trabalho

Hoje, quando cheguei ao trabalho, acho que estava muito evidente que eu tinha passado a noite praticamente acordado. Meu rosto denuncia quando isso acontece. O cansaço muda meu jeito de trabalhar, muda minha expressão. Eu, que normalmente sou brincalhão, descontraído e converso com todo mundo, fico mais quieto, mais sério, quase carrancudo. Até minha concentração muda.
Quem trabalha comigo percebe.
Em algum momento do plantão, não lembro exatamente se fui eu quem comentou primeiro ou se alguém perguntou, o assunto acabou chegando na minha mãe. Falei que tinha amanhecido acordado, que a insônia tinha vindo forte naquela madrugada e que fiquei pensando nela na clínica.
Foi então que um dos auxiliares de enfermagem que trabalha comigo, o Paulo, parou na minha frente de uma maneira muito séria e disse:
“Quero deixar uma coisa muito clara pra você, Claudinei.”
E começou a conversar comigo de um jeito que ficou marcado na minha cabeça.
Ele disse que antigamente a palavra “asilo” carregava um peso muito cruel. Era quase sinônimo de abandono. Um lugar onde as famílias deixavam os idosos esperando apenas o fim da vida chegar. E que, por causa disso, até hoje existe um estigma muito forte em torno desses lugares.
Mas ele continuou dizendo que os tempos mudaram.
Hoje existem clínicas geriátricas, lares para idosos, residenciais terapêuticos, lugares preparados para cuidar de pessoas que precisam de atenção constante. Disse que, pelo menos na nossa região, muitos desses locais oferecem um cuidado extremamente profissional e humano.
Então ele olhou para mim e falou algo que mexeu profundamente comigo:
“Você não tem que carregar culpa por deixar sua mãe lá.”
Segundo ele, o que eu estava fazendo não era abandono.
Era cuidado.
Era proteção.
Era amor.
Depois começou a falar sobre o Estatuto do Idoso, lembrando que, em algum momento da faculdade, eu mesmo havia estudado tudo aquilo. Disse que o maior risco não era minha mãe estar na clínica. O maior risco era continuar sozinha dentro de casa.
Ele começou a citar situações que eu conhecia bem demais.
As quedas.
A confusão mental.
O risco de fogo.
O risco dela sair sozinha.
As vezes em que eu deixava comida pronta e corria para casa no almoço tentando garantir que ela comesse. As noites em que eu saía rapidamente, mas ficava olhando as câmeras pelo celular com medo de alguma coisa acontecer. As vezes em que ela ia até o portão gritar dizendo que estava abandonada, mesmo eu estando trabalhando e voltando logo depois.
Então ele falou algo duro, mas verdadeiro:
“Qualquer dia podia acontecer alguma tragédia. E você ia carregar isso pro resto da vida.”
Depois acrescentou outra coisa que eu já sabia, mas talvez não quisesse encarar completamente. Disse que, dependendo da situação, até problemas legais poderiam surgir. Uma denúncia de abandono, negligência ou algo parecido.
Mas percebi que o objetivo dele não era me assustar.
Era tentar aliviar o peso que eu vinha carregando sozinho.
Antes de voltar ao trabalho, ele ainda me disse:
“Você precisa começar a aceitar que está fazendo a coisa certa.”
A conversa terminou, o plantão continuou, as pessoas voltaram às suas rotinas, mas aquelas palavras ficaram comigo o dia inteiro.
Porque, racionalmente, eu sei de tudo isso.
Sei que minha mãe precisa de cuidados que eu sozinho já não consigo oferecer.
Sei que a clínica talvez seja realmente o lugar mais seguro para ela neste momento.
Mas o coração nem sempre acompanha a razão na mesma velocidade.
E talvez uma das partes mais difíceis de amar alguém seja justamente entender que cuidar também pode significar deixar ir um pouco.

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