inicik da fustabci
Hoje, às vezes, minha mãe me olha como quem tenta reconhecer um rosto perdido dentro da névoa. Há dias em que ela segura minha mão com carinho, mas pergunta, baixinho:
— Quem é você mesmo?
Então eu sorrio, mesmo com o coração apertado, e respondo:
— Sou eu, mãe… seu filho.
Ela me observa em silêncio, procurando dentro da memória alguma porta que já não consegue abrir completamente. E foi numa dessas conversas, enquanto eu tentava explicar a ela quem eu era, que uma lembrança antiga voltou inteira para dentro de mim.
Quando eu era criança, minha mãe sempre me contou que eu era adotado. Nunca houve mentira, segredo ou descoberta dolorosa. A verdade cresceu comigo, misturada às coisas simples da vida, como o cheiro do café passado na cozinha ou o som da vassoura varrendo o quintal no fim da tarde. Ela dizia com ternura que eu tinha sido escolhido, um filho que Deus tinha colocado em seus braços.
Na minha cabeça de menino, porém, tudo ganhava um ar de fantasia. Eu imaginava que existia uma mulher responsável por “fazer” os bebês e entregá-los às mães que sonhavam com um filho. Durante muito tempo, aquilo me pareceu bonito. Até o dia em que comecei a entender que essa mulher existia de verdade.
Então nasceu em mim um medo silencioso: o medo de que alguém pudesse me tirar da única mãe que eu conhecia.
Tenho uma lembrança antiga, já meio embaçada pelo tempo. Um parque de diversões havia sido montado perto de casa. As luzes, a música, a poeira levantando do chão — tudo parecia enorme aos olhos de uma criança. Naquele dia, minha mãe me chamou de um jeito diferente e disse que uma mulher queria me conhecer.
Algo dentro de mim soube imediatamente quem era.
Lembro apenas de fragmentos: uma mulher morena caminhando em nossa direção, usando uma blusa vermelha que nunca saiu da minha memória. Não me lembro do rosto dela. Mas lembro exatamente do que senti.
Medo.
Estendi os braços para minha mãe e pedi:
— Mãe… me pega no colo…
Ela me abraçou, e eu escondi o rosto em seu ombro, como se aquele fosse o único lugar seguro do mundo. Depois que a mulher foi embora, encontrei alguns espetinhos de madeira jogados perto de uma barraca e os recolhi com minhas mãos pequenas. Voltei correndo e disse, num desespero inocente que só uma criança pode ter:
— Mãe… se ela voltar pra me levar… eu vou furar ela com esses espetinhos.
Minha mãe se abaixou diante de mim, segurou meu rosto com delicadeza e falou numa voz mansa que atravessou minha vida inteira:
— Não, meu filho… ninguém vai tirar você de mim. Você é meu filho. E sempre vai ser.
Hoje, tantos anos depois, sentado diante dela enquanto tento ajudá-la a lembrar quem eu sou, percebo a profundidade daquele instante.
Na infância, eu tinha medo de perder minha mãe. Agora, sou eu quem assiste, aos poucos, a memória dela se afastando de mim. Mas existe algo que a doença não consegue apagar: o amor construído entre nós.
Ela talvez já não consiga encontrar meu nome dentro das lembranças. Talvez já não se lembre da história inteira. Mas eu lembro.
Lembro do colo. Lembro da voz. Lembro da promessa.
E, no fundo, acho que o amor verdadeiro é isso: alguém continuar sendo abrigo para o outro, mesmo quando a memória começa a partir.
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