gata (livro)

A gata, eu e ela
Minha mãe veio morar comigo — e, com ela, veio também a gata.
Não foi uma chegada leve. Houve um tempo de adaptação que mais parecia um campo em guerra silenciosa. Nada era dito com clareza, mas tudo se manifestava em tensão. E, no meio disso, a gata ganhou um papel que nunca lhe pertenceu.
De alguma forma, minha mãe passou a acreditar que eu a maltratava. Não a ela — à gata. Dizia que eu batia, que eu espancava, que eu jogava água. Dizia com convicção, como quem testemunhou o que nunca aconteceu.
— Cadê a gata? Você bateu nela.
E fazia escândalo.
Eu nunca fiz isso. Nunca fiz isso nem com a Pequi — minha cachorra, que já se foi e ainda mora em mim como ausência. Eu não batia na Pequi, não levantava a voz, não jogava água. Por que faria com a gata?
Mas, para minha mãe, não era pergunta. Era certeza.
Isso começou em julho. E os meses vieram, um atrás do outro, como se o tempo não ensinasse nada: agosto, setembro, outubro… até que percebi que não se tratava de entender — porque ela não estava mais no lugar onde se entende.
As histórias mudavam, mas a acusação permanecia.
Se a gata sumia, eu era o culpado: — Você matou. Você chutou. Você sumiu com ela.
Depois, a lógica mudou: — A gata, quando vai morrer, se despede dos donos e some.
E, assim, cada desaparecimento virava um adeus definitivo.
Não havia mais espaço para explicação. Só versões.
Um dia, deixei minha mãe alguns dias no asilo. Foi necessário. Não por abandono, mas por sobrevivência. Minha.
E, nesse intervalo, a gata sumiu.
Eu confesso: senti alívio.
Não pela ausência da gata em si, mas pelo silêncio que veio junto com ela. Pela suspensão de uma acusação que já não precisava ser feita. Era como se um peso tivesse sido retirado sem aviso.
Quando minha mãe voltou, não perguntou da gata. Um dia, dois, três… nada.
E eu pensei, em segredo: talvez tenha acabado.
Talvez uma cruz a menos no meu caminho.
Mas hoje, a gata miou.
A vida, às vezes, não encerra ciclos — ela os reabre.
A gata apareceu, como se nunca tivesse ido embora, como se não carregasse nenhum significado além de ser, simplesmente, uma gata.
Mas, aqui dentro, ela não é só isso.
Ela é o ponto onde tudo se cruza: a confusão da minha mãe, a minha exaustão, as acusações que não cessam, e esse cansaço que, às vezes, me faz desejar silêncio a qualquer custo.
E então eu percebo, com um certo peso na consciência:
não é sobre a gata.
Nunca foi.
É sobre o quanto eu estou cansado de sustentar uma realidade que já não é compartilhada entre nós dois.
Ela vive em uma versão do mundo onde eu machuco. Eu vivo em outra, onde tento cuidar.
E, entre essas duas versões, existe uma casa, uma rotina, e uma gata que insiste em voltar.
Mas o pior de tudo não era a gata aparecer ou desaparecer.

Era entender.

Entender que a gata nunca teve culpa.Que minha mãe, perdida dentro das próprias confusões, também não tinha.E que, no meio disso tudo, quem sangrava em silêncio era eu.

Demorei para admitir isso.

Porque existe uma culpa estranha em se reconhecer como vítima quando se está cuidando de alguém que amamos. Parece injusto. Parece egoísmo. Mas não é.

Eu fui sendo atravessado pelos dias, pelas acusações, pelos gritos, pelas histórias que nunca aconteceram — e, sem perceber, fui me moldando a isso. Resistindo como dava. Calando quando não adiantava falar. Engolindo o cansaço como quem não tem escolha.

E, no meio desse cenário torto, a gata ficou.

Inocente. Sempre inocente.

E foi aí que algo ainda mais confuso aconteceu:eu comecei a gostar dela.

De um jeito estranho, contraditório, quase silencioso.

Mesmo quando eu desejava que ela sumisse — para que, com ela, sumissem também as acusações — havia uma parte de mim que esperava ouvir o miado de novo. Que prestava atenção nos passos leves pela casa. Que se acostumou com aquela presença discreta, quase como um respiro entre um conflito e outro.

Quando minha mãe gritava chamando pela gata, eu desejava o oposto:que ela não viesse.que não desse motivo.que não reacendesse tudo outra vez.

Mas, quando o silêncio se prolongava demais, havia um incômodo.Uma espera que eu não admitia.

Era como se a gata tivesse deixado de ser problema e tivesse se tornado companhia — mesmo sem querer.

E agora…

agora minha mãe já não sabe mais que a gata existe.A memória dela apagou esse vínculo como quem fecha uma porta que não será mais aberta.

E, justamente agora, a gata some.

E eu, sozinho com esse silêncio, penso:

talvez fosse melhor que ela não voltasse.

Talvez fosse mais fácil assim.

Sem o risco de reacender o que já me desgastou tanto.Sem a possibilidade de voltar ao mesmo ciclo.

Mas hoje, a gata voltou.

E, com ela, voltou também essa contradição que eu não sei resolver:

o alívio e o incômodo,o afeto e o cansaço,a vontade de distância e a estranha sensação de presença necessária.

Porque, no fim, talvez a gata tenha sido a única que permaneceu inteira nessa história.

Minha mãe se perdeu em si mesma.Eu me desgastei tentando segurar o que já não se sustenta.

E a gata…

a gata apenas foi.

Sumiu quando quis, voltou quando deu,sem culpa, sem intenção, sem peso.

Talvez seja isso que mais me desarma.

Ela não carrega nada —e, ainda assim, carrega tudo.

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