a gata
A gata
Minha mãe veio comigo,
e com ela, veio a gata.
Não chegou só como animal,
chegou como acusação,
como dúvida,
como um ruído constante dentro da casa.
Ela dizia:
— você bateu na gata.
— cadê a gata?
— você fez alguma coisa com ela.
E eu, que nunca levantei a mão
nem para a minha Pequi,
que já partiu e ainda mora em mim,
me via tentando provar o impossível:
minha inocência dentro de um mundo
que já não era mais o mesmo que o meu.
Os meses passaram,
e as histórias mudaram de forma,
mas nunca de peso.
Se a gata sumia,
eu era o culpado.
Depois, não mais:
a gata estava se despedindo,
indo morrer sozinha,
como se os animais soubessem
a hora de partir.
E eu fui ficando no meio disso tudo,
entre o que ela via
e o que nunca existiu.
Um dia, o silêncio.
Deixei minha mãe alguns dias fora,
porque também sou feito de limites,
mesmo quando não queria ser.
E a gata sumiu.
E eu respirei.
Não por maldade,
mas por cansaço.
Uma cruz a menos, pensei,
sem coragem de dizer em voz alta.
Minha mãe voltou,
e não perguntou.
Um, dois, três dias…
e nada.
Pela primeira vez,
o silêncio não doía.
Mas a vida não encerra assim.
Hoje, a gata voltou.
E com ela, voltou tudo aquilo
que eu achei que tinha ido embora.
Mas o mais difícil
não é a volta da gata.
É entender.
Entender que ela nunca teve culpa.
Que minha mãe, perdida em si,
também não.
E que eu,
tentando cuidar,
fui me perdendo aos poucos,
sem perceber.
Porque há um cansaço
que não grita,
mas pesa.
E, ainda assim,
no meio de tudo isso,
eu acabei gostando da gata.
De um jeito torto,
silencioso,
quase escondido.
Quando minha mãe gritava por ela,
eu desejava que não viesse.
Que não reacendesse o que já doía.
Mas quando o silêncio ficava longo demais,
eu esperava.
Sem admitir,
mas esperava.
Agora, minha mãe já não sabe
que a gata existe.
Apagou-se nela
esse pedaço da história.
E justo agora,
que poderia ser simples,
eu desejo que a gata não tivesse voltado.
Mas ela voltou.
E eu fico aqui,
entre o alívio e o incômodo,
entre o afeto e o cansaço,
entre querer distância
e sentir falta.
Porque, no fim,
a gata foi a única
que não se perdeu.
Minha mãe se desfaz em lembranças.
Eu me gasto tentando sustentar.
E a gata…
a gata apenas vive.
Sem culpa,
sem intenção,
sem saber
que carrega em si
tudo aquilo
que eu já não consigo mais carregar.
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