redação
Há dias em que a vida passa por nós sem deixar vestígios. Dias comuns, secos, repetidos. Mas existem outros em que algo muda no ar, mesmo que quase nada aconteça de extraordinário. E hoje foi um desses dias.
Eu escrevo muitas coisas. Às vezes são pensamentos dispersos, fragmentos soltos, observações sem rumo aparente. Coisas que nascem do trânsito da vida, do movimento das pessoas, das vozes ao redor, dos silêncios também. Tenho o hábito de observar o ambiente como quem tenta escutar aquilo que não foi dito. Percebo gestos, olhares, pequenos acontecimentos. É como se o mundo, de alguma forma, se traduzisse dentro de mim.
Hoje, por exemplo, limparam a mesa onde eu estava. Naquele instante achei que fosse um sinal de encerramento, um convite silencioso para ir embora. Pensei: “acho que chegou a hora de partir”. Mas depois percebi outra coisa. A mesa não estava sendo limpa para que eu saísse. Estava sendo preparada para que eu continuasse. Para que eu permanecesse ali mais um pouco. E fiquei.
Às vezes a vida muda completamente de significado em detalhes quase invisíveis.
Do meu lado estavam três pessoas que eu não conhecia. Começamos a conversar sem intenção alguma. Rimos, falamos sobre a vida, trocamos pequenas histórias. Por algumas horas deixamos de ser estranhos. E existe algo profundamente humano nisso: pessoas que nunca se viram dividindo leveza como se fossem velhos conhecidos.
Então aconteceu algo inesperado.
Duas crianças me entregaram uma carta. Disseram que era uma mensagem do Deus em que acreditam. Ainda não li. Guardei para abrir apenas em casa, no silêncio, talvez porque algumas coisas mereçam um momento inteiro só para elas.
Confesso que espero que seja uma mensagem boa. Tenho andado cansado das notícias ruins, dos pesos acumulados, das durezas que a vida às vezes insiste em colocar diante de nós. E talvez por isso aquele gesto tenha me tocado tanto. Crianças carregam uma pureza que o mundo adulto quase sempre perde pelo caminho. Elas ainda oferecem as coisas sem cálculo, sem defesa, sem interesse escondido.
Hoje eu me lembrei de uma frase que certa vez disse a uma amiga:
“Vida, me surpreenda, mas seja agradável comigo.”
E acho que hoje ela foi.
Não através de grandes acontecimentos, nem de milagres barulhentos. Mas através da delicadeza. De uma mesa limpa que significava permanência. De risadas compartilhadas entre desconhecidos. E de duas crianças que deixaram em minhas mãos uma carta fechada, como quem entrega um pequeno pedaço de esperança.
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