carta

Eu estava sentado em um bar qualquer, desses onde a noite vai passando devagar entre mesas ocupadas, televisão ligada no canto e conversas misturadas ao som dos copos. Era um lugar simples, comum, daqueles em que quase nada inesperado acontece.
Mas naquela noite aconteceu.
Em uma mesa próxima havia algumas crianças. Enquanto os adultos conversavam distraídos, elas estavam concentradas em folhas de papel arrancadas de caderno, escrevendo com canetas coloridas e desenhando pequenos corações pelos cantos das páginas. Havia um silêncio curioso nelas. Uma dedicação sincera.
Aquilo chamou minha atenção.
Fiquei observando por alguns minutos até me aproximar e perguntar:
— O que vocês estão escrevendo?
Uma delas respondeu rapidamente:
— Cartas.
Sorri e perguntei de novo:
— Cartas pra quem?
Então veio a resposta que me atravessou de um jeito inesperado:
— Pra alguém que a gente encontrar na rua.
Naquele instante o bar pareceu diminuir de tamanho. Enquanto tanta gente passa umas pelas outras sem sequer se enxergar, aquelas crianças estavam escrevendo mensagens para desconhecidos. Sem saber quem seriam. Sem esperar nada em troca.
Pedi para ler as cartas.
A primeira começava assim:
“Deus é meu pastor e nada me faltará.
Se você crê em Deus saiba que Deus sempre vai estar com você todos os dias e ele te ama muito.
Se você precisar de alguma coisa, tipo alguém da sua família no hospital, eu rezo muito que Deus vai te ajudar em cada noite.
Deus te ama ♡
Uma boa noite ♡
Se você não acredita em Deus começa a acreditar, eu sei que é pouco mas é de coração.”
Peguei outra folha, escrita com letras ainda mais apertadas e cercada de pequenos desenhos de coração. Nela estava escrito:
“Oi, se você crê em Deus saiba que ele sempre vai estar com você todos os dias e que ele te ama.
Se você tiver precisando de alguma ajuda, como alguém da sua família no hospital ou alguma coisa assim, leia esta carta.
Mais uma coisa: Deus te ama.
Deus vai te ajudar.
Se você não acredita em Deus começa a acreditar porque ele vai mudar muita coisa na sua vida.
Eu sei que é pouco mas é de coração.”
Fiquei segurando aquelas folhas simples por alguns segundos. Papel comum. Letras infantis. Erros de português. Frases repetidas. Mas havia uma sinceridade tão grande ali que tudo isso perdia importância.
Talvez aquelas crianças nunca saibam o tamanho do que fizeram naquela noite. Talvez as cartas nem cheguem a alguém que realmente precise delas. Ou talvez cheguem justamente na hora certa, no bolso certo, no coração certo.
Mas enquanto eu voltava para minha mesa, uma coisa já tinha acontecido: sem perceber, elas tinham entregue a primeira carta para mim.

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