dor
Quando a minha puberdade começou, junto dela veio também uma descoberta silenciosa e assustadora. Aos poucos, comecei a perceber que existia algo diferente em mim. Enquanto os outros meninos pareciam seguir caminhos naturais e aceitos, eu carregava sentimentos que não conseguia compreender completamente, mas que já sabia que precisavam permanecer escondidos.
Foi nesse período que entendi, ainda que com medo e confusão, que eu era gay.
Durante muito tempo consegui esconder isso dentro de mim e, de certa forma, esconder também dela. Mas sempre existiam pequenos deslizes — um gesto, um jeito de falar, uma sensibilidade maior — coisas que despertavam nela uma desconfiança constante. E quando isso acontecia, vinham as agressões, as palavras cruéis e os apelidos pejorativos. Ela me chamava de “Claudinéria”, zombava da minha maneira de ser e fazia perguntas diretas sobre a minha sexualidade.
“Você é gay?”
Toda vez que ela perguntava, eu negava.
Negava por medo.
Medo da violência.
Medo da rejeição.
E também porque, no fundo, eu ainda não sabia lidar completamente com aquilo dentro de mim. Era difícil explicar aos outros algo que eu mesmo ainda tentava entender.
Mas a vida continuava acontecendo em silêncio dentro do meu coração. E foi mais ou menos quando eu tinha quatorze ou quinze anos que conheci um menino da minha idade. Um amigo. Alguém que, sem perceber, acabou se tornando o meu primeiro grande amor.
Não quero expor detalhes dessa história nem envolver nomes, porque algumas lembranças pertencem apenas ao tempo e às pessoas que as viveram. Mas o que existiu entre nós foi intenso para mim. Pela primeira vez, eu me senti visto. Pela primeira vez, senti carinho, desejo, afeto e pertencimento ao mesmo tempo. Era um sentimento novo, bonito e assustador.
Só que, como tantas coisas na minha vida naquela época, aquilo também terminou em dor.
Nós nos desentendemos. Houve afastamento, rejeição e um vazio tão grande que eu não consegui suportar. Hoje eu entendo que não era apenas o fim de um amor adolescente. Era o acúmulo de anos de medo, repressão, solidão e silêncio explodindo dentro de mim de uma vez só.
A dor se tornou insuportável.
E foi nesse momento que tentei fugir dela da única maneira que meu desespero encontrou. Tomei uma cartela inteira dos remédios psicotrópicos da minha mãe. Ela usava Rivotril para dormir, e eu tomei tudo o que encontrei.
Naquele momento, talvez eu não quisesse exatamente morrer. O que eu queria era fazer a dor parar. Eu queria silenciar aquele sofrimento que parecia esmagar meu peito por dentro. Queria dormir sem sentir culpa, medo, abandono e rejeição.
Era uma tentativa desesperada de cessar uma dor emocional que eu já não conseguia carregar sozinho.
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