Paivinha


Há mais de trinta anos, quando atravessei pela primeira vez os portões daquele hospital psiquiátrico, eu não fazia ideia de que carregaria seus corredores dentro de mim por toda a vida. Eu era jovem, inexperiente e, como tantos outros que chegavam para trabalhar ali, conhecia muito pouco sobre a complexidade da doença mental, da dependência química e, principalmente, da institucionalização. Naquela época, eu acreditava que estava entrando apenas em um local de trabalho. Hoje compreendo que estava entrando em um universo onde milhares de vidas haviam sido interrompidas.
Entre todas as pessoas que conheci, algumas jamais saíram da minha memória. Não pelos diagnósticos que receberam, mas pela humanidade que insistiam em preservar, mesmo depois de anos vivendo atrás daqueles muros.
Uma delas foi Paivinha.
Hoje, infelizmente, não consigo recordar seu nome verdadeiro. Não sei como foi registrado ao nascer, nem qual sobrenome herdou de sua família. O tempo apagou essas informações da minha memória. O que permaneceu foi apenas o apelido pelo qual todos o chamavam.
Paivinha.
É curioso perceber que, dentro de instituições como aquela, os apelidos sobreviviam mais do que os nomes. Talvez porque os nomes lembrassem pessoas. Os apelidos, ao contrário, acabavam transformando homens em personagens de um cotidiano repetitivo, onde poucos se interessavam pela história que existia antes da internação.
Nunca consultei seu prontuário.
Jamais procurei saber oficialmente por qual motivo havia sido internado. Hoje isso me surpreende profundamente. Durante muitos anos pensei que essa informação não faria diferença no meu trabalho. Trinta anos depois, escrevendo estas páginas, percebo o quanto eu gostaria de ter conhecido a história daquele homem muito antes de conhecer o paciente.
Segundo os funcionários mais antigos, Paivinha havia sido internado por causa do uso de drogas. Não sei quais. Também me contaram que ele e seu inseparável amigo, conhecido apenas pelo apelido de Maconha, vieram de uma ala destinada a dependentes químicos, homens que, originalmente, não apresentavam transtornos psiquiátricos graves.
O relato era sempre o mesmo.
Anos de internação, medicações pesadas, eletrochoques e maus-tratos acabaram transformando aqueles dois rapazes em pacientes psiquiátricos crônicos.
Jamais saberei até que ponto essa história era completamente verdadeira. Mas bastava olhar para Paivinha para compreender que havia algo profundamente injusto em sua trajetória.
Quando comecei a trabalhar, a primeira orientação que recebi sobre ele não dizia respeito aos seus remédios, nem ao seu comportamento.
Era um aviso.
— Fique de olho no Paivinha e no Maconha. Esses dois, se encontrarem uma oportunidade, fogem.
E realmente fugiam.
Ou, pelo menos, tentavam.
Paivinha era o cérebro das fugas. Era ele quem observava os horários, estudava os movimentos, percebia pequenas distrações dos funcionários e arquitetava os planos. Não era um homem agressivo. Não era desobediente. Muito pelo contrário.
Era extremamente educado.
Respeitava praticamente todas as regras da instituição.
Pedia licença para falar.
Conversava baixo, quase em tom de segredo, como se tivesse receio de incomodar alguém.
Jamais levantava a voz.
Pensava antes de responder.
Articulava muito bem suas ideias e compreendia perfeitamente tudo o que acontecia ao seu redor. Ao contrário do que muitos imaginariam ao olhar para um paciente crônico, Paivinha tinha consciência do ambiente em que vivia.
Talvez justamente por isso nunca desistisse de fugir.
Era como se alguma parte dele ainda acreditasse na liberdade.
Infelizmente, seus planos quase sempre fracassavam.
A quantidade de medicamentos que recebia diariamente o mantinha constantemente sedado. Caminhava devagar. Seu corpo tremia o tempo todo. Faltava-lhe força nas pernas, energia para correr e resistência física para atravessar os limites daquele enorme terreno.
As fugas terminavam antes mesmo de começar.
Lembro-me de uma delas como se tivesse acontecido ontem.
Consegui alcançá-lo já próximo ao campo de futebol, praticamente o último limite daquela imensa instituição. Dali para frente existia apenas a possibilidade de liberdade.
Quando percebeu que eu havia chegado, ele não tentou reagir.
Também não correu mais.
Fez algo que jamais esqueci.
Encolheu-se.
Baixou a cabeça.
Os olhos, antes atentos, encheram-se de medo.
Seu corpo tremia ainda mais.
Então, quase sussurrando, disse:
— Tio... não me bate... eu não vou fugir mais...
Hoje, olhando para essa cena com os olhos de um homem maduro, percebo que ninguém cria esse tipo de medo por acaso.
Aquela reação não era de quem havia sido apenas repreendido.
Era de quem provavelmente já havia aprendido, em algum momento da vida, que ser encontrado significava apanhar.
Naquele tempo eu ainda era um rapaz.
Precisava impor disciplina.
Fingia severidade mais do que realmente era.
Então respondia:
— Vamos embora. Dá a mão para o tio.
Ele me olhava desconfiado.
— Você não vai bater?
Eu dizia:
— Não vou bater, Paivinha. Mas não fuja mais.
Ele prometia:
— Não vou fugir.
Nós dois sabíamos que era mentira.
Na primeira oportunidade, tentaria novamente.
E, curiosamente, eu nunca ficava bravo por isso.
Hoje entendo que fugir era sua última forma de dizer ao mundo que ainda existia uma parte dele que não aceitava viver aprisionada.
Fisicamente, Paivinha era magro, de estatura mediana, pele morena, cabelos curtos e escuros. O rosto carregava as marcas de muitos anos de institucionalização, mas havia algo que sobrevivia a tudo isso.
O sorriso.
Era um sorriso discreto.
Quase tímido.
Parecia não ter força suficiente para ocupar todo o rosto.
As medicações pesadas roubavam-lhe parte da expressão. Quando ficava muito feliz, sorria tão intensamente que chegava a babar, consequência dos efeitos dos remédios que consumia havia tantos anos.
Mesmo assim, era impossível não perceber sua alegria quando ela aparecia.
Na fotografia que guardo dele, vejo exatamente esse momento.
Paivinha está agachado, sorrindo, reproduzindo a coreografia do É o Tchan, febre absoluta no final da década de 1990.
Segura o Tchan.
Amarra o Tchan.
Ele sabia todos os movimentos.
Cantava.
Dançava.
Divertia quem estivesse por perto.
Era uma alegria simples, quase infantil.
Talvez aquele pequeno instante de música fosse uma das poucas oportunidades em que conseguia esquecer os muros ao redor.
Outra característica impossível de ignorar era sua relação com o cigarro.
Paivinha era um fumante compulsivo.
Jamais desperdiçava uma bituca.
Recolhia do chão qualquer resto de cigarro e fumava até o último milímetro possível, como se cada tragada fosse preciosa demais para ser perdida.
Os dedos denunciavam esse hábito.
O polegar e o indicador eram amarelados e queimados, marcados pelo contato constante com cigarros fumados até o fim.
Quando estava feliz, conversava.
Pedia licença para falar.
Chamava-me sempre da mesma forma.
— Tio Cláudinei...
Nunca exigia.
Nunca ordenava.
Sempre fazia um pedido.
Sempre com educação.
Quando a tristeza chegava, porém, ele mudava completamente.
Os olhos denunciavam antes das palavras.
Falava pouco.
Isolava-se.
Às vezes nem cigarro pedia.
Parecia recolher-se para dentro de si.
Hoje imagino que talvez existissem dias em que compreendia perfeitamente que aquele lugar seria sua morada definitiva.
Talvez percebesse que todas as fugas terminariam exatamente da mesma maneira.
Talvez soubesse que jamais voltaria para casa.
Paivinha nunca recebeu visitas.
Pelo menos durante todo o tempo em que convivemos.
Ninguém perguntava por ele.
Ninguém vinha buscá-lo.
Ninguém dizia sentir sua falta.
Era apenas mais um homem vivendo entre centenas de outros homens esquecidos.
Mas não era apenas mais um.
Era um ser humano.
Um homem capaz de amar, de sonhar, de planejar, de dançar, de sorrir, de sentir medo e de desejar desesperadamente aquilo que qualquer pessoa deseja: a liberdade.
Hoje, escrevendo estas linhas, percebo que durante muito tempo enxerguei apenas o paciente.
Demorei décadas para compreender o homem.
Talvez eu não consiga devolver a Paivinha o nome que perdeu.
Talvez nunca descubra sua verdadeira história.
Mas posso devolver-lhe algo igualmente importante.
Sua humanidade.
Se este livro tem algum propósito, é justamente esse.
Fazer com que homens como Paivinha deixem de ser lembrados apenas pelos corredores de um hospital psiquiátrico e voltem a existir como realmente eram: pessoas.
Porque, antes de qualquer diagnóstico, antes de qualquer apelido e antes de qualquer prontuário, Paivinha foi um menino que nunca deixou de tentar fugir.
E talvez, no fundo, cada fuga fosse apenas sua maneira silenciosa de continuar acreditando que a liberdade ainda era possível.

Comentários