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A melhora da minha mãe acabou trazendo um problema que eu não esperava.
Quanto mais lúida ela parecia ficar dentro da clínica, mais ela acreditava que havia recuperado completamente sua autonomia. Na cabeça dela, já não fazia sentido continuar frequentando aquele lugar durante o dia.
Todas as manhãs passaram a ser difíceis.
Eu acordava, preparava o café, tentava manter uma rotina tranquila e, no momento em que falava para ela pentear o cabelo e se arrumar para irmos, começava o sofrimento.
“Por que eu tenho que ir naquele lugar?”
“Aquele lugar é horrível.”
“Só tem velho e gente ruim da cabeça lá.”
“Eu quero ficar na minha casa.”
“Por que você está fazendo isso comigo?”
Mas havia uma acusação que começou a se repetir com frequência e que me machucava profundamente.
Ela dizia:
“Quanto estão te pagando pra me levar lá?”
Na cabeça dela, alguém me dava dinheiro para deixá-la naquela clínica. Ela já não conseguia compreender que era exatamente o contrário. Que eu trabalhava justamente para conseguir pagar aquele cuidado.
Com o passar das semanas, a resistência foi aumentando.
Ela chorava.
Gritava.
Me xingava.
Dizia que eu queria me livrar dela.
Todas as manhãs eu precisava repetir que ela não podia ficar sozinha em casa, que eu precisava trabalhar, que aquilo era para a segurança dela. Em alguns momentos eu dizia até:
“Se eu deixar a senhora aqui sozinha, eu posso até ser preso.”
Mas ela respondia imediatamente:
“Preso nada. Você só quer se livrar de mim.”
Aquilo começou a me destruir emocionalmente.
Chegou um momento em que eu já não conseguia mais organizar minhas manhãs. Passei a me atrasar para o trabalho porque não conseguia convencê-la a entrar no carro. Houve dias em que ela tentou me agredir. Em outros, precisei inventar desculpas, dizer que iríamos comprar alguma coisa, apenas para conseguir levá-la até a clínica.
E existia algo muito doloroso naquela rotina.
Quando chegávamos ao portão da clínica e os cuidadores vinham recebê-la, ela mudava completamente. Ficava mais calma, mais dócil. Descia do carro sem resistência. Mas antes de entrar, olhava para mim com um olhar carregado de raiva e dizia apenas:
“Nojento.”
Era uma palavra simples, mas que atravessava meu dia inteiro.
Então eu passava as horas do trabalho carregando a sensação de que minha mãe estava magoada comigo, de que ela me odiava por deixá-la ali.
Mas no final da tarde, quando eu voltava para buscá-la, tudo parecia apagado da memória dela.
Ela sorria ao me ver.
“Ah, você veio me buscar?”
“Quantos dias eu fiquei aqui?”
Ela já não se lembrava das brigas da manhã. Não lembrava dos gritos, das acusações, do olhar de ódio. Apenas ficava feliz porque eu tinha voltado.
Só que, com o tempo, aquilo se tornou inviável.
A rotina deixou de funcionar.
Eu já não conseguia trabalhar direito, não conseguia manter minha vida minimamente organizada e nem garantir segurança para ela dentro de casa. Foi então que conversei novamente com a Fabiana, dona da clínica, e tomei uma decisão ainda mais difícil.
Minha mãe passou a permanecer lá de segunda a sexta-feira.
Na segunda-feira de manhã eu faço o possível para convencê-la a ir comigo depois do café da manhã. E só volto para buscá-la na sexta-feira, no final da tarde.
Já faz algumas semanas que nossa rotina é assim.
Quando vou buscá-la na sexta, ela nunca sabe quantos dias ficou lá. Apenas demonstra alegria ao voltar comigo para casa.
Passamos o final de semana juntos.
Às vezes ela fica mais recolhida no quarto, mexendo no celular, esperando o horário das refeições, me chamando para perguntas aleatórias ou contando histórias desconexas. Enquanto isso, eu lavo suas roupas, organizo suas coisas, preparo tudo para a semana seguinte.
E então chega a segunda-feira outra vez.
E com ela, a mesma luta.
Contei toda essa rotina para o Paulo naquele plantão.
Ele ouviu tudo em silêncio e depois me disse algo que talvez eu ainda esteja tentando aceitar.
Disse que eu precisava entender que sou uma pessoa sozinha. Que preciso trabalhar, sobreviver e continuar vivendo minha vida. Disse que infelizmente eu não tenho dinheiro para manter cuidadores dentro de casa, nem uma estrutura capaz de oferecer para minha mãe o cuidado integral que ela passou a precisar.
Depois falou algo ainda mais duro:
“Você precisa entender que sua mãe vai piorar.”
Segundo ele, vai chegar um momento em que ela talvez fique acamada, dependente para tudo, precisando de cuidados permanentes. E que, quando isso acontecer, a institucionalização deixará de ser escolha e passará a ser necessidade.
Mas ele insistiu numa coisa que ficou ecoando dentro de mim:
“Isso não significa abandono.”
Significa apenas reconhecer os próprios limites humanos.
Porque, segundo ele, dentro da minha casa, nem eu e nem minha mãe estamos mais conseguindo ter qualidade de vida.
E talvez uma das dores mais difíceis de aceitar seja justamente descobrir que amar alguém nem sempre é suficiente para conseguir cuidar dessa pessoa sozinho.

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