Campinas

Quando fui convidado para assumir a diretoria de saúde de Campinas, senti que a vida estava me levando para um caminho importante. Deixei Sorocaba para trás e mergulhei completamente naquela nova fase. Era uma cidade maior, uma responsabilidade enorme, decisões difíceis todos os dias, cobranças, reuniões, problemas urgentes surgindo a todo instante. Vivi intensamente aqueles anos. Permaneci ali por aproximadamente quatro anos, tentando dar conta daquilo que haviam confiado em minhas mãos.
Mas, enquanto minha vida profissional parecia avançar, a vida pessoal começava silenciosamente a me chamar de volta.
Minha mãe continuava morando sozinha em Capela do Alto. No começo, os sinais vieram discretos, quase imperceptíveis. Pequenos esquecimentos, histórias confusas, atitudes que pareciam apenas distrações da idade. Coisas que qualquer filho tenta normalizar para não precisar encarar aquilo que, no fundo, já começa a assustar.
Só que o tempo foi mostrando que não era apenas distração.
Os vizinhos começaram a me ligar com frequência.
— Claudinei, sua mãe não tá muito bem…
Outras vezes diziam:
— Acho que ela não pode mais ficar sozinha.
Cada ligação apertava meu peito de um jeito diferente. E cada visita que eu fazia até Capela do Alto era um choque maior que o anterior.
Teve dias em que encontrei os portões da casa completamente abertos. Minha mãe vulnerável dentro da própria casa, sem qualquer noção do perigo. Em algumas ocasiões ela estava nua no meio da sala, totalmente desorientada, como alguém perdida dentro da própria mente. Em outras vezes, passava horas sem comer, entrando em crises de hipoglicemia, tomando remédios sem controle, sem saber direito o que já havia tomado ou deixado de tomar.
Aos poucos fui percebendo aquilo que eu tentava evitar aceitar.
Minha mãe já não conseguia mais cuidar dela mesma.
E existe uma dor muito difícil de explicar quando um filho começa a perceber que a pessoa que um dia cuidou de tudo agora já não consegue cuidar nem da própria existência.
Foi então que precisei tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida.
Deixei Campinas e voltei para Sorocaba.
Não havia mais como continuar vivendo longe, trabalhando o dia inteiro com o telefone na mão e o coração apertado, imaginando que a qualquer momento alguém pudesse me ligar dizendo que havia acontecido uma tragédia.
Trouxe minha mãe para morar comigo.
E aquela mudança não foi apenas uma troca de cidade. Foi uma mudança completa de vida.
Minha casa precisou ser adaptada para recebê-la. Organizei quarto, móveis, rotina, espaços. Ao mesmo tempo em que trazia minha mudança de Campinas, trazia também uma nova responsabilidade que mudaria completamente meus dias, minhas noites, minha paz e até minha forma de enxergar a vida.
Começava ali um reencontro entre mãe e filho.
Mas em circunstâncias muito diferentes daquelas que a vida havia nos apresentado anos atrás.
No início, minha mãe aceitou bem a mudança. Veio até contente. Olhava a casa nova com curiosidade, elogiava o quarto preparado para ela, caminhava pelos cômodos tentando reconhecer aquele novo ambiente como seu.
Lembro dela dizendo:
— Ficou bonito aqui, fio…
E aquilo me dava esperança.
Durante alguns dias tive a impressão de que tudo poderia funcionar. Achei que ela iria se adaptar, que conseguiríamos construir uma rotina tranquila dentro das limitações que a doença começava a impor.
Mas eu não imaginava o tamanho do impacto que aquela mudança causaria nela.
A demência pareceu acelerar diante dos meus olhos.
Minha mãe começou a ficar cada vez mais confusa, nervosa e inquieta. Chorava por qualquer coisa. Passava boa parte do dia repetindo:
— Eu quero ir embora… — Me leva pra minha casa… — Eu não pertenço aqui…
Só que já não existia mais a possibilidade de voltar atrás.
Ela havia se tornado totalmente dependente.
O médico que a acompanhava me explicou algo que nunca esqueci. Disse que, para um idoso, principalmente alguém já fragilizado mentalmente, perder o ambiente que reconhece como seu mundo pode ser devastador.
— A casa é a memória viva da pessoa — ele me disse certa vez. — Quando ela perde isso, muitas vezes a doença acelera.
E foi exatamente o que aconteceu.
Minha vida se transformou completamente.
Os dias passaram a ser marcados por gritos, choro, confusão e desespero. Minha mãe acordava querendo fugir. Pegava bolsa, procurava roupas, dizia que precisava voltar para casa antes que roubassem as coisas dela.
Como ainda conseguia mexer no telefone, ligava para familiares pedindo socorro.
— Vem me buscar… — O Claudinei não deixa eu ir embora… — Eu quero voltar pra minha casa…
E eu precisava repetir, dezenas de vezes por dia:
— Mãe… a senhora não pode mais morar sozinha… — Eu tô cuidando da senhora… — É pro seu bem…
Mas ela já não conseguia compreender.
Era como tentar convencer alguém que estava vivendo em outra realidade.
E foi assim que o caos começou dentro da nossa casa.
O silêncio desapareceu.
A tranquilidade desapareceu.
Minha vida passou a girar em torno de vigiar, proteger, acalmar, impedir acidentes e tentar sobreviver emocionalmente enquanto assistia minha mãe se afastar, aos poucos, da realidade.
Levei ela a médicos, consultas, avaliações, tentando encontrar alguma maneira de aliviar aquele sofrimento. Vieram os remédios para ansiedade, agitação, delírios, confusão mental.
Mas ela não aceitava tomar.
Eu triturava comprimidos, misturava no suco, escondia na comida, tentava transformar aquilo numa tarefa invisível para evitar confronto.
Só que, de alguma forma, ela percebia.
Empurrava o prato.
Recusava a comida.
Fechava a boca.
E às vezes me olhava desconfiada, dizendo:
— Você quer me envenenar.
Depois pegava o telefone e ligava para familiares:
— O Claudinei tá colocando veneno na minha comida…
Aquilo me destruía.
Porque eu estava sozinho tentando mantê-la viva, tentando protegê-la dela mesma, e ao mesmo tempo sendo transformado pela doença em alguém perigoso dentro da cabeça dela.
O desgaste começou a acabar comigo.
Passei a não dormir mais direito. Mesmo quando minha mãe finalmente silenciava, minha mente continuava acordada.
Eu me deitava, fechava os olhos e ainda ouvia os gritos dela ecoando dentro da minha cabeça.
Muitas vezes acordava assustado ouvindo claramente:
— Filho… cadê a gata?
Ou então:
— Claudinei!
Eu levantava desesperado, corria até o quarto dela… e encontrava minha mãe dormindo profundamente.
Era meu cérebro que já não desligava mais.
Minha mente permanecia em estado de alerta o tempo inteiro, como se uma tragédia pudesse acontecer a qualquer segundo.
Até que chegou um momento em que comecei a fugir da minha própria casa.
Nos dias de folga, eu pegava um pano grosso que tinha guardado, colocava no carro e ia para o Parque das Águas, em Sorocaba. Dizia para minha mãe:
— Vou trabalhar, mãe.
Mas eu não ia trabalhar.
Eu só precisava respirar longe daquele sofrimento por algumas horas.
Estendia o pano na grama e ficava ali deitado olhando o céu, vendo o tempo passar, ouvindo o barulho das árvores, tentando existir um pouco sem gritos, sem tensão, sem medo.
Muitas vezes chorando sozinho.
Esperava anoitecer para voltar e recomeçar tudo outra vez.
Preparar comida.
Dar remédio.
Vigiar.
Acender luz.
Apagar luz.
Responder perguntas repetidas.
Tentar acalmar crises.
Eu já não ia naquele parque para descansar.
Eu ia porque não suportava mais permanecer dentro da minha própria casa.
Outra coisa que começou a me consumir emocionalmente foi a relação da minha mãe com o celular.
Mesmo perto dos oitenta anos, ela sempre foi extremamente esperta com tecnologia. Mexia no WhatsApp, YouTube, fazia chamadas de vídeo, mandava áudios, escrevia mensagens. Muitas vezes melhor do que gente jovem.
Só que o celular acabou se tornando também uma porta aberta para os delírios da doença.
Ela encontrou um homem na internet, alguém que aparecia cantando um jingle repetitivo em vídeos curtos. Hoje nem lembro mais quem era. Mas minha mãe passava horas ouvindo aquilo no viva-voz, numa altura absurda.
O mesmo trecho.
De novo.
De novo.
De novo.
Durante o dia inteiro.
Aquilo começou a me enlouquecer lentamente.
A repetição invadia a casa inteira. Parecia entrar pelas paredes e ficar presa dentro da minha cabeça.
Quando eu tentava abaixar o volume, ela se irritava imediatamente.
— Não mexe! — Ele tá falando comigo!
E então os delírios começaram a crescer.
Minha mãe passou a acreditar que aquele homem era amigo pessoal dela. Dizia que conversava com ela pelo celular, que queria ajudá-la, que mandaria dinheiro.
Depois as histórias começaram a mudar.
Num dia ela dizia:
— Ele é filho do Bolsonaro.
No outro:
— Não… ele é filho do Ratinho.
E depois:
— Ele é filho do Lula.
Ela acreditava profundamente naquilo tudo.
Não existia lógica capaz de trazê-la de volta.
Quanto mais eu tentava explicar, mais nervosa ela ficava.
Era como assistir alguém construindo um mundo paralelo diante dos meus olhos.
E eu não conseguia entrar naquele mundo para salvá-la.
Mesmo em meio a toda aquela confusão, existia algo que ainda parecia manter minha mãe ligada à vida: a igreja.
Aquilo permanecia intacto dentro dela.
Então eu fazia questão de levá-la nos cultos. Terça, quinta e sábado. Eu chegava do trabalho, ajudava ela a se arrumar e a levava até a Congregação.
Ela entrava devagar, segurando a bolsa junto ao peito.
E, curiosamente, eram os únicos momentos em que eu via alguma paz no rosto dela.
Quando o culto terminava, ela voltava mais calma.
Mais tranquila.
Como se alguma parte da alma dela ainda reconhecesse aquele lugar como abrigo.
Mas os delírios continuavam crescendo.
Um dia ela começou a me acusar de ter roubado um dinheiro enviado por aquele homem dos vídeos.
— O que você fez com o dinheiro que ele mandou pra mim?
Ela perguntava chorando, desesperada.
E eu via que ela realmente acreditava naquilo.
Não era mentira consciente.
Era a doença reorganizando a realidade dentro da cabeça dela.
Com o tempo, as histórias ficaram ainda mais absurdas e ao mesmo tempo profundamente tristes.
Um dia ela me contou, emocionada:
— Filho… o Ratinho ligou pra mim. Ele tava muito triste.
Depois continuou:
— Eu falei pra ele ir na Congregação Cristã do Brasil. Falei que Deus ia ajudar ele.
E então concluía feliz:
— Agora ele tá contente… e vai mandar dinheiro pra mim.
No dia seguinte mudavam apenas os personagens.
— Fio… o Bolsonaro me ligou.
Depois:
— Hoje foi o Lula.
As histórias eram sempre parecidas. Todos estavam tristes. Todos precisavam de oração. Todos tinham sido aconselhados por ela a buscar Deus. E depois todos queriam recompensá-la com dinheiro.
Aquilo começou a me destruir psicologicamente.
Muitas vezes eu dizia para mim mesmo:
“Eu acho que estou ficando mais louco do que ela.”
Porque eu já não conseguia mais separar minha vida daquela realidade sufocante criada pela doença.
Até que um dia ela surtou completamente.
Como moro perto do aeroporto, os aviões fazem parte da rotina do bairro. Mas naquele dia minha mãe colocou na cabeça que um presidente viria almoçar em casa. Hoje nem lembro mais se era Lula ou Bolsonaro. Na mente dela aquilo mudava rapidamente.
Cada avião que passava fazia ela olhar assustada para o céu.
— Tá ouvindo? É o avião dele.
Depois vinha a preocupação:
— Ai meu Deus… onde ele vai estacionar?
E eu, já emocionalmente destruído, às vezes entrava na fantasia dela apenas para evitar mais sofrimento.
Então respondia:
— Tem aeroporto aqui perto, mãe. Ele estaciona ali.
Ela aceitava aquilo imediatamente.
Depois perguntava:
— Mas o que nós vamos servir pra ele comer?
E ela respondia quase indignada:
— Fio… ele é o presidente. É ele que vai trazer a comida pra nós. — Vai trazer o banquete… — E vai trazer o dinheiro também…
Depois sorria sozinha, perdida dentro daquele mundo criado pela doença:
— Eu nem sei o que vou fazer com tanto dinheiro…
E eu olhava para minha mãe dizendo aquelas coisas, completamente distante da realidade, enquanto dentro de mim crescia uma sensação devastadora de impotência.
Porque aos poucos eu já começava a entender uma das dores mais cruéis da vida:
a de permanecer ao lado de alguém que continua fisicamente presente, mas que, lentamente, começa a desaparecer diante dos nossos olhos.

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