centrifuga
Era noite já. A casa em silêncio, mas não totalmente. No fundo, a centrífuga trabalhava firme, girando os cobertores recém-lavados. Um barulho pesado, ritmado, quase hipnótico… como se fosse o coração da casa batendo mais forte naquele momento.
— Viu, filho?
— Que foi, mãe?
— Eu quero te falar uma coisa… deixar bem claro pra você.
— Pode falar.
Ela ajeitou o corpo na cadeira, olhou pro nada por um segundo e soltou:
— Às vezes você me vê saindo, né… indo pra lá, pra cá… mas eu quero que você saiba: nenhum homem põe a mão em mim.
A centrífuga acelerou, o som crescendo, ocupando o espaço entre eles.
— Fica tranquila, mãe…
— Não… eu quero que você entenda direito — ela insistiu. — Eu não quero casar. Não deixo homem se aproximar. Lá onde eu vou, eu fico de um lado… eles ficam do outro.
O barulho continuava, firme, como se acompanhasse cada palavra.
Ele ficou quieto por um instante, depois respondeu com calma:
— Eu sei. Eu confio na senhora.
Ela virou o rosto, encarou ele.
— Tem certeza?
— Tenho. Pode ficar em paz.
Ela soltou o ar devagar.
— Eu tô em paz… só queria que você também ficasse.
O silêncio veio, mas não vazio. Preenchido pelo giro constante da máquina.
Depois de um tempo, ele quebrou o silêncio:
— O que cê tá fazendo?
Ela respondeu quase no mesmo tom, simples, como se aquilo também fosse parte de tudo:
— Tô torcendo o cobertor.
A centrífuga seguiu rodando, arrancando a água, enquanto ali dentro, devagar, outras coisas também iam sendo ajeitadas.
— Eu tô, mãe. De verdade. Eu sei que a senhora não faz nada de errado.
— Não faço mesmo.
— Eu sei.
— Então tá bom… durma com Deus.
— A senhora também. Fica em paz.
E o barulho continuou, como se dissesse que a vida, mesmo pesada às vezes, sempre encontra um jeito de seguir girando.
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