Sobras
O Deus Que Ficou Comigo
Depois de atravessar tantas religiões sem realmente pertencer a nenhuma delas, cheguei em um lugar estranho da vida: um território onde a fé deixou de ser obrigação e passou a ser silêncio.
Hoje, quando penso em espiritualidade, não me vejo dentro de doutrinas rígidas, regras absolutas ou verdades prontas. Também não me vejo como alguém revoltado contra Deus. Pelo contrário. Talvez pela primeira vez na vida eu tenha conseguido construir uma relação espiritual que não nasce do medo.
E isso mudou tudo.
Durante muitos anos, minha experiência religiosa esteve ligada à culpa. A sensação constante de inadequação. A ideia de que eu precisava me corrigir para ser digno de amor divino. Como se existisse um tribunal invisível acompanhando cada pensamento meu, cada desejo, cada detalhe da minha existência.
Era cansativo viver assim.
Talvez existam pessoas que consigam sentir paz dentro de religiões extremamente rígidas. Eu não consegui. Em mim, a fé misturada ao medo produziu ansiedade, silêncio emocional e uma sensação permanente de fracasso espiritual.
Porque eu nunca conseguia ser exatamente aquilo que esperavam.
Então, aos poucos, fui me afastando não necessariamente de Deus, mas das versões de Deus que me apresentaram.
E isso demorou anos para acontecer.
No começo havia medo. Muito medo.
Medo de estar errado.
Medo de decepcionar minha mãe.
Medo de ser castigado.
Medo de morrer.
Medo do inferno.
Medo de mim mesmo.
A religião, em alguns momentos da minha vida, me ensinou mais a temer do que amar.
Mas o tempo faz coisas silenciosas dentro da gente.
A maturidade começa lentamente a separar aquilo que é espiritualidade daquilo que é controle humano. E hoje percebo que muitas vezes as pessoas falam em nome de Deus quando, na verdade, estão falando apenas de seus próprios medos, preconceitos e limitações.
Foi preciso muito tempo para eu entender que talvez Deus não tivesse a mesma obsessão em me condenar que algumas pessoas tinham.
Hoje eu olho para mim espiritualmente de maneira muito diferente.
Não tenho preconceito contra religião alguma. Já vi fé sincera em igrejas evangélicas, em centros espíritas, em terreiros, em igrejas católicas simples do interior e até em pessoas que não seguem religião nenhuma, mas carregam uma bondade genuína dentro de si.
Aprendi que a fé humana assume muitas linguagens.
Alguns rezam ajoelhados.
Outros acendem velas.
Outros cantam.
Outros incorporam entidades.
Outros apenas olham o céu em silêncio antes de dormir.
E talvez Deus, se existir da maneira como imaginamos, compreenda todos esses idiomas.
Hoje eu acredito que exista algo maior.
Não uma certeza arrogante.
Não uma verdade absoluta.
Mas uma percepção íntima de que talvez a existência não seja apenas matéria, acaso e sofrimento.
Existe algo dentro de mim que sente uma presença suave atravessando a vida. Algo que não sei explicar racionalmente. Não é um espírito falando comigo. Não é milagre. Não é fanatismo.
É apenas uma sensação profunda de companhia.
E o Deus em que acredito hoje não é exatamente o Deus das instituições religiosas.
É o meu Deus.
Um Deus que não exige de mim humilhação permanente.
Um Deus que não transforma minha existência em erro.
Um Deus que não fica contabilizando meus desejos, minhas falhas ou minha sexualidade como se estivesse construindo um processo criminal contra minha alma.
O Deus que ficou comigo depois de todas as rupturas é diferente.
Ele me conhece completamente.
Conhece minhas dores, minhas contradições, meus erros, minhas fraquezas, minhas dúvidas e meus medos mais silenciosos. E justamente por conhecer tudo isso, não preciso fingir diante dele.
Talvez essa seja a primeira experiência espiritual verdadeira que tive na vida: não precisar mentir para ser amado.
Hoje não converso com Deus tentando negociar salvação.
Não peço para ser transformado em outra pessoa.
Não imploro perdão por existir da maneira que existo.
Minha espiritualidade se tornou mais simples.
Eu agradeço.
Eu observo.
Eu converso silenciosamente com esse mistério que me acompanha.
Às vezes sinto sua presença em pequenos detalhes da vida. Em noites silenciosas. Em memórias antigas. Em momentos difíceis que consegui atravessar sem saber exatamente de onde veio a força. Em pessoas que apareceram no momento certo. Em livramentos invisíveis que talvez nem percebi completamente.
E principalmente no fato de eu ainda estar aqui.
Porque olhando para trás, percebo quantas batalhas emocionais atravessei tentando sobreviver dentro de mim mesmo.
Hoje não sinto necessidade de convencer ninguém sobre minha fé.
Talvez porque ela finalmente tenha deixado de ser guerra.
Meu Deus não precisa destruir a religião de ninguém para existir dentro de mim.
Ele não me manda odiar.
Não me manda condenar.
Não me manda excluir pessoas.
Não me manda viver aterrorizado.
O Deus que aprendi a conhecer ao longo da vida parece muito mais interessado em consciência do que em regras.
Muito mais interessado em amor do que em controle.
Muito mais interessado em verdade interior do que em performance religiosa.
E existe uma liberdade imensa nisso.
Porque pela primeira vez sinto que posso existir espiritualmente sem precisar mutilar minha humanidade.
Hoje compreendo que minha fé não nasceu de doutrinas. Nasceu da sobrevivência.
Ela foi sendo construída lentamente entre dores, perdas, rejeições, saudades, culpas e tentativas de entendimento sobre a própria existência.
Talvez seja por isso que minha espiritualidade seja tão íntima.
Ela não veio pronta.
Foi construída aos pedaços.
Entre ruínas emocionais, memórias da infância, conflitos familiares e longas conversas silenciosas comigo mesmo.
E mesmo sem respostas definitivas sobre o universo, sobre vida após a morte ou sobre os mistérios espirituais que atravessam a humanidade desde o início dos tempos, existe algo que hoje carrego comigo como verdade pessoal:
Se Deus existir de fato, acredito profundamente que ele seja maior do que o medo que criaram em nome dele.
E gosto de imaginar que, se um dia eu estiver diante desse Deus, não encontrarei um juiz procurando defeitos em mim.
Encontrarei apenas uma presença que sempre soube exatamente quem eu era.
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