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Então expliquei tudo isso para o Paulo. Expliquei que meu intuito inicial nunca foi “internar” minha mãe definitivamente. Quando trouxe ela para morar comigo, a ideia era justamente o contrário: tentar reconstruir uma convivência, cuidar dela mais de perto, acompanhar os remédios, a alimentação, fazer companhia, tentar oferecer um pouco de dignidade e acolhimento nessa fase final da vida.
Só que a doença avançou muito rápido.
O declínio dela foi assustadoramente acelerado.
E isso começou a me desesperar.
Foi então que comecei, com muito peso no coração, a pensar na possibilidade de procurar uma clínica para idosos. Lembro perfeitamente da primeira vez que fui conhecer aquele lugar. Aquilo mexeu profundamente comigo. Voltei para casa destruído emocionalmente. Parecia que eu estava assinando algum tipo de derrota dentro de mim.
Mas continuei explicando para ele que minha intenção inicial era completamente diferente da ideia de abandono que tanto me atormentava.
A proposta era quase funcionar como uma creche para idosos.
Conversei isso diretamente com a Fabiana, dona da clínica. Fizemos um acordo para que minha mãe permanecesse lá apenas durante o dia. O plano era simples: eu acordaria cedo, tomaria café da manhã com ela, passaríamos um pequeno momento juntos e depois eu a levaria para a clínica antes do trabalho. No final da tarde, antes de anoitecer, eu iria buscá-la novamente para dormirmos em casa.
Inclusive, o contrato que fiz era justamente nesse formato de permanência diária, algo que cabia dentro da minha realidade financeira.
Minha decisão era mantê-la lá apenas de segunda a sexta-feira durante o dia. Os finais de semana seriam totalmente nossos.
E, naquele começo, isso funcionava relativamente bem.
Minha mãe estava tão desorientada que praticamente não compreendia o que estava acontecendo. Eu a ajudava a entrar no carro de manhã, levava até a clínica e ela aceitava tudo sem resistência.
No fim da tarde, quando eu chegava para buscá-la, ela demonstrava felicidade ao me ver.
E repetia quase sempre as mesmas perguntas:
“Ah, você veio me buscar?”
“Quem falou pra você que eu estava aqui?”
“Ligaram pra você?”
“Quantos dias eu fiquei aqui?”
Isso acontecia praticamente todos os dias.
Mas algo começou a mudar com o passar das semanas.
E foi uma mudança inesperada.
A convivência com outras pessoas, a rotina organizada, os estímulos constantes, os cuidados profissionais, tudo aquilo começou a fazer bem para ela. Aos poucos percebi que aquele olhar perdido já não era tão constante. Minha mãe começou a ficar mais desperta, mais ativa, mais participativa.
Continuava confusa.
Ainda trocava datas.
Às vezes confundia meu nome.
Perguntava pelo meu irmão que nunca existiu ou pelo filho que perdeu.
Os delírios continuavam acontecendo.
Mas havia novamente algum brilho nela.
Uma presença maior.
Como se partes da mente dela estivessem sendo despertadas pela convivência diária com outras pessoas.
E isso mexeu muito comigo.
Porque comecei a perceber que, talvez, aquilo que eu inicialmente enxergava como culpa e fracasso estivesse, na verdade, devolvendo um pouco de vida para ela.
Só que essa melhora acabou mudando completamente a história que eu tinha planejado na minha cabeça.

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