centro

Há alguns dias venho tentando resgatar partes da minha vida que ficaram escondidas em algum canto da memória. Algumas delas voltam com facilidade, outras aparecem apenas em fragmentos, como pequenas luzes acesas em corredores escuros da mente. Desde que a doença da minha mãe começou a avançar, eu percebi uma coisa muito estranha e ao mesmo tempo muito humana: enquanto ela esquecia o presente, ela se agarrava ao passado. Repetia histórias, voltava nos mesmos acontecimentos, falava de pessoas que já morreram, de lugares que nem existem mais, de situações que talvez ninguém mais lembrasse além dela. E foi ouvindo essas repetições que muita coisa dentro de mim também voltou a existir.
Durante muito tempo achei que certas lembranças estavam perdidas para sempre. Algumas voltaram através das palavras dela. Outras voltaram através do silêncio. E algumas surgiram da forma mais inesperada possível, como aconteceu hoje.
Eu estava passando pela frente de um centro espiritual e percebi uma movimentação diferente. O lugar estava cheio. Havia carros estacionados na rua, pessoas vestidas de branco entrando pelo portão, crianças correndo pelo lado de fora e um som de atabaques vindo lá do fundo do terreiro. Diminuí a velocidade do carro e fiquei observando. Por alguns segundos pensei em seguir viagem, mas alguma coisa me fez parar.
Talvez tenha sido curiosidade. Talvez saudade. Talvez apenas memória.
Desci do carro sem saber muito bem o motivo e fui caminhando devagar até a entrada. O ambiente tinha aquele cheiro conhecido de vela, ervas queimadas, perfume forte e chão molhado. Havia imagens religiosas espalhadas pelo espaço, guias coloridas no pescoço de algumas pessoas, mulheres de vestidos brancos e homens concentrados organizando o ritual. Ninguém me perguntou nada. Apenas entrei e fiquei observando.
Com o passar do tempo fui percebendo que se tratava de uma gira de crianças, algo muito comum dentro de algumas linhas da umbanda. Embora muita gente de fora veja esse tipo de manifestação com preconceito ou desconhecimento, existe ali uma simbologia muito profunda. As entidades chamadas de “crianças” ou “erês” representam inocência, pureza, alegria, espontaneidade e também uma forma simples de sabedoria espiritual. São entidades que brincam, riem, correm, pedem doces, conversam de maneira infantilizada e muitas vezes usam exatamente a leveza para transmitir mensagens difíceis.
Enquanto eu observava tudo aquilo, fui sendo transportado para muito longe dali.
Lembrei da minha mãe me levando em um lugar parecido quando eu ainda era criança. Até hoje não sei exatamente qual era a religião. Naquela época, para mim, tudo era apenas “centro”. Algumas pessoas chamavam de espiritismo, outras de macumba, outras de quimbanda, outras de umbanda. Cresci ouvindo nomes diferentes, quase sempre ditos de maneira confusa ou preconceituosa pelas pessoas ao redor. Mas a verdade é que eu era pequeno demais para entender definições religiosas. O que eu via era um mundo estranho, misterioso e fascinante acontecendo diante dos meus olhos.
Lembro das rodas formadas no terreiro. Das velas acesas iluminando pouco o ambiente. Dos atabaques ritmados fazendo o chão vibrar. Das pessoas girando lentamente até que, de repente, começavam a mudar o comportamento. Alguns se curvavam como velhos cansados, outros falavam como crianças, brincavam, corriam, riam alto, mexiam com quem estava ao redor. E eu, menino ainda, observava tudo aquilo com um misto de medo, curiosidade e encanto.
Naquela idade a gente não analisa religião. A criança apenas sente.
E eu sentia que havia algo diferente acontecendo ali.
Lembro perfeitamente de uma vez em que fui chamado para o meio da roda. As entidades distribuíam doces para as crianças presentes. Balas, pirulitos, pedaços de bolo, refrigerante. Aquilo para mim parecia uma festa. Enquanto os adultos enxergavam espiritualidade, fé ou manifestação mediúnica, eu enxergava um lugar cheio de sons, movimentos e pessoas felizes me oferecendo doces. Talvez por isso a lembrança tenha permanecido tão viva dentro de mim durante todos esses anos.
Hoje, parado naquele terreiro novamente, senti exatamente a mesma sensação.
As entidades começaram a chegar. Algumas batiam palmas, outras falavam fino, algumas se sentavam no chão, outras brincavam umas com as outras. Em determinado momento colocaram doces em grandes recipientes no centro da roda e as pessoas incorporadas corriam até eles como crianças ansiosas em festa de aniversário. Foi impossível não lembrar da minha mãe.
Ela frequentava esses lugares.
Ela acreditava naquilo.
Depois de algum tempo, porém, sua vida tomou outro rumo. Tornou-se evangélica e passou a condenar exatamente aquilo que um dia havia frequentado. Muitas vezes ouvi críticas duras saindo de sua boca. Chamava de pecado, dizia que eram coisas erradas, que Deus não aprovava. E durante anos eu vi nela essa transformação radical, tão comum em muitas pessoas que mudam de religião no Brasil.
O Brasil, aliás, sempre foi um país profundamente misturado espiritualmente. Nossa cultura religiosa nasceu do encontro forçado entre indígenas, africanos escravizados e europeus católicos. A umbanda, por exemplo, surgiu justamente dessa mistura improvável, carregando elementos africanos, católicos, espíritas kardecistas e indígenas. Durante décadas essas religiões sobreviveram escondidas, perseguidas, chamadas de feitiçaria ou coisa demoníaca. Mesmo assim resistiram. Resistiram através dos tambores, das rezas, das ervas, das incorporações e principalmente da memória oral das pessoas simples.
Talvez por isso aquele ambiente tenha mexido tanto comigo hoje.
Não era apenas um centro espiritual.
Era um pedaço escondido da história do Brasil.
Era um pedaço escondido da história da minha mãe.
E talvez um pedaço da minha própria história também.
Fiquei sentado observando tudo em silêncio. Em determinado momento uma pessoa se aproximou e perguntou se eu queria pegar uma senha para conversar com uma entidade ou receber um passe espiritual. Peguei a senha número 51. Guardei no bolso e continuei observando.
O tempo foi passando devagar.
Os atabaques continuavam tocando. As pessoas entravam e saíam. Algumas choravam discretamente após receber atendimento. Outras saíam sorrindo. Havia idosos, jovens, crianças de colo e pessoas claramente sofridas procurando algum tipo de resposta para suas dores invisíveis.
E eu ali no meio.
Nem buscando cura.
Nem buscando religião.
Nem buscando conversão.
Eu estava apenas buscando memórias.
Depois de um tempo percebi que a fila demoraria muito. Tirei a senha do bolso, olhei para o número 51 mais uma vez e resolvi ir embora. Curiosamente, não senti frustração alguma. Porque no fundo eu percebi que já tinha recebido o que fui buscar sem nem saber que procurava.
A lembrança da minha mãe.
Uma lembrança viva.
Uma lembrança cheia de sons.
Cheia de imagens.
Cheia de infância.
Enquanto vinha embora, pensei em como a vida é estranha. Hoje minha mãe já não lembra dessas coisas. Talvez nem lembre que me levou nesses lugares. Talvez nem lembre do menino que um dia entrou assustado numa roda espiritual para ganhar doces das entidades crianças.
Mas eu lembro.
E talvez agora eu me torne uma espécie de guardião dessas memórias que desapareceram dela.
Também pensei em outra coisa que me atravessou profundamente enquanto observava aquele ritual. Hoje, no estado em que ela se encontra, já não existe condenação religiosa dentro dela. Já não existe disputa espiritual. Já não existe aquela rigidez de antes. A doença apagou muitos julgamentos, muitas certezas e muitas revoltas.
E de certa forma isso dói.
Mas de certa forma também humaniza.
Hoje ela provavelmente não me condenaria mais por entrar naquele lugar.
Talvez apenas segurasse minha mão e entrasse comigo.
E talvez fosse exatamente isso que a criança dentro de mim estivesse procurando quando decidiu parar o carro e entrar naquele terreiro sem saber direito o motivo.

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