um papo com Leandro

Uma conversa numa noite de chuva

Era noite.

A cidade seguia seu curso, indiferente às pequenas histórias que aconteciam dentro das telas dos celulares. Em algum lugar, São Paulo se escondia debaixo da chuva. Em outro, Sorocaba respirava uma noite aparentemente comum.

Mas havia uma conversa para acontecer.

Neio pegou o celular e escreveu:

Neio:
Estava agora pensando em você.

Me bateu uma saudade.

Uma vontade de saber como você está.

Tudo bem por aí?

A resposta veio poucos minutos depois.

Ele:
Oi, meu lindo.

Hoje é meu aniversário.

Eu estou mais ou menos.

Não gosto muito desse dia. Ele me traz um pouco de melancolia.

E você, como está?

Neio ficou alguns segundos olhando para aquelas palavras.

Aniversários.

Há dias que parecem feitos para a alegria, mas carregam dentro deles uma espécie de espelho.

Talvez por isso algumas pessoas se sintam estranhas quando chega o próprio aniversário. É como se, por algumas horas, a vida nos obrigasse a olhar para trás.

Para o que fomos.

Para o que perdemos.

Para aquilo que ainda não conseguimos ser.

Neio:
Olha só...

Estar com tanta vontade de entrar em contato contigo justamente nesse dia tão diferente.

É um dia cheio de contradição, entre comemorar e pensar sobre a vida.

Ele:
Verdade.

Neio sorriu.

Havia alguma coisa naquela coincidência que lhe tocava.

Ele não sabia que era aniversário.

Mesmo assim, naquela noite, sentira vontade de procurá-lo.

Neio:
Que vontade me deu de lhe dar um grande abraço.

Fraterno.

Cheio de carinho.

Do carinho que você realmente merece.

A resposta veio quase como uma confissão.

Ele:
Chorei muito hoje já.

Hoje é o dia que eu mais estava precisando de um abraço.

Talvez algumas palavras sejam capazes de atravessar uma distância que os braços não conseguem.

Neio imaginou aquele abraço.

Aquele que não pede explicação.

Que não pergunta o motivo das lágrimas.

Apenas envolve.

E fica.

Neio:
É muito louco.

A mistura de sentimentos que esse dia reserva...

A gente fica bobo.

Parece que regride.

Mas, na verdade, é o dia em que a gente para para se olhar e se vê por completo.

Quase nu.

Neio:
E a nudez revela tanta coisa.

Até a gente que acha que se conhece se assusta.

Ele:
Isso mesmo.

Houve um pequeno silêncio.

Não aquele silêncio desconfortável.

Era um silêncio feito de espaço.

Como se a conversa tivesse encontrado um lugar mais profundo.

Então Neio perguntou:

Neio:
Mas me conta...

Como foi seu dia?

A resposta demorou um pouco.

Ele:
Ontem eu fiz meio que uma burrada, na verdade.

Estou solteiro desde fevereiro deste ano.

Ontem meu ex me convidou para jantar, para comemorar meu aniversário antecipado.

Fui até São Paulo encontrar com ele.

Depois do jantar, transamos e dormimos juntos.

Hoje vim para casa me sentindo destruído.

Neio leu.

Respirou.

Não havia julgamento naquela história.

Havia apenas uma ferida que acabara de ser descoberta.

Ele:
Ele ainda mexe muito comigo.

Descobri isso ontem.

Neio:
Quando você disse “burrada”...

Pensei em algo assim.

Entendo esse tipo de burrada.

Ele:
Eu fui porque me sentia “curado”.

Talvez fosse essa a parte mais dolorida.

Não ter voltado para o passado por saber que ainda amava.

Mas ter voltado acreditando que já não doía.

E descobrir, de repente, que algumas feridas apenas dormem.

Neio:
Mas é algo de que a gente se protege tanto e acaba cedendo...

Talvez nem seja isso.

Talvez seja seu momento de vulnerabilidade.

Ele:
Verdade.

Pode ser isso.

Neio:
A gente fica fragilizado nessas datas.

E é comum acontecerem esses deslizes.

Ele pediu desculpas por falar tanto.

Como se dor fosse excesso.

Como se contar o que sentimos fosse incomodar.

Ele:
Enfim.

Desculpa te encher com isso.

Neio respondeu sem hesitar.

Neio:
Mas o certo é:

ou a gente se decide sobre o que quer,

ou se perde de vez.

Le...

Só estou conversando com você porque quero estar.

Entrei em contato porque queria agora saber como você está.

E, por coincidência, é seu aniversário.

Que bom poder participar, mesmo que virtualmente.

Ele:
Obrigado por isso!

Eu já disse o quanto gosto de você e da sua energia.

Neio sentiu aquela frase.

Há pessoas que passam pela nossa vida sem imaginar o tamanho do espaço que ocupam.

Às vezes chegam justamente quando estamos atravessando alguma coisa.

Não resolvem nossos problemas.

Não apagam nossas dores.

Mas tornam o caminho um pouco menos pesado.

Neio:
Se pudesse, ia agora lhe abraçar.

Com o carinho mais fraterno possível.

Você não tem noção do quanto você me fez bem em meus dias difíceis.

Ele:
Fico muito feliz em saber disso!

Neio:
Talvez por isso eu sinta essa vontade de entrar em contato.

E lhe desejar o meu carinho.

Ele:
Agradeço muito por isso.

E de alguma forma ter te ajudado.

Nos seus dias não tão bons.

Neio então abriu uma lembrança.

Neio:
Quando lhe conheci, você foi uma das principais fugas para as minhas dores.

E foi tão bom receber seu carinho.

Tão humano.

Talvez fosse isso.

Não uma fuga.

Talvez um encontro.

Porque existem pessoas que chegam quando a gente precisa respirar.

E, sem saber, tornam-se uma pequena janela aberta num quarto escuro.

A conversa mudou de rumo.

Neio:
O que está fazendo de bom?

Ele:
Estou no computador estudando.

Neio:
E eu atrapalhando...

Ele:
De maneira alguma, lindo.

Nem se preocupe.

E você, como está?

Fale de você.

Dessa vez foi Neio quem precisou olhar para dentro.

Neio:
Eu...

Tive uma semana desafiadora.

Achei que não daria conta.

Mas as coisas foram se acertando e tudo deu certo.

Foi foda.

Mas eu também fui.

Neio:
Rs.

Aquela pequena risada tinha algo de vitória.

Porque sobreviver a uma semana difícil também merece comemoração.

Então veio outra pergunta.

Neio:
Me conta uma coisa.

Quais são suas redes de apoio?

Amigos?

Familiares?

Tem pessoas perto de você?

Ele:
Eu sou muito reservado.

Não saio muito.

Tenho o Emerson, com quem fui casado e hoje é meu amigo.

Converso um pouco com ele às vezes.

Mas, na maioria das vezes, prefiro guardar para mim.

Guardar.

Talvez essa seja uma das palavras mais pesadas que existem.

Guardar uma tristeza.

Guardar uma saudade.

Guardar uma vontade.

Guardar até mesmo um pedido de abraço.

Neio:
Hoje, por exemplo...

Você se sentiu como?

Ele:
Como assim?

Neio:
Que você se encontrou em São Paulo?

Acolhido?

Lembrado?

Amado?

Ele explicou sua história.

Falou dos casamentos, das pessoas que passaram por sua vida.

E então veio uma resposta simples.

Ele:
Pelas pessoas, sim.

Senti o carinho de todos que entraram em contato.

Me senti amado, sim.

Neio sorriu diante da tela.

Era bom saber.

Neio:
Fico feliz.

Sinto muito carinho por você.

Por este motivo, espero que tenha recebido e sentido muito amor nesse dia.

Você merece.

Ele:
Senti muito.

Inclusive dos meus amigos e família em Recife.

A conversa voltou para São Paulo.

Neio:
Foi ontem pra Sampa?

Ele:
Fui sim.

Passei a tarde e a noite lá.

Voltei hoje à tarde.

Neio:
Eu ia.

Mas teve uns problemas com mamãe e no trabalho.

Tive que ficar.

Então ele contou algo que parecia quase banal, mas que naquela noite ganhou outra dimensão.

Ele:
Mas olha...

Só chuva em SP.

Está chovendo mais que aqui em Sorocaba.

Neio:
Imagino.

SP já é terra da garoa...

Agora então.

Talvez a chuva estivesse fazendo naquela noite o que as lágrimas já haviam feito durante o dia.

Lavando.

Ou simplesmente deixando tudo mais silencioso.

Já passava das dez.

Era hora de ir.

Mas algumas conversas não terminam quando a gente diz adeus.

Elas continuam dentro da gente.

Neio:
Le...

Vou nessa.

Que bom saber que, mesmo sem saber, falei com você em um dia tão especial.

Fiquei contente.

Felicidades, meu querido.

Que sua vida seja plena, pacífica e satisfatória.

Sejam suaves cada um dos seus dias.

Espero vê-lo em breve.

Do outro lado, veio a resposta.

Ele:
Muito obrigado pelo papo.

Me ajudou a eu me sentir melhor.

De verdade.

Gratidão.

Ótima semana pra você e apareça assim que puder.

Neio ainda não queria terminar sem deixar o abraço que não pudera dar.

Neio:
Um beijo bem gostoso...

E um abraço bem apertado e demorado.

A resposta veio quase como se o abraço tivesse atravessado a tela.

Ele:
Outro maior.

Se cuida.

E, por alguns segundos, nenhum dos dois escreveu mais nada.

A conversa havia terminado.

Mas talvez não tivesse terminado de verdade.

Porque naquela noite ninguém consertou a vida de ninguém.

Ninguém encontrou respostas.

Ninguém apagou o passado.

Apenas conversaram.

E, às vezes, é disso que um coração cansado precisa.

De alguém que diga:

“Eu estou aqui.”

Mesmo que esteja longe.

Mesmo que seja por uma tela.

Mesmo que lá fora esteja chovendo.

Naquela noite, entre São Paulo e Sorocaba, dois homens trocaram palavras.

E, entre elas, sem que ninguém pudesse medir,

passou um abraço.

Um abraço apertado.

Demorado.

E maior do que a distância.

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