientes, pessoas e experiências que façam sentido para quem somos.

Talvez a verdadeira maturidade esteja justamente nisso: reconhecer a diferença entre permanecer por necessidade e permanecer por escolha. E nunca esquecer que o destino da vida não é sobreviver em lugares que nos esvaziam, mas construir um caminho que nos conduza, cada vez mais, aos lugares onde o coração encontra paz.
Hoje percebi que, ao longo do caminho, deixei de estar em muitos lugares aos quais eu pertencia. Não porque esses lugares deixaram de me acolher, mas porque algo dentro de mim enfraqueceu o desejo de estar, de participar, de ser presença.

Foi como se um véu tivesse sido colocado diante dos meus olhos. Aos poucos, deixei de enxergar o valor das pessoas, dos encontros, das conversas e dos espaços que durante tanto tempo fizeram parte da minha história. Sem perceber, fui me afastando. Não porque deixei de amar essas pessoas ou esses lugares, mas porque, por um tempo, deixei de acreditar em mim mesmo e no valor da minha própria presença.

Hoje, porém, algo mudou.

Ressignifiquei as pessoas que quero ao meu lado. Reconheci, mais uma vez, quem esteve presente quando a vida era leve e também quando ela se tornou difícil. Ressignifiquei os lugares onde me sinto vivo, acolhido e verdadeiro. Percebi que pertencimento não é apenas estar em um espaço; é permitir-se existir nele de corpo inteiro.

Por isso, decidi voltar.

Quero retomar os lugares que um dia fizeram sentido para mim. Quero reencontrar pessoas que nunca deixaram de ter importância, mesmo quando fui eu quem se distanciou. Quero reconstruir pontes que não foram destruídas; apenas ficaram silenciosas por um tempo.

Hoje compreendo que nem sempre nos afastamos porque deixamos de amar. Às vezes, nos afastamos porque deixamos de enxergar nosso próprio valor. E quando recuperamos esse olhar, percebemos que alguns lugares continuam nos esperando, não porque o tempo parou, mas porque o afeto verdadeiro sabe reconhecer quem sempre pertenceu ali.

Talvez este seja um novo começo. Não o de construir uma vida diferente, mas o de voltar a habitar, com consciência e gratidão, a vida que um dia já foi minha e que agora escolho viver novamente.
Hoje também refleti sobre a solidão.

A solidão de ser um universo inteiro contido dentro de uma única mente. Um universo que ninguém vê completamente, que ninguém conhece por inteiro, que ninguém consegue interpretar em toda a sua profundidade.

Cada pessoa carrega dentro de si uma imensidão. Um mundo em constante expansão, formado por memórias, sentimentos, pensamentos, medos, sonhos, experiências e percepções que pertencem somente àquela consciência. Quem olha para nós enxerga apenas uma pequena parte daquilo que somos. Não imagina a complexidade, a grandeza e a infinidade do universo que carregamos silenciosamente.

Talvez seja justamente por essa imensidão interior ser tão grande e, ao mesmo tempo, tão invisível aos outros, que muitas vezes sentimos tanta solidão.

Vivemos cercados de pessoas, caminhamos lado a lado, compartilhamos espaços e momentos, mas cada um está mergulhado no próprio universo. Cada consciência está tentando compreender a própria existência, enfrentando suas próprias batalhas e tentando organizar seu próprio mundo interior.

Muitas vezes imaginamos que todos estão observando nossos passos, julgando nossas escolhas, atentos às nossas atitudes. Mas a verdade é que a maior parte das pessoas está concentrada em sua própria jornada. Passamos muito tempo preocupados com o olhar do outro, quando, na realidade, cada um está tentando entender a si mesmo.

Mas talvez exista uma grande transformação a ser feita: compreender que, embora sejamos universos individuais, também somos parte de uma comunidade. A existência não foi criada para ser apenas isolamento. Precisamos resgatar a comunhão, a união entre consciências, a percepção de que todos estamos conectados.

Somos muitos universos vivendo uma experiência única, mas talvez todos façamos parte de um mesmo movimento maior.

E quando chegar o momento em que essa matéria que nos sustenta deixar de carregar a energia da consciência individual, quando o corpo se desfizer e aquilo que somos ultrapassar os limites da forma, talvez aquilo que chamamos de separação deixe de existir.

Os universos interiores que carregamos poderão se misturar novamente. As fronteiras entre "eu" e "outro" poderão desaparecer. A multiplicidade poderá retornar à unidade.

Talvez, no fim de tudo, sejamos uma única consciência experimentando infinitas formas de existir. Um único universo em movimento, uma única criação em expansão contínua, descobrindo a si mesma através de cada vida, de cada história e de cada ser.

Hoje percebi que o véu que havia diante dos meus olhos não escondia apenas o mundo exterior. Ele também escondia partes de mim mesmo.

Esse véu não me deixava enxergar aquilo que durante tanto tempo admirei. Não me deixava perceber as pequenas e grandes belezas que sempre me tocaram, aquelas coisas que eu tinha prazer em contemplar, descrever, compartilhar e anunciar ao mundo com emoção.

Durante muito tempo eu deixei de olhar para o céu.

Deixei de olhar para a lua, essa velha companheira que caminhou comigo em tantos momentos da vida. Uma lua que tantas vezes me inspirou, que tantas vezes iluminou pensamentos, sonhos e sentimentos. Ela continuava lá, mas parecia apagada aos meus olhos.

As estrelas também estavam lá. As mesmas estrelas que sempre despertaram em mim o desejo de ir além, de imaginar outros caminhos, de alcançar lugares que eu ainda não conhecia. Elas sempre brincaram com minha imaginação, abriram portas para mundos que existiam dentro de mim.

Mas eu já não conseguia vê-las.

Hoje compreendi que o problema não era a ausência da lua ou das estrelas. Era a distância criada dentro de mim. Era o olhar que havia perdido a capacidade de contemplar.

E então pensei sobre o tempo.

Existe uma distância imensa entre mim e uma estrela. Uma distância tão grande que talvez aquela estrela que vejo já nem exista mais. Talvez sua luz tenha viajado durante milhares ou milhões de anos até chegar aos meus olhos. Eu vejo um passado.

E, ao mesmo tempo, aquela estrela que me ilumina também está olhando para um passado. A luz que parte dela ainda não sabe que eu existo neste instante. Talvez ela ainda não tenha visto o meu nascimento.

Somos encontros impossíveis acontecendo através do tempo.

Mas talvez a nossa compreensão limitada de passado, presente e futuro seja justamente aquilo que nos impede de perceber uma realidade maior. Talvez a existência não seja apenas uma linha dividida em momentos separados, mas um grande movimento onde tudo está acontecendo de alguma forma.

A estrela que morreu e ainda vejo. Eu que existo agora e um dia serei passado. A luz que viaja entre mundos e tempos diferentes.

Neste instante de consciência, talvez não sejamos apenas seres presos ao tempo. Talvez sejamos parte de algo atemporal.

Porque enquanto contemplamos uma estrela, não estamos apenas olhando para o passado dela. Estamos participando de um encontro entre existências, entre histórias e entre universos.

Hoje me lembrei de uma reflexão que ouvi em uma série sobre a existência.

A vida seria como o oceano. O oceano representa a grandeza da existência, o todo, aquilo que permanece. E nós seríamos como uma onda que se ergue por um instante, formando pequenas gotas que se desprendem, sobem ao ar, brilham por alguns segundos e depois retornam ao mesmo oceano de onde vieram.

Esse pequeno percurso da gota é a nossa vida.

O momento em que ela deixa de ser apenas parte do oceano, ganha uma forma própria, experimenta a liberdade do movimento, sente a força da gravidade e finalmente retorna ao lugar de origem. Esse intervalo entre o desprender e o retornar é aquilo que chamamos de existência.

Mas hoje, olhando para uma fogueira, encontrei outra imagem para compreender a vida.

Vi as fagulhas saindo do fogo. Pequenos pontos de luz que se desprendiam da chama, iluminavam o escuro por um instante e eram levados pelo vento.

Algumas mal surgiam e já desapareciam. Tinham apenas um breve momento de brilho antes de se apagarem.

Outras subiam um pouco mais, dançavam no ar, resistiam por alguns segundos à força do vento e do próprio fogo, mas também encontravam o seu fim.

Algumas pareciam destinadas a alcançar alturas maiores. Subiam tanto que davam a impressão de que continuariam brilhando para sempre. Mas até essas, depois de uma longa trajetória de luz, também perdiam o brilho e desapareciam.

E então pensei na vida humana.

Nascemos como pequenas fagulhas no imenso fogo da existência. Alguns permanecem pouco tempo. Outros percorrem longas distâncias, alcançam grandes alturas, deixam marcas profundas, iluminam muitas pessoas. Mas todos, em algum momento, têm sua chama apagada.

Existe algo profundamente misterioso nisso: a fagulha não escolhe completamente o seu caminho.

Ela é conduzida pela força do fogo que a lançou e pelo movimento invisível do vento que a carrega. Ela não sabe para onde vai, nem quanto tempo permanecerá brilhando.

Talvez nós também sejamos assim.

Mesmo fazendo escolhas, planejando caminhos e tentando conduzir nossa história, existem forças maiores que participam da nossa trajetória. Circunstâncias, encontros, acontecimentos e movimentos do próprio universo influenciam a direção que tomamos.

Isso não significa que nossa vida não tenha sentido. Pelo contrário.

Talvez o sentido esteja justamente no brilho que conseguimos oferecer enquanto estamos acesos. A fagulha não precisa durar para sempre para ter importância. Ela existe para iluminar durante o tempo que lhe foi concedido.

A grandeza da vida talvez não esteja na duração da chama, mas na intensidade da luz que ela espalha enquanto existe.

No fim, a gota retorna ao oceano e deixa de ser apenas uma gota. Ela se mistura novamente à imensidão da qual um dia fez parte.

A fagulha segue outro caminho. Ela não retorna ao fogo de onde veio. Ela simplesmente cumpre o seu instante de existência. Brilha, percorre seu caminho, perde sua luz e se transforma.

Mesmo apagada, ela não deixa de existir. Sua matéria se dispersa, sua energia se mistura ao ambiente, ao ar, ao movimento, ao próprio universo. Ela deixa de ser uma pequena chama visível, mas continua participando da grande transformação de tudo.

Talvez nós também sejamos assim.

Por um breve momento, somos uma consciência individual, uma pequena luz destacada da imensidão. Temos um nome, uma história, memórias, desejos e sentimentos. Caminhamos pelo mundo acreditando ser separados de tudo.

Mas, em algum momento, nossa forma se desfaz. O brilho individual se apaga. Aquilo que chamamos de "eu" deixa de existir como conhecemos.

E então nos misturamos novamente ao grande movimento da existência.

Não como uma gota que desaparece, nem como uma chama que retorna ao fogo, mas como algo que continua fazendo parte de tudo aquilo que sempre esteve em transformação.

Somos breves manifestações da imensidão. Um instante de luz no movimento infinito do universo.

E, no meio de todas essas reflexões, aconteceu algo simples, mas profundamente significativo.

Olhei para a lua no céu.

Ela estava crescente, recebendo a luz do sol e revelando exatamente a fase em que se encontrava. Uma parte dela estava iluminada, enquanto outra permanecia na escuridão.

E então compreendi algo sobre a luz.

A luz tem uma direção. Ela não faz curvas para alcançar aquilo que está escondido. Ela não envolve tudo ao mesmo tempo. Ela segue seu caminho, atravessa o espaço e, quando encontra uma superfície, revela aquilo que consegue tocar.

Onde existe uma barreira, existe sombra.

Mas a sombra não significa ausência. A sombra não significa vazio. Ela apenas representa aquilo que naquele instante não está recebendo a luz.

A lua continuava inteira, mesmo onde meus olhos não podiam vê-la iluminada. A parte escura não era uma parte inexistente. Era apenas uma parte ainda não revelada pelo encontro com a luz.

Talvez nós também sejamos assim.

Dentro de nós existem partes iluminadas e partes ocultas. Existem sentimentos, memórias e possibilidades que a luz da consciência ainda não alcançou. Não porque não existam, mas porque ainda não foram tocados pela direção certa da luz.

Às vezes julgamos as nossas sombras como defeitos, como ausências, como lugares que precisam desaparecer. Mas talvez elas sejam apenas partes nossas esperando outro momento, outro ângulo, outra fonte de iluminação.

A lua me lembrou que ninguém é completamente luz e ninguém é completamente sombra.

Somos fases.

Somos movimentos.

Somos corpos inteiros atravessados por diferentes encontros com a luz.

E talvez a sabedoria esteja em compreender que aquilo que hoje permanece escuro em nós não deixou de existir. Apenas ainda não encontrou o caminho da luz que irá revelá-lo.

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