decisões

Eu demorei para entender que o dia começa antes da gente levantar da cama.
Não no relógio. Nem no barulho da rua. O dia começa naquele instante silencioso em que os olhos abrem, mas o corpo ainda não decidiu se acompanha. Fico olhando o teto do quarto, imóvel, como se ainda existisse a chance de não entrar no mundo. Às vezes são poucos minutos. Às vezes mais. Não é preguiça. É como se eu precisasse reunir forças antes de aceitar que tudo vai começar outra vez.
E começa.
A água do café ferve. A claridade atravessa a janela. O cachorro do vizinho late em algum lugar da rua. A vida vai andando mesmo quando a gente ainda está parado por dentro.
Durante muito tempo, achei que viver fosse simplesmente isso: tomar pequenas decisões automáticas. Escolher a roupa, decidir o almoço, resolver uma conta, adiar outra. Coisas comuns. Quase invisíveis. A gente faz sem pensar, como quem respira.
Só que, dentro da minha casa, as escolhas deixaram de ser simples há quase um ano.
Minha mãe veio morar comigo.
No começo, eu ainda tentava acreditar que era só uma fase. Pequenos esquecimentos acontecem com qualquer pessoa, eu dizia a mim mesmo. Ela repetia uma história duas vezes. Depois três. Perguntava onde estava uma coisa que segurava nas próprias mãos. Confundia horários. Às vezes me chamava pelo nome de alguém que já tinha morrido fazia décadas.
A gente tenta explicar enquanto ainda dá tempo de explicar.
Mas a doença vai chegando devagar, como uma maré silenciosa. Não invade de uma vez. Vai tomando espaço aos poucos. Primeiro uma distração. Depois uma confusão. Depois um vazio no olhar que dura segundos longos demais.
Até o dia em que você percebe que aquela pessoa que conduziu a própria vida durante tantos anos já não consegue mais encontrar o caminho sozinha.
Hoje, minha mãe depende de mim para quase tudo.
Tem manhãs em que ela acorda bem. Senta à mesa e conversa comigo como antigamente. Lembra do nome de vizinhos da infância, de festas antigas, de receitas que nunca escreveu em papel nenhum. Ri de coisas pequenas. Nessas horas, eu quase esqueço.
Quase.
Porque basta um instante para ela se perder outra vez.
Às vezes para no meio da sala olhando em volta, como se estivesse dentro da casa errada. Outras vezes pergunta onde está a mãe dela. E a mãe dela morreu há muitos anos. Há dias em que repete a mesma pergunta dez vezes seguidas, sempre com a mesma angústia de quem escuta a resposta pela primeira vez.
E existem os dias mais difíceis.
Os dias em que ela amanhece triste sem saber por quê.
Uma tristeza funda, sem nome, que ocupa a casa inteira.
Nesses dias, antes mesmo de sair da cama, eu já sei que precisarei conduzir tudo sozinho. O banho. A comida. Os horários. As conversas. As medicações. O humor dela. O medo dela. O rumo inteiro do dia.
Outro dia assisti a um vídeo sobre barcos.
Não era nada extraordinário. Dois barcos num lago. Um deles seguia normalmente. O outro parecia ir em direção a um espaço vazio, sem reação, sem ajuste de rota. E então acontecia a batida.
O que ficou em mim não foi a imagem do acidente.
Foi a sensação.
Porque entendi, na mesma hora, que era exatamente assim que eu me sentia.
Como se eu estivesse conduzindo o barco da minha mãe enquanto ela já não consegue mais enxergar o lago inteiro. E, às vezes, o barco dela bate nesse vazio criado pelas escolhas que ela perdeu a capacidade de fazer.
Não por vontade.
Não por descuido.
Mas porque a direção simplesmente deixou de existir dentro dela.
E isso machuca de um jeito difícil de explicar.
Existe algo profundamente doloroso em decidir pela pessoa que um dia decidiu tudo por você.
Eu decido a hora que ela acorda. O que ela vai comer. Quando pode sair. O que pode fazer sozinha. O que já não pode mais.
Até as coisas pequenas carregam peso.
As medicações, principalmente.
Tem dias em que ela toma sem resistência. Olha o comprimido desconfiada, pergunta para que serve, mas aceita.
Em outros, recusa como uma criança assustada.
Diz que não precisa daquilo. Diz que está boa. Às vezes esquece que já tomou e quer tomar de novo. Outras vezes esquece completamente que precisa tomar.
E eu fico preso nesse lugar estreito entre respeitar o que ela sente e impedir que ela se machuque.
Porque quase sempre a decisão sobra para mim.
Mesmo quando ela me olha sem entender.
Mesmo quando parece achar que sou eu quem está errado.
O cuidado tem um peso que ninguém vê de fora.
Ele vem misturado com culpa, cansaço, amor, irritação, tristeza. Tudo junto. Tudo ao mesmo tempo.
E existe ainda um silêncio maior crescendo atrás disso tudo.
Eu não tenho filhos.
Não tenho alguém que naturalmente ocuparia esse lugar depois de mim. Fora minha mãe, que provavelmente partirá antes, não existe uma rede clara esperando caso um dia eu também deixe de conseguir escolher sozinho.
E essa ideia começou a me visitar.
Não como desespero.
Mas como consciência.
Quem vai decidir por mim quando eu não puder mais decidir?
Quem vai escolher meus remédios, minhas rotinas, meus limites? Quem vai perceber o que ainda existe de mim caso minha memória também comece a falhar?
Essa pergunta não faz escândalo.
Ela apenas permanece.
Às vezes sentada comigo no silêncio da cozinha.
Às vezes deitada ao meu lado enquanto encaro o teto antes de levantar da cama.
E talvez por causa dela eu tenha começado a pensar tanto nas escolhas da minha própria vida.
Nas certas.
Nas erradas.
Nas que eu faria diferente se pudesse voltar.
Às vezes revisito cenas antigas como quem anda por corredores abandonados. Imagino caminhos que não tomei. Pessoas que talvez nunca tivesse conhecido. Lugares onde nunca estive.
Mas esse pensamento sempre esbarra na mesma coisa.
Se eu tivesse escolhido diferente, muita gente que hoje faz parte da minha história talvez nunca tivesse chegado até mim.
E isso pesa.
Outro dia uma amiga me confessou que, se pudesse voltar no tempo, apagaria uma decisão importante da própria vida. Falou com sinceridade dura, sem tentar enfeitar o arrependimento. Mesmo sabendo que, junto daquela escolha, desapareceriam também pessoas fundamentais da história dela.
Eu ouvi em silêncio.
E percebi que não sei se conseguiria fazer o mesmo.
Não porque tudo deu certo.
Muita coisa não deu.
Mas porque até os erros trouxeram encontros. Até as escolhas tortas deixaram pessoas pelo caminho. Afetos. Histórias. Rostos que hoje fazem parte de quem eu sou.
E talvez seja isso que torna a vida impossível de reorganizar depois.
As consequências criam raízes.
Hoje eu sigo aqui.
Acordando todos os dias antes mesmo de sair da cama.
Escolhendo por ela.
Tentando não me perder de mim mesmo enquanto conduzo o barco de alguém que já não consegue mais segurar o próprio rumo.
E convivendo com essa pergunta silenciosa que nunca vai embora completamente:
quando chegar a minha vez de não conseguir escolher…
quem vai escolher por mim?

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