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Mas seria injusto resumir a nossa história apenas à rejeição, à dor e à violência.
Como já disse anteriormente, minha mãe sempre foi uma mulher de extremos. Tudo nela era intenso demais. O amor vinha em excesso, assim como a raiva. O carinho era exagerado, quase sufocante às vezes, da mesma forma que as agressões emocionais também eram profundas. Ela nunca soube viver sentimentos pela metade.
E apesar de todas as feridas que carrego, eu também guardo muitas lembranças bonitas da nossa vida juntos. Existiram momentos felizes. Existiram demonstrações sinceras de amor, cuidado, preocupação e afeto. Houve risadas, proteção, dedicação e memórias que ainda hoje conseguem aquecer partes do meu coração.
Minha mãe amava de forma descontrolada.
Sem equilíbrio.
Sem filtros.
Sem limites emocionais.
E talvez justamente por isso tenha sido tudo tão intenso entre nós — tanto o amor quanto a dor.
O objetivo desta narrativa não é transformar minha mãe em vilã, nem apagar as coisas boas que vivemos. O que tento fazer aqui é mostrar o caminho que nos levou ao afastamento. Explicar por que duas pessoas que se amavam acabaram permanecendo tantos anos distantes uma da outra.
Porque o nosso afastamento não aconteceu de repente. Ele foi sendo construído lentamente, através das palavras que machucavam, das rejeições, dos silêncios, das culpas e das dores que nenhum de nós soube resolver.
E agora, tantos anos depois, a vida nos colocou novamente frente a frente.
Hoje minha mãe está perto dos oitenta anos. Fragilizada pelo envelhecimento, pela confusão mental, pelas perdas da memória. Ainda não existe uma certeza absoluta sobre o diagnóstico — demência, Alzheimer — mas existe a certeza de que ela já não é mais a mesma mulher de antes.
E, de alguma maneira difícil até de explicar, os nossos caminhos voltaram a se cruzar justamente nesse momento da vida.
Depois de tantos anos de distância, estamos novamente dividindo a existência. Só que agora em circunstâncias completamente diferentes. Eu já não sou aquele adolescente assustado tentando sobreviver à rejeição. E ela já não é mais a mulher forte, rígida e explosiva que dominava todos os ambientes ao redor.
Agora existe fragilidade dos dois lados.
E é justamente essa experiência que quero contar neste livro: o que significa voltar a conviver com a minha mãe nesse estado, nesse momento da vida, depois de tudo o que aconteceu entre nós.
Porque, mesmo depois de tanta dor, a vida ainda encontrou uma forma inesperada de nos colocar diante um do outro mais uma vez.

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