intro

Minha mãe nunca foi uma mulher simples de definir.
Talvez porque ela mesma nunca tenha pertencido a um só lado da vida. Existia nela uma intensidade que transbordava tudo: o amor, a raiva, a alegria, a dor. Nada vinha pouco. Tudo nela era excesso.
Ela foi uma mulher conhecida pelo temperamento difícil, pelas explosões, pelas brigas, pela forma bruta de tratar as pessoas. Na cidade, muitos a temiam. Sua violência não era segredo para ninguém. As palavras vinham cortantes, os gestos vinham carregados de agressividade, e conviver com ela significava nunca saber exatamente qual versão dela pisaria pela porta naquele dia.
Mas seria injusto falar apenas da mulher violenta, porque dentro dela também existia alguém profundamente humana, divertida e carismática. Quando estava bem, ela dominava qualquer ambiente. Contava piadas, inventava causos, fazia as pessoas rirem até perder o fôlego. Tinha uma presença forte, impossível de ignorar. As pessoas que conseguiam atravessar sua dureza e alcançar seus momentos de afeto acabavam gostando dela com facilidade.
E talvez seja justamente essa contradição que melhor descreva sua existência.
Minha mãe conseguia ser, ao mesmo tempo, amorosa e assustadora. Carinhosa e cruel. Protetora e destrutiva. Havia dias em que seu abraço parecia abrigo; em outros, sua presença parecia tempestade. Ela amava de forma intensa, mas também machucava com a mesma intensidade. Com o passar do tempo, ela própria chegou a reconhecer esse amor depois da adoção, mas isso nunca apagou as marcas deixadas pela violência que também fazia parte dela.
Eu cresci dentro desse cenário.
Cresci aprendendo a decifrar silêncios, mudanças de humor, passos, olhares e tons de voz. Cresci entre momentos de carinho e episódios de medo. Entre risadas inesperadas e explosões imprevisíveis. Minha infância foi atravessada por essa dualidade constante: o colo e a ameaça convivendo dentro da mesma pessoa.
Por muito tempo, tentei entender quem era minha mãe de verdade. Mas talvez a resposta mais honesta seja esta: ela era todas aquelas versões ao mesmo tempo.
E é impossível contar a história da mulher que hoje vive diante de mim, fragilizada pela demência, sem antes falar da mulher que ela foi um dia — intensa, contraditória, difícil, amorosa, violenta e profundamente humana.

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