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Sabedoria

Hoje cheguei em casa, e ela me perguntou: — Vicente, tô preocupada… o fio ainda não chegou. Será que ele volta pra casa hoje? Respondi: — Volta, sim. Logo ele tá aqui. — Tô preocupada… será que aconteceu alguma coisa? — Não, fica tranquila. Logo ele chega, tá trabalhando… Fui até o quarto e voltei. Ela disse: — Glória a Deus que você chegou, eu tava preocupada. Perguntou: — Vai dormir aqui em casa ou na sua? — Hoje durmo com a senhora, na sua casa. Ela sorriu e disse, aliviada: — Glória a Deus! Foi a primeira vez que ela não me reconheceu...

Um papo com Danilo

Isso foi uma indireta? Foi, sim. Não pode? Pode… mas exige coragem. Você está solteiro? Estou solteiro. E distante. Distante de quê? De quase tudo que um dia fez sentido. Qual é a sua idade? A que você gostaria que eu tivesse? A sua. Eu queria ter a sua, mas carrego a minha. E qual é a minha? Não sei ao certo. Só sei que é menor que a minha. E ser mais novo tem alguma vantagem? Talvez o tempo. Quanto tempo você precisa? Não muito. Desde que seja bem vivido. Se pudesse mudar duas coisas hoje, por mágica, quais seriam? Traria de volta a lucidez da minha mãe, perdida no labirinto do Alzheimer. E a outra? Restauraria meu corpo ao que era aos vinte e cinco anos. Mas manteria a mente de agora. Eu entendo. Porque pediria as mesmas coisas. O tempo que vivi é maior do que o tempo que ainda tenho. Lucidez. Aquela idade. E saúde para nossas mães. Afinal, quantos anos você tem? Trinta e dois. Dizem que é uma das melhores idades da vida. Para mim, foi o auge. E você, o que mudaria na sua vida? Duas...

Sem aviso

Do nada vem… Brota de dentro uma inspiração. Às vezes é intuição. Às vezes carência. Talvez demência, ou apenas a falta do que fazer. Também vem a necessidade de criar, de expressar ideias, de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Mesmo que não seja filosoficamente musical, nem intelectual. Algo que apenas preencha as lacunas dessa alma desesperada por respostas, que se enche de perguntas e não espera por compreensão.

Translação

Eu deambulo claudicantemente. Cada passo torto é uma tentativa de acerto. Sempre erro. E cada erro é uma lição que não aprendo. Tenho insistido tanto que me encontro exausto na tentativa de completar um ciclo novo. E, a cada rodada, a cada volta supostamente concluída, entre translações e rotações, percebo: tudo — e todos — permanecem no mesmo lugar. É uma análise pretensiosa, talvez. Sobre a vida e sobre as pessoas. Tão distintas entre si, mas guiadas pelo mesmo querer: um saber imposto como verdade e mercadoria. Uma realidade dita absoluta, incontundente, que insiste em me acompanhar apenas para provar o quanto estou errado sobre tudo, sobre todos e, sobretudo, sobre mim mesmo.

Resíduo

Sobrou eu, como resíduo. Sobrou apenas eu. Converso comigo. Falo do passado, do futuro do passado. Falo de pessoas e também de expectativas. Hoje, porém, minha expectativa se arrasta, limitada, quase sem fôlego. E, ainda assim, há o que dizer. Porque, enquanto existimos, existe em nós algo que tenta fugir. Eu sempre fugi. E agora estou aqui. Uma fuga só minha, invisível aos olhos de todos. Ao meu redor, pensam que sabem quem eu sou. Não sabem. Não conhecem minha realidade. Nem mesmo eu sei exatamente quem sou. Mas sei que sou alguém. E que, mesmo em resto, mesmo em silêncio, há em mim algum valor.

Conveniencia

Se você sofrer um acidente na rua, nem me conte. Se quer ser inconveniente, seja longe de mim. Hoje é dia de chuva, depois de um calor insuportável. Então não me atormente. Não seja intolerável. Minha paciência do ano se esgotou. Eu saí para me divertir, não para sorrir forçado. Meu coração não é de aço. Então, em poucas palavras, me entenda: você não se encontra na minha página de amigos. Não me toque. Se toque e me deixe em paz. Quero ser conveniência, mas é impossível manter coerência e ser polidamente educado quando tudo o que sinto é limite.

dezesseis graus

Em algum momento da minha vida adulta, acreditei que abandonaria certos velhos hábitos. Mas ainda me vejo repetindo os mesmos erros, acreditando em verdades tolas, já desmentidas pelo tempo, que, quando retornam, voltam cheias de ilusão, disfarçadas de novas possibilidades. Mesmo desconfiado, com o pé atrás, reconhecendo a origem da notícia, sou cercado por dúvidas que não alertam: apenas seduzem. Dúvidas blindadas, vendadas com um toque de esperança, capazes de transformar cautela em hesitação. Sei que a armadilha está pronta, sei que sempre esteve. O inevitável não avisa, apenas espera. E ainda assim, o desejo de ser surpreendido me faz vacilar, faz com que eu aceite que velhas mentiras possam, desta vez, ser verdade. Não por acreditar nelas, mas porque resistir também cansa.

Um papo com Laura

Para quem nem acreditava que chegaria até aqui, a vida surpreendeu. Estar presente neste momento é conquista, é prova de superação, é mais do que viver: é vencer diariamente. Que sigamos com coragem, desejo, esperança e fé, sendo todos os dias conquistadores da nossa própria história. Esta é uma mensagem coletiva, mas cheia de amor, gratidão e verdade. Obrigado por cada palavra… você sabe o quanto tudo isso me atravessa. Nem sempre eu me sinto forte, nem sempre me sinto vencedor, mas ler o jeito como você me vê me dá um acolhimento enorme. Você é um vencedor, sempre. Por ser um homem com conquistas, com amores, com provocações, com grandes batalhas, pequenas guerras, grandes renovações e pequenos recuos — necessários para uma volta plena e definitiva. Você é como todo ser humano que tem um ideal e um significado justo e coerente. Sempre é uma fênix, que ressurge das cinzas para brilhar e voar livre. Voe livre, meu amigo, para contar seus contos, aumentar um ponto e dar brilho à vida da...

Laurinha

Você é um vencedor, sempre. Por ser um homem com conquistas, com amores, com provocações, com grandes batalhas, pequenas guerras, grandes renovações e pequenos recuos — necessários para uma volta plena e definitiva. Você é como todo ser humano que tem um ideal e um significado justo e coerente. Sempre é uma fênix, que ressurge das cinzas para brilhar e voar livre. Voe livre, meu amigo, para contar seus contos, aumentar um ponto e dar brilho à vida das pessoas que convivem com você. Te amo muito!

Natal

Um Natal diverso, cheio de compreensão, tolerância e amor genuíno. Sem preconceito — apenas amor. Que seja um tempo de verdade e acolhimento: acolhimento das diferenças, das semelhanças, das concordâncias e também das discordâncias. Que entendamos que, sozinhos, não somos nada; mas, juntos, somos muitos — e assim podemos alcançar objetivos maiores e mais humanos. Que os desejos do nosso coração sejam bons, e que o próximo esteja incluído em nossos planos, que tantas vezes são limitados e segregacionistas. Que possamos mudar isso. Que sejamos união. Nossa classe precisa aprender a caminhar lado a lado, nunca separados.

Favelados

Favelados, se formos somar, talvez estejamos caminhando para quase vinte anos de amizade e amor verdadeiro. Isso é de uma grandeza imensa. Manter, mesmo diante de tantas distâncias, esse respeito, essa amizade, esse carinho e esse amor é algo que valorizo profundamente. Guardo muitas memórias boas sobre tudo o que diz respeito a nós. Respeito nossas individualidades, nossos momentos de distanciamento e, sobretudo, a nossa conexão. O que existe em mim é um sentimento sincero: tudo é gratuito e cheio de amor genuíno. Mesmo que não nos vejamos com tanta frequência, vocês estão presentes na minha vida — nos pensamentos e nesse sentimento bonito chamado saudade. Amo cada um de uma forma única. Não é disputa nem comparação; é simplesmente o amor que cada um deixou em meu coração e que, de vez em quando, se agita entre lembranças adormecidas e transborda em recordações cheias de afeto. Feliz Natal. Feliz vida. Feliz amizade. Feliz continuidade.

Chuva

¿Qué haces acá? Este é sempre, sempre, o mesmo questionamento. Eu me vejo em esquinas, sempre, sempre em novas e conhecidas esquinas. Esquinas da vida, a curva da enxurrada, onde somente se enroscam os destroços. Eu sempre me vejo içado. E não me reconheço como o tal. Mas permaneço. Mesmo sem nome, sem identidade, fico na esquina. Se não sei quem sou, sei ao menos que não fui levado pela enxurrada. Permaneço a esperar, onde esse dilúvio me empurrará. Se é que a chuva um dia irá chegar.

Golias

Ouvi um som diferente do habitual, não era cachorro, nem era gato. Talvez um gafanhoto, que as asas tentou levantar. Ou talvez uma ida ao banheiro que, no meu estridente silêncio, fez-se despertar. Na camada da noite, cada silêncio é um movimento que chama atenção, mesmo com os dedos se descoordenando pelo chão para ruído não fazer. E eu incluo o garfo, o ruído do pão torrado, e da discreta mordida que não pode deixar dentes bater. Pois seu ranger pode acordar o Golias.

Mielina

Foi uma experiência antropológica. Falar sobre pessoas, das pessoas, dos próximos, de todos os que se encontram distantes. Pois não se fala mal de quem perto está. Dos mortos, sim, fala-se… Álcool, nicotina, ayahuasca, Mariana… Bainhas de menina, pessoas amielinizadas, sem sinapse. Não se encaixa, peça solta. Onde estaríamos se não estivéssemos aqui? Se o agora é ali, pois éramos — não estamos mais. Nunca fizemos igual, mesmo depois de anos de compreensão. Se eu acredito ou não, talvez seja apenas uma invenção que se tornou repetitiva informação, e que eu ouso não compreender

Novo

Decidi que deixarei tudo para trás., Pelo menos hoje, Decidi que deixarei tudo para trás, Pelo menos hoje, Que não vejo nada à minha frente. O que ficou no passado Já nem me lembro mais, Nem insisto em tentar relembrar. Não sei o que encontrarei, Quais memórias reconstruirei. Dependendo da emoção, será tragédia, Será satisfação. Melhor não descobrir, Ficar aberto às possibilidades De construir algo novo.

Saudades à parte

Quero expressar meus sentimentos, explorar meus pensamentos, ver se há algo que valha a pena compartilhar. Vou arriscar a sorte. Não vou falar sobre a morte nem sobre a tão penosa saudade. O que é uma pena não ser citada, pois é ela que me inspira a falar sobre saudades… Saudades à parte. Vamos falar de solidão, de abandono, de tristezas que somente nós reconhecemos. Nós as escondemos, mas nem sempre disfarçamos. No mês das luzes, muitas luzes se apagam. Desertos são revelados, continentes soterrados. Pois o brilho da hipocrisia é fascista: impulsiona o cativo a acreditar que sua prisão é liberdade. E não sabemos mais o que fazer com essa verdade, sempre chamada de liberdade, mas carregada de enganação.

Melodia

Ouço o que a música quer me dizer, dizeraudível para o meu coração. Cada nota, cada estrofe e compasso, sacode meu espírito e me lan4ça a um estado que nem sempre consigo . Percebo que há em mim algo enraizado, um desejo incontrolável de transpor barreiras. E a alma, ainda aprisionada, entende, a cada instante em que a canção ressoa, que eu deveria estar em outro lugar. Que não é aqui. Talvez nem seja ali. Talvez seja no solitário entendimento do lugar ao qual eu realmente deveria pertencer.

Inesperado

Estar entre os jovens é rejuvenescer, mesmo que por alguns instantes. Receber um convite inesperado é um pouco intrigante, porém aconchegante. Os sentimentos se mesclam, numa mistura desordenada, onde o inesperado se encontra com o desejado. Se eu não me encontro, me encaixo — na medida do impossível. Aconteceu sem ser previamente combinado. Viemos. Chegamos. Nos reunimos. Embora o contexto seja algo fora de qualquer texto previamente escrito, acredito que o acaso não se monta: ele se junta e apronta o irreconhecível. O que dará isso tudo? Somente o final das contas contabilizará. Se valerá a pena? Já valeu. O resto será apenas um exemplo de como a vida surpreende nos mais simples lugares em que você decide adentrar.

Colagem

Então, você se olha no espelho. A imagem que reflete revela o caos. Tudo aquilo que o coletivo imaginou era — de fato — a mais real das realidades. Tudo o que ignorei, sem compreender que era mais que toda verdade, nua e crua — como o cardápio posto à mesa que ninguém irá saborear. É isso o que sinto agora: cheio de desprezo, cheio de demora. Algo que nem eu mesmo posso compreender.

Reconstrução

Há uma vida para a qual não podemos mais voltar. Para onde iremos, então? Ao olharmos o passado, ele é sempre redesenhado. O observamos com ternura, outras vezes com remorso. Mas o que são os nossos dias, além de reconstruções e interpretações? Onde estão os punidos e os justificados? O que fazer com as memórias — essas que nos impulsionam a continuar ou nos empurram em um abismo, tirando-nos o chão? O que fazer da consciência, essa inconsistência que nos aflige e tira a direção? Como nos nortear, se a vida é um jogo onde as cartas são dadas de maneira aleatória? O que fazer com a sorte, se ela exige habilidade para sobrevivermos sem desistir da rodada?

Transmutação

Quero que tudo se converta em fogo, em lamento, em cinzas lançadas ao vento — que ninguém ouve, nem percebe o acontecimento. Quero que a água desça ao abismo, que se transforme em lodo, e dele nasça o entendimento. Que cada lágrima, antes de ser esquecimento, purifique o sofrimento, e lave da alma o que não encontra mais sustento. Pois é assim que me sinto agora: sem outrora, num tempo suspenso sobre a dor, sem o discernimento. Esperar é mais que demora — é o limiar entre o que morre e o que floresce, é o instante em que os sentidos se reconhecem no espelho do firmamento. E no meio desse rito de apagamento, há uma centelha, um sopro de luz incandescente — é o que me resta, é o que me mantém em pé.

A curva do outro lado do mundo

Foi na curva,  do outro lado do mundo. Foi lá que eu me perdi. Foi lá que me encontrei. Foi lá que esqueci que não tenho outro lugar pra me encostar, nem pra me manter em pé. Perto de nada, longe de tudo e de todos, onde jamais poderia imaginar que me encararia — e que, distraído, descobriria em mim o começo de voltar a ser... aquilo que eu nunca fui.

Boa noite

Boa noite... É tão bom ser lembrado, visitado, recebido — ainda que em sonhos... Ou melhor, ainda mais em sonhos. Isso significa que estou no subconsciente, naquele lugar onde se guardam as melhores memórias... ou as piores. Ou seja, aquelas que realmente marcaram. Estou encerrando o livro de memórias. Estava fazendo algo fantasioso, como se a vida tivesse sido um oásis, citando apenas as boas recordações. Mas, após uma análise, percebi que estava faltando veracidade. Então incluí alguns capítulos em que falo sobre as dores da infância. Cito momentos que foram muito dolorosos. Ao reler, chorei — mas também aprendi que tudo era preciso, necessário para chegar onde cheguei, da maneira que cheguei. Eu amo você. Senti-me visitado por você através dessa mensagem.

Hospital

Sonhei com você. Eu te procurava em um hospital. Sabia que você estava internado — não trabalhando. O lugar era imenso, e eu não sabia em que quarto ou seção procurar. Mas, quando me perguntei como faria para te encontrar, olhei para um homem; ele se virou — e era você. Então, te entreguei um saco com dinheiro — era para sua irmã. (No sonho, isso fazia todo sentido.) Não acho que o sonho signifique algo grandioso. Talvez signifique algo para mim, mas provavelmente não tenha nada a ver com você. Acho que meu cérebro te usou como símbolo — de algo ou alguém fácil de achar, identificável, acessível, mesmo quando tudo parece difícil. Alguém que não preciso procurar, porque já está ali, antes mesmo de ser perdido. Sonhei com você e lembrei de você — da sensação de segurança emocional que você transmite. Como uma grande casa de mãe. Espero que esteja bem. Espero que esteja escrevendo seu livro de memórias. E que não esteja sofrendo ao relembrá-las, mas sendo sincero com suas emoções. Espero ...

Vulcão

Já basta o que penso a meu respeito. Dentro de mim, meus sentimentos são densos, pois me reconheço — vejo apenas o imperfeito. Eu me incomodo com o vulcão instaurado no peito: hora desperto, hora sonolento, uma tempestade silenciosa, uma chama que não aquece — apenas queima, não adormece. E eu me perco e me encontro nela. Às vezes me desperta, alguns momentos me dispersa, faz-me vagar desatento — o que nem sempre me perturba, pois, quando não me vejo, desapareço diante de mim mesmo.