o Deus que sobrevive
Quando Minha Mãe Esqueceu Deus
Existe uma ironia silenciosa e profundamente humana acontecendo dentro da minha casa.
Minha mãe passou mais de trinta anos vivendo dentro de uma religião rígida. Uma fé construída sobre regras, condenações, medos espirituais e certezas absolutas. Durante décadas, ela organizou sua existência através daquela doutrina. Orava da maneira correta, vestia-se da maneira correta, falava da maneira correta e acreditava estar protegendo sua alma e a alma daqueles que amava.
Ou pelo menos tentava.
Hoje, porém, a doença começou lentamente a desmontar tudo isso.
A demência entrou em sua mente como um vento atravessando uma casa antiga, levando embora memórias, referências, convicções e partes inteiras de quem ela acreditava ser. Algumas coisas desapareceram rapidamente. Outras resistem de maneira fragmentada.
Ela ainda ora.
Às vezes ainda coloca o véu sobre a cabeça.
Ainda me abençoa.
Ainda conversa com Deus à sua maneira.
Mas existe algo profundamente diferente agora.
Os dogmas desapareceram.
As proibições desapareceram.
As condenações desapareceram.
O Deus severo começou lentamente a se dissolver dentro de sua memória cansada.
E talvez uma das imagens mais simbólicas da minha vida tenha acontecido dentro da simplicidade de um corte de cabelo.
Durante anos, o cabelo dela representava devoção. Era sagrado. Era submissão religiosa. Era parte da identidade espiritual que ela construiu para si mesma. Cortar aquele cabelo seria quase uma profanação dentro do universo que ela habitava.
E então um dia eu cortei.
Com cuidado.
Com delicadeza.
Sem cerimônia religiosa.
Sem culpa.
Sem castigo divino.
E ela simplesmente esqueceu que aquilo um dia foi pecado.
A doença apagou a regra.
Mas preservou o afeto.
Isso me faz pensar em quantas coisas os seres humanos transformam em eternas, quando na verdade são apenas construções frágeis da mente e da cultura.
Hoje minha mãe já não sustenta as mesmas certezas teológicas que sustentou durante grande parte da vida. Em muitos momentos ela sequer consegue reconhecer plenamente a religião à qual dedicou décadas inteiras de devoção.
Mas curiosamente, algo permaneceu.
O amor.
E talvez pela primeira vez em muitos anos, um amor sem vigilância.
Sem tentativa de correção.
Sem condenação espiritual.
Sem medo constante do inferno pairando entre nós.
Existe algo profundamente triste e bonito nisso tudo.
Porque percebo que minha mãe não precisou deixar de amar menos a Deus para amar mais o próprio filho. O que desapareceu foi o sistema de culpa e medo que intermediava esse amor.
A religião que um dia prometeu salvá-la acabou criando uma distância enorme entre nós. Não porque ela fosse má. Não porque não existisse amor. Mas porque ela acreditava sinceramente que precisava me curar.
E talvez essa seja uma das tragédias mais dolorosas produzidas por certas formas de religiosidade: pessoas que amam profundamente umas às outras acabam se machucando em nome da salvação.
Minha mãe queria me salvar.
Queria me transformar.
Queria arrancar de mim aquilo que ela acreditava afastar minha alma de Deus.
E ao fazer isso, acabou me afastando dela.
Hoje, porém, a vida produziu algo inesperado.
A mulher que durante anos tentou corrigir minha existência já não consegue sustentar aquela condenação. A doença levou embora os mecanismos religiosos que filtravam nossa relação. E o que ficou foi algo muito mais simples e talvez muito mais verdadeiro.
Ela apenas me ama.
E eu sinto isso nos pequenos gestos.
Na forma como me olha.
Na tranquilidade que sente perto de mim.
Na confiança infantil que agora deposita em minhas mãos enquanto a conduzo pelos dias difíceis da velhice e da confusão mental.
Hoje sou eu quem a protege.
Sou eu quem organiza seus horários, seus remédios, seus esquecimentos e seus medos silenciosos.
E existe algo quase espiritual nisso tudo.
Porque durante décadas tentei ser aceito por ela. Hoje, paradoxalmente, foi justamente quando sua mente começou a se perder que finalmente nos encontramos novamente.
Às vezes penso algo que talvez soe cruel, mas que nasce de uma dor honesta: a demência destruiu preconceitos que o amor sozinho não conseguiu destruir.
E isso me atravessa profundamente.
Porque percebo que aquela mãe rígida, vigilante, condenatória e espiritualmente assustada talvez também fosse vítima do próprio medo religioso. Talvez ela tenha passado a vida inteira acreditando que amar significava corrigir. Que proteger significava controlar. Que salvar alguém exigia feri-lo primeiro.
Hoje não existe mais isso.
Hoje existe uma mulher cansada, fragilizada, esquecida de muitas coisas, mas emocionalmente mais próxima de mim do que esteve em décadas inteiras.
E talvez o mais estranho seja perceber que ela não abandonou completamente Deus.
Ela apenas abandonou o Deus do medo.
O Deus da condenação.
O Deus que dividia pessoas entre puras e impuras.
Hoje resta nela apenas uma espiritualidade quase infantil, suave, intuitiva. Um Deus sem sistema teológico complexo. Um Deus que cabe mais no afeto do que nas regras.
E talvez isso tenha nos unido novamente.
Às vezes observo minha mãe em silêncio e penso que, no final da vida, todas aquelas certezas religiosas tão rígidas começaram lentamente a desaparecer, enquanto aquilo que realmente importava permaneceu intacto.
O carinho.
A necessidade de afeto.
O desejo de proximidade.
O amor.
Talvez seja isso que sobra quando a mente já não consegue sustentar doutrinas.
E talvez seja justamente aí que começo a enxergar Deus de verdade.
Não no medo.
Não na condenação.
Não nas regras.
Mas nesse vínculo invisível que hoje existe entre nós.
Um vínculo construído não pela religião que ela seguiu durante décadas, mas por algo muito maior e mais humano que sobreviveu apesar dela.
Hoje vivemos juntos quase como duas pessoas atravessadas pelo mesmo mistério.
Ela, esquecendo lentamente quem acreditava ser.
Eu, finalmente deixando de precisar fugir de quem sou.
E entre nós existe esse Deus invisível que não exige explicações.
Um Deus que não me condena.
Um Deus que não a condena.
Um Deus que talvez nunca tenha desejado a distância que construíram em nome dele.
Às vezes penso que talvez esse seja o único Deus possível para mim.
O Deus que permanece quando todas as doutrinas acabam.
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