revelação
Na noite em que tomei os comprimidos da minha mãe, eu estava tomado por uma tristeza profunda. Não pensei em consequências, não pensei no amanhã. Eu apenas queria apagar a dor que existia dentro de mim. Tomei os remédios e, pouco a pouco, fui ficando entorpecido, distante de tudo, como se meu corpo estivesse desligando enquanto minha mente tentava fugir daquele sofrimento insuportável.
Mamãe só percebeu o que havia acontecido na manhã seguinte.
O dia já tinha começado quando ela entrou no quarto e viu que eu não acordava. Ela começou a me sacudir, me chacoalhar, tentando me despertar, mas eu mal conseguia responder. Meu corpo estava pesado demais por causa da quantidade de medicamentos que eu havia ingerido. Minha voz saía fraca, quase inexistente. Eu estava perdido dentro de um torpor profundo.
Por uma sorte enorme, nada mais grave aconteceu. Durante alguns dias permaneci dopado, confuso, sem compreender completamente o que estava acontecendo ao meu redor. O tempo parecia lento, distante, como se eu estivesse preso entre o sono e a realidade.
Mas existe um momento daquela história que jamais saiu da minha memória.
Quando finalmente recuperei a consciência por completo, quando minha mente voltou a funcionar com clareza, encontrei minha mãe sentada ao lado da minha cama. Ela estava em silêncio, parada numa cadeira perto de mim. O ambiente parecia pesado. E então ela me fez uma pergunta:
— Você se lembra do que falou pra mim?
Naquele instante, meu corpo inteiro gelou.
Porque, no fundo, eu já sabia. Durante o efeito dos remédios, em algum momento eu havia contado a verdade. Eu havia revelado que era gay. Mas, acima de tudo, o meu maior medo era outro: eu temia ter contado o nome do menino com quem eu me relacionava. Tinha medo de expor alguém junto comigo. Tinha medo de destruir outra vida além da minha.
Mas isso não aconteceu.
Então ela olhou para mim e disse:
— Você falou pra mim que gosta de homens. Que você é gay. E eu quero deixar uma coisa bem clara pra você.
O que veio depois atravessou minha vida como uma ferida que nunca desapareceu completamente.
Ela disse que era estéril. Disse que nunca pôde ter filhos. E então falou que não queria me adotar, que só me pegou porque meu pai insistiu. Segundo ela, se Deus havia permitido que ela fosse estéril, era porque não queria que ela fosse mãe.
E então vieram as palavras que destruíram alguma coisa dentro de mim naquele dia.
Ela disse que, ao me adotar, foi contra a vontade de Deus. E que Deus a havia castigado por isso. Castigado dando a ela “a coisa que ela mais abominava na vida”: um filho homossexual.
Disse que nunca deveria ter me levado para casa.
Que insistiu em ser mãe quando não deveria.
E que eu era o castigo dela.
Eu ainda era praticamente um menino quando ouvi aquilo.
E existem palavras que não terminam quando a conversa acaba. Elas continuam vivendo dentro da gente por muitos anos.
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