regricao
Aquelas palavras me destruíram por dentro.
Eu já estava profundamente fragilizado. Fragilizado pela descoberta da minha sexualidade, pela dificuldade de me aceitar, pelo sofrimento do fim de um relacionamento que, para mim, tinha sido vivido com intensidade verdadeira. Fragilizado também pela culpa e pelo vazio que ficaram depois da tentativa desesperada de interromper a minha própria existência. Eu precisava de acolhimento. Precisava de proteção. Precisava que alguém me dissesse que, apesar de tudo, eu continuava sendo digno de amor.
Mas a pessoa que deveria me abraçar naquele momento colocou ainda mais peso sobre mim.
Em vez de cuidado, vieram acusações.
Em vez de apoio, veio rejeição.
Em vez de amor, veio culpa.
Minha mãe transferiu para mim toda a dor, a frustração e a revolta que existiam dentro dela. E foi a partir daquele momento que a distância entre nós começou a nascer de verdade.
Depois daquela conversa, alguma coisa mudou definitivamente dentro da nossa relação.
A vida da minha mãe também se transformou. Ela se tornou uma pessoa ainda mais triste, mais amarga, mais depressiva. Parecia que nunca mais conseguia encontrar contentamento em nada. Tudo era motivo para ofensa, reclamação ou agressividade. E comigo isso se intensificou ainda mais. Minha presença parecia incomodá-la. Quem eu era parecia feri-la o tempo inteiro.
Com o passar dos anos, comecei a entender que permanecer naquela convivência estava me adoecendo profundamente. Eu já carregava dores demais para continuar vivendo diariamente sob rejeição. E então, quando surgiu a oportunidade, eu fui embora.
Saí de casa.
Me afastei dela.
Vim morar em Sorocaba.
Não foi uma partida leve. Não foi liberdade imediata. Foi uma mistura de sobrevivência, culpa, medo e necessidade de respirar longe daquele ambiente que constantemente me lembrava que eu não era aceito.
Porque a verdade é que minha mãe nunca conseguiu aceitar quem eu era.
E isso não tinha relação apenas com religião. Naquela época, ela ainda nem era uma pessoa verdadeiramente ligada ao cristianismo da forma como viria a ser depois. Ela frequentava diferentes igrejas, buscava respostas espirituais em vários lugares, mas o que existia nela ia além da religião. Era homofobia. Uma rejeição profunda e antiga que eu cresci ouvindo dentro de casa.
Desde pequeno, ouvi minha mãe dizer que tinha nojo de pessoas homossexuais.
Cresci escutando ofensas, piadas cruéis e comentários carregados de desprezo. Antes mesmo de compreender minha sexualidade, eu já tinha aprendido que existir daquela forma era algo condenável dentro da minha própria casa.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto para me aceitar.
Talvez por isso eu tenha sentido tanta vergonha de mim mesmo durante tantos anos.
Depois que fui embora, nossos encontros se tornaram cada vez mais raros. As visitas diminuíram. As conversas perderam o afeto. E quase todos os reencontros eram marcados por cobranças, críticas, ofensas e dores que nunca pareciam terminar.
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