deuses
Minha cabeça parece um vulcão em erupção.
E eu não sei mais distinguir se isso é destruição ou nascimento.
Tem dias que eu sinto que vivi cem vidas dentro de uma só.
E todas elas falam ao mesmo tempo.
Como se existisse uma multidão dentro de mim pedindo passagem, pedindo voz, pedindo para finalmente existir fora do silêncio.
São histórias demais.
Dor demais.
Memórias demais.
E eu não tenho tempo de organizar o caos que me habita.
Porque enquanto a vida acontece aqui fora, existe um universo inteiro desmoronando e se reconstruindo dentro de mim.
E ninguém vê.
Ninguém imagina.
As pessoas olham pra mim e talvez enxerguem apenas alguém cansado.
Mas eu sei que o cansaço vai muito além do corpo.
É um cansaço da alma.
Da mente.
Da tentativa constante de transformar sentimento em palavras e nunca conseguir explicar exatamente o que existe aqui dentro.
Porque como explicar uma vida inteira sem explodir junto?
Como colocar em ordem lembranças que chegam queimando?
Uma puxando a outra.
Uma ferida abrindo outra.
Uma saudade atravessando uma dor que eu achei que já tinha enterrado.
Tem momentos da minha vida que ainda moram em mim como se tivessem acontecido ontem.
O abandono.
O frio.
As noites em que eu me senti invisível.
Os lugares onde eu dormi sem saber se o amanhã viria com esperança ou mais peso.
E ao mesmo tempo… também existiram sonhos.
Pessoas.
Pequenas luzes no meio da escuridão.
Porque até nas fases mais difíceis da minha vida, alguma parte de mim continuou insistindo em sobreviver.
Talvez seja isso que me mantém de pé até hoje.
Mas eu confesso…
às vezes é difícil carregar tanta coisa sem transbordar.
Porque minha mente não descansa.
Ela cria.
Ela revive.
Ela conversa sozinha com fantasmas antigos enquanto o mundo continua exigindo normalidade.
E eu sigo tentando parecer inteiro, enquanto por dentro existe lava correndo em todas as direções.
O mais estranho é que eu não quero atenção.
Não quero que sintam pena.
Eu só queria conseguir transformar tudo isso em alguma coisa que pudesse ser compreendida.
Queria pegar esse excesso de vida dentro de mim e fazer virar texto.
Livro.
Memória.
Verdade.
Porque eu sinto que se eu não escrever… tudo isso vai continuar queimando em silêncio dentro de mim.
E talvez seja exatamente por isso que eu ainda escrevo.
Não porque eu saiba organizar a dor.
Mas porque escrever é a única forma que encontrei de não desaparecer dentro dela.
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